Capítulo II — Danny

2005 Words
As ondas bateram calmamente nas pernas de Danny. Em cima da prancha, tudo estava muito tranquilo. O sol brilhava fortemente em cima da cabeça do garoto e marcava meio-dia. Danny respirou fundo. Surfava desde que se entendia por gente, conhecia mais do mar do que marinheiros experientes. O dia estava ótimo para as ondas que ele esperava desde o começo da semana. Não tinha como nada dar errado. — Mas o mar está calmo hoje — dissera a mãe quando o garoto anunciara que iria surfar. Danny apenas sorrira. Olhou para aquela imensidão azul, fixando-se no pontinho amarelo no horizonte que era sua casa. Diariamente, ele agradecia pelas boas condições financeiras que a família tinha, que os pais aceitassem em manter a casa num lugar paradisíaco daqueles e fossem para a cidade sempre. Ele fechou os olhos. Imaginou o mar lentamente aumentando as ondas, tornando-as tão grande quanto às do Havaí. Imaginou as ondas passando pelas suas pernas na água, aumentando a velocidade a cada segundo. Com a imagem perfeita gravada na sua mente, ele abriu os olhos e sorriu. Para qualquer outro surfista, o mar provavelmente estaria revolto, mas para o garoto, era somente outro dia qualquer na praia. Danny olhou para trás e observou a onda enorme que o esperava e levantou-se rapidamente na prancha, pronto para atravessá-la. O tubo era incrível. Danny sabia que nem os melhores surfistas saberiam aproveitá-lo. Ele simplesmente sabia que direção tomar. A prancha o conduzia, a onda o levava para fora do tubo como ninguém. E Danny continuava com o seu sorriso bobo, aproveitando a água salgada respingar no seu rosto. Nadar para ele era tão necessário quanto respirar. Sr. Munhoz dizia que ele aprendera a nadar antes mesmo que dar os primeiros passos. Danny não pensava em ter uma casa sem ao menos uma piscina ou longe do mar. Ele completou o tubo perfeitamente, como esperava. Olhou para a costa, triunfante, e percebeu estar longe demais. Mesmo sabendo nadar até lá, a sua mãe o mataria se soubesse que ele estava surfando em mar aberto de novo. Mas não importava. Nunca havia dado importância a isso. Quanto mais longe da costa, melhor Danny se sentia. Quanto mais tempo na água, melhor os sentidos de Danny ficavam. Não sabia se era uma criatura marinha ou um ser humano geneticamente modificado quando criança, mas tinha certeza de que o único lugar que podia chamar verdadeiramente de casa era o mar. Ei! Menino-peixe, chamou alguém. E é claro, pensou ao ouvir a voz na sua cabeça, ele conseguia falar com os animais marinhos. Danny não fazia ideia de como compreendia os animais, contudo. Talvez fosse mesmo uma experiência científico que dera terrivelmente certo, e um dia escamas e guelras nasceriam no seu corpo e ele viveria no mar para sempre. Os cientistas poderiam estar observando-o naquele momento, escondidos num submarino bem camuflado em baixo dele. — O que foi? — perguntou Danny. Os animais falavam com o garoto via pensamento, mas ele sempre tinha que dizer em voz alta o que pensava. Fazia-o se sentir um i****a na maioria das vezes. Danny não identificara a espécie com quem falava, pois não estava na água, mas presumiu que fosse um peixe que já conhecia. Muitos, ao perceberem que ele conseguia entendê-los, fugiam desembestados do local. Ficou sabendo do urânio na água em Angra? O peixe perguntou. Danny mergulhou para ver com quem falava. Era Eric, um espadarte que raramente passeava pelas costas brasileiras, a não ser durante o verão. — O derramamento de urânio não foi diretamente na água — ele tentou argumentar, tirando a cabeça da água para falar propriamente. Danny ainda não dominava a habilidade de respirar em baixo d'água por mais de meia hora, nem falar sem engolir metade do mar. — Acho que seria impossível os peixes terem se infectado. Mas ele não estava certo sobre as suas palavras. Danny