Ashley soltou uma risadinha desconfortável. Como aquele homem poderia ser o Aristóteles? O mesmo filósofo que nascera dois mil anos atrás e que deveria ter morrido nessa época? Era um absurdo, uma ideia ridícula que não fazia nenhum sentido. Aristóteles, o filósofo, uma das mentes mais brilhantes do planeta Terra e criador de inúmeras teorias, esse Aristóteles, estava morto.
Quem quer que estivesse por trás daquela pegadinha pagaria muito caro.
— Beleza, cara, você é a pessoa mais inteligente que já pisou no planeta — o garoto brasileiro, Danny, disse em tom de deboche. — O que viveu na Grécia e morreu em 322 AC?
O homem que se dizia ser Aristóteles assentiu, observando todos com um sorriso divertido no rosto. Por algum motivo, Ashley teve vontade de lhe dar um soco em seu nariz meio avantajado.
— Como você sabe disso? — indagou Hayley, curiosa.
— Eu decoro datas fácil — respondeu o garoto rapidamente, voltando-se a sua atenção para o homem de terno branco. — Isso é impossível. A não ser que você só tenha o nome do verdadeiro Aristóteles e nos trouxe aqui para a maior pegadinha televisionada do planeta. Mandou bem.
— Quem iria colocar o nome do filho de Aristóteles? — perguntou Ashley, se virando para Danny e franzindo o cenho. — Sem ofensa, mas esse nome não é tão popular quanto era na Grécia Antiga.
Hayley e Danny riram com gosto. Tony, o garoto alemão, continuava não se interessando em nada do que eles diziam, como se ele tivesse entendido o que acontecia ao redor deles muito tempo antes. O homem na frente deles chamou a atenção dos garotos com um pigarreio.
— Lamento interromper a discussão de vocês, mas não temos tempo para isso — ele disse de maneira pomposa. — Eu sou o verdadeiro Aristóteles, aquele que viveu na Grécia muito tempo atrás. Eu não morri em 322, eu nunca cheguei aos 66 anos, como podem ver. Parei de envelhecer entre os 40 e os 50 anos. Sou imortal por que sou um Guardião.
"Um Guardião de um dos Elementos que compõem o planeta Terra. São 4 ao todo. Ar, Água, Fogo e Terra. Espero que tenham estudado sobre isso durante a infância de vocês, pois o conhecimento básico disso ajudará vocês muito daqui para a frente.
"Vocês nasceram com poderes extraordinários que se deram origem lá na Grécia Antiga. A minha função é treiná-los a se tornarem Guardiões dos Quatro Elementos, assim como eu fui com outras três pessoas nos últimos dois milênios e continuar se vocês falharem. Se conseguirem aprimorar seus poderes e para se tornarem os próximos Guardiões, deixarei o mundo em suas mãos. E não, não é uma metáfora. Vocês terão que cuidar do mundo, e a primeira missão de vocês é tentar impedir outro atentado contra usinas nucleares ao redor do mundo."
— Ah, eu sabia que as explosões eram só um modo de atrair atenção para o acidente! — exclamou Ashley, sorridente. — Quem quer que tenha roubado as barras de urânio sabia que os governos estariam loucos para parar o estrago das usinas. Ninguém iria perceber. Isso é genial, de uma forma bem maluca.
— Tirando o fato de que alguém ainda percebeu sim, e jogou para a mídia sensacionalista — replicou Danny. Ele parecia chateado com isso, mas antes que alguém pudesse retrucar, seu rosto se iluminou e ele disse: — Ninguém vai ouvir esses jornais ridículos, por isso que espalharam para eles, para que o boato fosse visto como uma bobagem.
Ashley se sentiu estranhamente orgulhosa do raciocínio rápido do garoto. Ela lhe fez um sinal positivo e Danny retribuiu com um sorriso amigável. Sentia que ele poderia ser um bom amigo se as circunstâncias não fossem tão bizarras.
