Capítulo I — Ashley

2510 Words
Ashley acordou com os gritos de sua avó vindos do andar de baixo. Ainda não eram sete horas, mas a rotina na casa dos Mitchell começava cedo — pelo menos para ela. A cozinha tinha de estar impecavelmente limpa antes que Ashley fosse para a escola, assim como o seu pequeno quarto no sótão e o banheiro que usava no segundo andar. Ashley não se incomodava em reclamar ou expressar sua opinião sobre as tarefas, pois já virara hábito. Além disso, faria a avó voltar com o assunto de como "ela matara o próprio pai" que sempre a deixava tremendo de raiva. — Rápido, Ashley! — A avó esmurrou a porta o mais forte que conseguia com seus braços finos. Ashley se levantou a contragosto, controlando a raiva dentro de si. Ela podia sentir o chão tremendo enquanto andava pelo quarto, mas ignorou. Em Los Angeles, onde morava, terremotos eram frequentes e geralmente de baixa intensidade. Ela olhou para a foto que tinha dos pais na mesa de cabeceira quase por instinto. Aquela foto era a única que possuía com a mãe na casa inteira, já que a avó picotara todas as outras. Ashley amaldiçoou-os silenciosamente por morrerem naquele e******o acidente de carro quinze anos antes, que a fizera ir morar com os avôs paternos. Apenas uma olhada no espelho toda manhã bastava para Ashley entender porque a sua avó a odiava tanto: era idêntica à mãe. Os mesmos olhos castanhos, a mesma pele cor de caramelo, o mesmo tom escuro de cabelo... A única coisa que fazia Ashley ter certeza de que era parente dos Mitchell era a marca de nascença em forma de uma pequena árvore em seu ombro esquerdo. Ela trocou-se rapidamente e tirou um par de sapatos do seu caminho. Antes de descer, olhou para o quarto. Era minúsculo se comparado ao quarto livre do segundo andar, mas cabia a sua cama, seu guarda-roupa e sua televisão, então para Ashley estava tudo bem. Ashley sabia que não podia encarar sua avó sem as tarefas feitas. Rumou para o banheiro que usava e entrou. Escovou os dentes e desnecessariamente limpou a pia e o box do banheiro. Mesmo sem poder argumentar, ela ainda não entendia porque fazia aquilo todos os dias. — É uma forma de punição por algo que ela não fez! — Ashley ouviu o avô gritando um dia, quase um ano antes. Essa fora a primeira vez que ele tinha levantado a voz para defendê-la, mas também havia sido a última. Tal rotina havia começado cinco anos antes, durante o mês de aniversário de dez anos da morte de seus pais. Ashley não entendia a raiva que sua avó começara a ter dela até escutar um perito da polícia dizer que a sua mãe tinha causado a morte dos pais, que estava bêbada demais e perdera o controle do carro. Tudo piorou para Ashley quando começou a ficar idêntica à mãe. A cozinha estava impecável, mas Ashley sabia que a avó a mandaria fazer algo, e não deu outra: na bancada da pia havia uma caixa de ovos e um pedaço de bacon, juntos com um bilhete que dizia apenas uma palavra numa caligrafia tremida. Frite. Ashley tirou a frigideira do armário e pegou o óleo para facilitar a fritura. Seu melhor amigo, Arthur, ainda duvidava de seus dotes culinários, mas não era como se ela pudesse chamá-lo para jantar em sua casa e provar que ele estava errado. Sua avó proibira visitas e também não a permitia que saísse para visitar o único amigo que tinha. Tentava não reclamar, afinal Arthur era a única pessoa louca o suficiente para conversar com ela. (Ashley participava, com o amigo, do grupo de teatro da escola.) E, mesmo que furtivamente, o avô a ajudava a escapar quando queria sair com Arthur depois da escola para fazer alguns testes. Morando em Los Angeles, Ashley pensava ser muito clichê querer ser atriz, mas ela não se importava com isso. Alguns anos antes, havia encontrado algumas fitas no porão que mostravam comerciais que o seu pai fizera quando era jovem. Aparentemente, ele era um ator de relativo sucesso antes de morrer. — Você já está trabalhando? — perguntou a avó no mesmo tom ácido de sempre ao entrar na cozinha. — Ótimo. Ashley sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo involuntariamente. Ah, não, ela pensou antes mesmo do fato acontecer. As panelas penduradas na parede sacolejaram ferozmente; o chão tremeu por míseros dois segundos, porém foi o bastante para que Ashley derrubasse os ovos, enquanto os transportava para a mesa, em cima da cabeça da sua avó. A vontade de rir ultrapassou o medo e, antes que a velha nem sequer notasse o estrago nos seus cabelos brancos, Ashley soltou uma forte gargalhada. Ela olhou para o avô, do outro lado da mesa, em pânico. O que aconteceria agora? Sra. Mitchell não se mexeu por três minutos inteiros, deixando os ovos escorrerem do seu cabelo até os ombros. Ashley também permaneceu parada, esperando a explosão da avó, ainda tentando controlar o riso. Quando a velha