ouvira o noticiário durante o café da manhã antes de sair para surfar, com a âncora contando num tom desesperado o que acontecera duas noites antes. A usina de Angra I havia sido atingida por algo que Danny não conseguiu entender direito o que era e os palitos de urânio de onde se tirava a energia elétrica estavam derretendo quase em tempo recorde. Era a primeira vez que um acidente daquele porte acontecia no Brasil e o governo estava louco. A imprensa jogava informações a todo o momento sobre o assunto, mas ninguém sabia dizer direito o que acontecera de verdade. E os rumores de que o resto do urânio fora roubado só aumentavam. Até a INTERPOL estava no Rio para tentar fazer uma conexão com os acidentes em mais duas outras usinas nucleares ao redor do mundo. Enquanto isso, a maioria dos habitantes de Angra dos Reis tentava sair da cidade o mais rápido que podia, lidando com a lerdeza do governo brasileiro para tais situações. Danny não culpava a presidente pelas possíveis mortes que teriam nos próximos dias. Estava no Brasil, quem iria querer controlar a usina nuclear de um país emergente? Você tem poder nos mares, cara, Eric disse seriamente. A água cristalina permitia que Danny fitasse os olhos minúsculos do peixe. Diga-me o que sente. Danny pediu para o mar se acalmar. Respirou fundo e tentou concentrar-se em Angra dos Reis, a aproximadamente duzentos quilômetros de distância de onde morava. Mesmo com toda a concentração que tinha, Danny não focou o bastante na usina Angra I para saber o que acontecia lá. Passados dez minutos, o rosto de Danny se contorcia, vermelho de tanto pensar. Havia algo no caminho entre ele e a usina, impedindo-o de entender o que se passava na costa de Angra dos Reis. Algo muito poderoso. Talvez seja o urânio, Danny pensou, franzindo o cenho. — Algo está errado, Eric, tenha certeza disso — disse Danny, jogando um pouco de água no rosto. — Mas eu não sinto exatamente o que é. É a água, retrucou Eric firmemente. Os peixes estão sendo envenenados pelo urânio! — Assim como os humanos! — Danny respondeu, alteando a voz, irritado. — Dez pessoas morreram na explosão e outras vão morrer nos próximos dias devido à radiação! Eu queria salvar todo mundo, tanto os peixes quanto os humanos, mas não posso. Eric permaneceu em silêncio, fitando o garoto através da água. O seu nariz pontudo espetou a perna de Danny de leve. Peixes não transmitiam emoções como os humanos, mas dava para perceber que Eric estava chateado com Danny e a reação dele. — Sinto muito, Eric — Danny disse, olhando complacente para o peixe. — Eu não posso fazer nada. Fique longe da usina, tudo bem? Eu já vou indo. Dito isso, o garoto deitou na prancha e nadou para a costa, deixando o espadarte para trás. *** Ao chegar à costa, a mãe de Danny o esperava com os braços cruzados e uma expressão nada amigável no rosto. O garoto sorriu de modo culpado. — Daniel — a senhora Munhoz disse irritada, se aproximando do filho. Danny, por puro instinto, se escondeu atrás da prancha. — Já avisei que os nossos limites são de trinta metros para dentro do mar, não quase um quilômetro! Danny mordeu o lábio, ainda escondido pela prancha. As broncas da mãe eram as piores, por isso sempre deixava para surfar em alto-mar quando ela não estava em casa. Infelizmente, esquecera-se de que ela voltaria mais cedo naquele dia. — Pare de se esconder atrás dessa coisa! — a mulher gritou e correu para o filho, de modo a assustá-lo. Deu certo, pois o garoto largou a prancha e desceu as escadas da porta de entrada rapidamente. Ele virou para o quintal dos fundos, rindo. A mãe nunca o alcançaria. Ele parou na porta dos fundos em questão de segundos, mas ao olhar para trás, a sua mãe não estava mais o perseguindo. De dentro de casa, ouviu a voz da mãe: — Tire esse troço daqui após tomar banho. Danny bufou, irritado. Sua mãe sempre vinha com