— Vocês são especiais — continuou Aristóteles seriamente. — Cada um de seus poderes podem ser mixados para se tornarem algo mais poderoso com cada um dos seus, a partir de agora, companheiros. Danny, creio que saiba que o seu poder é o da Água. Sei que você pratica ele há anos e também sei da sua relação com os animais marinhos ao redor da sua praia no Rio. Não preciso dizer muito.
O homem tossiu. O peito de Danny se encheu de orgulho.
— O mesmo digo a Anthony. Seu poder é o do Ar e sei que vem praticando desde os seis anos de idade. Você sabe mais do que deveria e sabe mais do que eu durante a Idade das Trevas. Malditos computadores.
Tony se remexeu desconfortável, e o ar ao redor deles ficou relativamente mais frio. Ashley o olhou de soslaio, tentando compreender o que se passava na mente daquele menino. Tony era o mais franzino dos quatro, uma cabeça mais baixo que ela e poderia ser facilmente levado por uma lufada de vento, se não os controlasse. Dava para ver em seus olhos que ele era inteligente, que ele sabia e entendia como usar essa inteligência ao seu favor. Ele poderia ser a pessoa mais chata do planeta, mas ele não importava.
— Hayley... — disse Aristóteles, olhando para a garota ruiva penosamente enquanto caminhava de um lado para o outro. O rosto de Hayley ficou vermelho rapidamente. — Você tem o poder do Fogo. Talvez o Elemento mais poderoso se usado de forma correta. Para isso, nós precisaremos treinar mais que os outros e focar em controlá-lo.
"Ashley, você tem poderes da terra — anunciou Aristóteles. — Você pode causar terremotos e maremotos dependendo do nível de raiva que seu corpo se encontra, como nós já presenciamos hoje. A Terra é uma força instável que está sempre à mercê dos seres vivos. Você não é diferente. Você não mora em Los Angeles por acaso. Os terremotos que acontecem por lá geralmente são culpa das suas mudanças de humor."
O rosto de Ashley ficou quente enquanto os outros garotos olhavam para ela com admiração. Ela nunca tinha reparado nisso. É claro que achava estranho que a maioria dos terremotos não acontecia em outros lugares com a intensidade dos que acontecia na casa dos avós. Se lembrou da parte da manhã, quando encontrara Arthur no ponto de ônibus depois do terremoto que a fizera derrubar comida na cabeça da avó — o garoto não sentira nada, mesmo que o sismo tenha atingido 7 na escala Richter.
— Mas Los Angeles já era uma cidade cheia de terremotos antes mesmo de nós nascermos — apontou Tony com a testa franzida.
— Eu disse "geralmente", que é um sinônimo para "na maioria das vezes" — retrucou Aristóteles num tom irônico. Tony fechou a cara e Ashley escondeu sua risada. — Antes de Ashley, havia outra pessoa que controlava os terremotos. Os resquícios de seus poderes deixaram a cidade tremendo por séculos.
Ashley fitou o filósofo, de repente curiosa. Quem era essa pessoa? Seria alguém tão velho quanto Aristóteles, com mais de dois milênios? Será que seus poderes instáveis vinham dela? Um olhar rápido pelos novos companheiros mostrou que eles estavam tão confusos quanto ela. Até Tony, o sabe-tudo dos quatro, parecia ter sido pego pela fala de Aristóteles.
— Éramos quatro Guardiões na época em que nascemos — disse o grego, começando a andar para lá e para cá. Os garotos o observavam com olhos curiosos. — Fomos os primeiros a serem agraciados com essa honra. Vocês são os segundos. No meio do caminho, as missões ficaram mais complicadas e fomos nos perdendo. Dois de nós morreram. O outro desapareceu por séculos.