finalmente se ergueu e virou-se para Ashley, o seu rosto estava lívido de raiva. — Busque umas toalhas — disse, a boca se contorcendo de fúria. — Agora! — Não — retorquiu Ashley sem pensar. Seguiu-se um momento de tensão onde Ashley pode jurar que viu faíscas saírem dos olhos verdes da avó. — Como é que é? — a avó sibilou raivosamente, avançando um pouco na direção de Ashley. Porém, a neta não recuou. Ashley não fazia ideia de onde aquela coragem surgira, mas estava gostando daquela sensação. Olhou para o avô, que aprovou tudo com um aceno de cabeça praticamente invisível. — Eu disse não — falou Ashley, incrivelmente surpresa com o seu tom de voz confiante. As janelas da sala de jantar se sacudiram fortemente. — Eu tenho 16 anos, e você me faz de escrava desde que eu tinha 11! Só por que você acha que a minha mãe matou o seu filho isso não significa que eu sou a culpada de tudo! O t**a da avó veio rápido e indolor. Ashley sentiu o rosto virar contra a sua vontade e fechou os olhos apenas para sentir a vermelhidão espalhando por sua bochecha. Tocou-a de leve, encarando a avó, que ofegava e olhava para a própria mão sem acreditar no que fizera. O corpo de Ashley tremeu de raiva, e assim fez toda a casa. As portas dos armários batiam sem controle, deixando vários mantimentos caírem no chão. Sr. Mitchell já estava ao lado da esposa, tentando acalmá-la. Ashley piscou, se esquecendo do pânico que sua avó tinha de terremotos de alta intensidade. Aquele terremoto era um dos grandes. — Ashley! — o avô gritou, abraçando a mulher de lado, levando-a para a sala de estar. — Saia daqui! Agora! A garota acompanhou com o olhar os avôs saírem do cômodo. Suas mãos ainda tremiam, e ela estava com um medo irracional de algo cair em cima dela, embora isso jamais tivesse acontecido. O chão continuava a sacolejar quando Ashley finalmente entendeu o recado do avô e caminhou de volta para a cozinha e saindo pela porta dos fundos da casa. *** — Acalme-se, acalme-se — Ashley murmurava para si enquanto caminhava para o ponto de ônibus. Sua respiração estava quase regular, no entanto, a suas mãos insistiam em tremer descontroladamente. Colocou-as nos bolsos do casaco que usava numa falha tentativa de contê-las. Arthur e ela eram os únicos que pegavam o ônibus para a escola ali, mas o amigo ainda demoraria a chegar. Ashley sentou no meio-fio e observou a rua deserta. Dali, dava para ver a casa dos avôs. Não tivera nem tempo para pegar os materiais da escola, Ashley pensou, notando como a casa parecia intacta. Toda a rua, na verdade. Ninguém diria que havia ocorrido um terremoto de alta intensidade minutos antes. — 7.3 na escala Richter — disse Ashley em voz alta. Após perceber o que havia dito, arregalou os olhos. Tinha certeza de que aquela era a intensidade do terremoto. Ashley não fazia ideia de como sabia da Escala Richter, porém. Geografia e Geologia sempre pareciam fáceis para ela, contudo, tinha certeza de que nem o maior gênio da humanidade saberia contar a intensidade de um terremoto sem um equipamento apropriado. — O que está fazendo aí no chão? — Uma voz conhecida indagou e Ashley sobressaltou, assustada. De onde estava, Arthur parecia mais alto. Seu melhor amigo era magro, embora estivesse ganhando massa depois que começara a malhar. Os cabelos eram cor de ferrugem e a pele era branquíssima cheia de sardas. Também usava óculos, escondendo os seus olhos amendoados. Ashley não entendia como Arthur sobrevivia aos verões quentes de Los Angeles. O garoto ajudou Ashley a se colocar de pé, observando-a atentamente em busca de algum machucado — era o que Arthur sempre dizia, mas ela sabia que ele tinha segundas intenções. — O que aconteceu? — perguntou Arthur de novo. — E onde estão os seus materiais? — Em casa — disse Ashley, limpando as mãos na parte de trás das calças. — Com a minha avó, que provavelmente não quer me ver nunca mais. Arthur fez uma expressão de completa surpresa. Ashley não dividia as suas estórias pessoais com o amigo, principalmente aquelas em que envolviam a sua avó maluca. O que o melhor amigo sabia era que Sra. Mitchell odiava Ashley e que preferiria cuidar de cobras venenosas ao invés da neta, o que resumia o que acontecia de verdade dentro de casa. — O que você vai fazer agora? — Ir para a escola, e na hora do almoço ir fazer dois testes. — Ashley deu de ombros. — À tarde pode ser que as coisas melhorem. Se não, posso ficar na sua casa? Ashley observou os olhos de Arthur faiscarem com um desejo insano. Tentou ignorar o olhar dele quando o abraçou. Os dois estavam crescendo, e era bem provável que um dos dois se sentiria daquela forma, mas ela não estava pronta para dar o bolo em Arthur. Amava-o, sim, embora não o bastante para querer namorá-lo. — O trabalho do senhor Russo — disse Arthur quando se soltaram. — É