aquele tipo de jogo para cima dele, o que era completamente injusto. Ele era o adolescente da casa, não ela. Esquecendo-se das brincadeiras da mãe por um instante, ele entrou em casa e subiu as escadas, parando para cumprimentar o pai no escritório. O pai de Danny era jornalista, mas que trabalhava por conta própria. Muitos jornais o respeitavam e imploravam por uma matéria escrita por ele. Já a sua mãe era uma das advogadas mais crianças que ele já conhecera. O quarto de Danny era cheio de pôsteres de surfistas famosos, com alguns de bandas antigas. Era completamente azul-marinho, cor que ele próprio escolha por razões óbvias. A bagunça, Danny dizia, era organizada, embora fosse difícil dizer qual era a cor do carpete devido ao número de roupas espalhadas pelo chão. Danny relutava a admitir, mas talvez a sua mãe estivesse certa: o seu quarto precisasse mesmo de uma limpeza. Mas Danny respondeu ao pensamento com um dar de ombros e rumou para o banheiro. Lá, olhou-se no espelho, observando cada imperfeição no seu rosto bronzeado pelo sol, franzindo a testa para uma espinha particularmente grande na bochecha esquerda. Danny não se importava muito com a aparência, mas, segundo o melhor amigo, Gabriel, os seus músculos e o seu cabelo bagunçado eram o bastante para poder namorar todas as garotas do colégio. Ele somente namorara duas vezes na vida, e nenhuma das duas garotas o deixara interessado por mais de um mês. Praticamente nenhuma das garotas do seu colégio parecia interessá-lo. Por fim, depois que o seu último namoro fora um completo desastre, Danny decidira deixar aquilo para lá. Namoraria quando ele encontrasse alguém que não surtaria só porque ele considerara a ideia de levá-la para conhecer seus pais. Os seus olhos azuis brilharam ao observar o cabelo seco feito palha devido à água do mar. Danny não tinha ideia por que Gabriel considerava o seu cabelo tão chamativo para as meninas. Ninguém sabia o quão trabalhoso era para assentá-los, ou o tanto de creme que ele gastava por mês. Sua mãe pensara na ideia de ele parar de ir ao mar todo dia ("Assim, o seu cabelo ficaria tão loiro e brilhante quanto o meu!"), mas Danny sabia que aquilo estava fora de questão. Danny tirou o short preto que usava e jogou a um canto, entrando no chuveiro. O sol do Rio naquela época do ano era escaldante, e Danny sentia as queimaduras por todo o corpo — algo que, infelizmente, seus poderes mágicos não curavam. A água gelada aliviava um pouco a dor e deixava as queimaduras menos vermelhas. Ele brincou com a temperatura da água, mudando-a de quente à tão fria quanto a Antártica em questão de segundos. Danny viajara o mundo todo, em razão das competições de surfe que participava, e nenhuma água se comparava à brasileira. Danny sentia quando um rio ou lago estava poluído — quase chegou a passar m*l ao estar perto do Tietê pela primeira vez que fora a São Paulo. Mas havia algo na água da sua casa que a tornava pura. Nunca tivera tempo suficiente para descobrir o que era, porém. Ele passara tempo demais no chuveiro, como sempre. Mesmo morando à beira-mar, a conta de água de casa era uma fortuna. Senhora Munhoz culpava Danny e queria que o garoto pagasse pelo menos metade da fatura, e isso não surpreendia nem um pouco o menino. Ao desligar o chuveiro, ele pode escutar a mãe gritando do andar de baixo para terminar logo o banho. Danny revirou os olhos, mas sorriu. Secou os cabelos loiros com a toalha, fitando o seu reflexo no espelho embaçado. Por um instante, pensou que os seus cabelos pareciam menos secos e que talvez tivesse um pouco de esperança. Danny abriu a porta do banheiro, mas não se viu no quarto. Em vez disso, encontrou uma luz branca que o dominava completamente. Antes que pudesse fugir, a luz o englobou e ele caiu no chão do banheiro, desacordado.
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