para hoje. Vai ganhar um belo zero se não... — Um terremoto levou a minha avó a expulsar-me de casa — respondeu Ashley desinteressada. — Acha mesmo que estou preocupada com um trabalho bobo de História? Arthur não rira da falta de consideração de Ashley como ela previra. Ao invés disso, franziu a testa e fitou a garota curiosamente. — Terremoto? Hoje de manhã? Ashley piscou, sem entender. A casa de Arthur não era tão longe da sua, e com o terremoto daquela magnitude, como ele não notara? Ela olhou ao redor, percebendo algo que deixara passar assim que saíra de casa: nenhuma das casas pareciam destruídas ou danificadas seriamente. Teria o tremor de terra sido algo da sua cabeça? Impossível, pensou instantaneamente. Os avôs haviam sentido também. Tinha certeza de que as panelas ainda estariam no chão e que as portas dos armários estariam escancaradas se voltasse para casa naquele instante. Levaria Arthur com ela inclusive, para provar que houvera sim, um terremoto, se não fosse o ônibus escolar passando naquele exato momento. Arthur ainda a olhava desconfiado quando embarcaram. As brincadeiras normais pelo fato de os dois serem do grupo de teatro não afetaram Ashley. Ela ainda estava se perguntando como o melhor amigo não sentira o tremor de terra e, por essa razão, eles ficaram a viagem inteira até a escola em silêncio. Ao chegar à escola, Arthur despediu-se apressadamente, sem se importar em levar Ashley à sua primeira aula do dia como de costume. A garota mordeu o lábio, estranhando o comportamento do amigo, e entrou na sala. Felizmente não era a aula de História, e Ashley ganhara mais uma hora para criar uma desculpa esfarrapada sobre o trabalho. O professor de Química perguntou-lhe por que não estava com os seus materiais e Ashley balbuciou algo sobre a avó tirando-a de casa. Não entrou em detalhes e o professor mandou-a sentar no lugar de sempre sem mais perguntas. — A aula de hoje seria sobre algo completamente diferente, mas devido aos recentes acontecimentos, terei de relevar o calendário acadêmico — disse o professor seriamente. Alguns alunos franziram a testa em sinal de confusão, mas Ashley sabia que ele estava falando. Três usinas nucleares tiveram os reatores explodidos na última semana, além da abundante urânio roubado em cada uma delas. — Alguém sabe o que há dentro de um reator nuclear? — perguntou o professor, desenhando um pequeno esquema no quadro. — Urânio — respondeu Kurt, colega de laboratório de Ashley. — E como o reator funciona? A sala ficou em silêncio enquanto o professor terminava o seu esquema e se virava para a turma novamente. A especialidade de Ashley era Geografia, mas as várias reportagens sobre o assunto que vira nos últimos dias haviam dado-lhe base para responder à pergunta, por isso levantou a mão. — Há uma rede de energia que bombeia água para dentro do gerador — ela disse quando o professor deu-lhe a palavra. — O núcleo aquece a água, que vira vapor. O vapor move a turbina e daí sai eletricidade. Quando esse processo termina, o vapor volta para o sistema de resfriamento. — Excelente explicação, Mitchell. Então, como a sua colega disse, o reator... — Mas esse não é o problema de verdade, não é? — interrompeu Ashley, lembrando-se do noticiário sensacionalista que assistira na noite anterior. — Urânio foi roubado das três usinas, não foi? As explosões podem ter sido apenas uma forma de distração. O professor encarou-a, esperando que ela dissesse que estava brincando, e depois riu. Acompanhando a deixa do professor, alguns alunos riram da teoria de Ashley. — Srta. Mitchell, seria impossível alguém causar um acidente nuclear de tais proporções em três usinas e roubar o urânio restante de cada uma delas. Tal como seria impossível sentir um terremoto de 7.3° na Escala Richter somente na sua casa, pensou Ashley amargurada, porém nada disse. O professor continuou a dar a sua explicação de como os fatos poderiam ter acontecido, mas a garota não lhe deu mais atenção. Deixou que Kurt fizesse as anotações. O sinal tocou e Ashley pulou da cadeira para ir à próxima aula. Arthur estaria com ela nos próximos dois períodos, e também iria com ela no teste que teria durante o almoço, logo Ashley sentiu-se mais segura. Ela sabia que o comportamento estranho do melhor amigo não duraria por muito tempo. As duas aulas passaram rapidamente. Arthur copiava as matérias para Ashley, que se concentrava tentando lembrar-se das falas do roteiro esquecido na casa dos avôs. Quando o sinal tocou para o almoço, ela já desistira e buscava na mente um monólogo para apresentar. Infelizmente, Ashley não chegou a encontrar um monólogo perfeito. Ao sair da sala de aula, ao meio-dia em ponto, ela viu uma luz branca vindo na sua direção e caiu desacordada.
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