"Restou só a mim, procurando incessantemente por novos Guardiões pra ocuparem nossos lugares. Dois mil anos depois, aqui estão vocês. Mantenho treinando minhas habilidades para a chegada dos quatro. Ele é maior do que imagina. Anda ao redor do planeta a uma velocidade lenta, mas pode ir como um foguete se quiser. Temos trabalhadores, os fora da lei, os marginais, os que não são aceitos na sociedade, todos têm uma vida confortável aqui. Vocês irão conhecê-los."
Aristóteles parecia subitamente triste. Ashley se perguntou como era ter dois mil anos, com todos os seus amigos mortos. Se ele tinha que enfrentar o m*l todo dia, ela imaginava o quão complicado deveria ser. Pelo menos ele tinha os moradores daquele lugar. Ele não estava completamente sozinho, afinal de contas.
Ela olhou para os três ao seu lado e se perguntou se podia passar a eternidade com eles. Hayley e Danny pareciam ser pessoas legais, mas Ashley ainda não tinha tanta certeza em relação a Tony. Ele podia ser mais um mauricinho metido que todos os países tinham, só que ela vira muitos filhinhos de papai que se transformavam em monstros quando não conseguiam o que queriam.
— Senhor... — chamou Danny, tossindo para evitar o constrangimento. — Quem você é? Você nos mostrou quem somos nós, que Elementos protegemos, mas... O senhor é Guardião de que Elemento?
Aristóteles sorriu como se estivesse esperando essa pergunta desde que iniciaram a conversa com eles. O filósofo estendeu os braços e as janelas que rodeavam o templo, uma coisa que Ashley pensou ser lacradas, abriram como se fossem uma só. O vento que entrou fez os ossos da garota congelar. Uma espécie de furacão se formou ao redor dos cincos, mas não os atingiu. Aristóteles estava no meio dele, rindo das expressões de pânico dos quatro garotos.
Ele abaixou os braços e, com a mesma rapidez que o furacão veio, ele se esvaiu pelas janelas, que foram fechadas imediatamente.
— Ar — disse Tony baixinho, quase como um assobio. — É o Guardião do Ar.
— Sim — respondeu o grego. — Assim como você, Anthony. Você será o único a treinar com seu Guardião e espero que entenda o quão importante isso é. Agora, sei que estão animados e querem saber mais sobre seus poderes, mas aqui vai a primeira lição: ninguém trabalha bem sonolento. Vão para a cama. Garotos, queiram me acompanhar até a ala masculina. Garotas, Lea espera por vocês do lado de fora do templo.
Ashley e Hayley assentiram em concordância e seguiram os três para a porta. Lea era uma garota que parecia ser mais nova que as duas, talvez uns dois anos de diferença, mas que tinha um semblante profissional e que logo indicou o caminho que deveriam seguir.
— O café da manhã é às sete em ponto — Aristóteles disse antes de seguir para a direção contrária das três. — Não se atrasem.
— Eu acho que ele deveria falar isso para os garotos — disse Ashley e riu da própria piada. Hayley não parecia estar no humor para piadas ridiculamente sem graça. — Você está bem? Seu rosto está um pouquinho verde.
— Estou ótima — respondeu Hayley. Ashley reparou que a garota tremia. Fumaça saía da manga do casaco de seu uniforme. — É muita informação para processar.
— Isso é verdade. Pelo jeito, daqui a pouco a gente se acostuma. — Ashley apertou o ombro de Hayley em sinal de apoio. Ela usava três camadas de roupa, mas ainda assim Ashley sentiu sua mão ficar estranhamente quente ao tocá-la.
Hayley a afastou com um golpe. Ashley parou por um instante, tentando entender porque a garota fizera aquilo. Ashley queria ajudá-la e protegê-la, por menos tempo que a conhecesse. Lea, um pouco à frente das duas, pediu para que elas andassem mais rápido.
— Foi m*l — se desculpou Hayley, enrubescendo. Como ela tinha poderes sobre o fogo, era interessante vê-la corar. No corredor escuro, ela parecia uma lâmpada fluorescente vermelha. — Eu já machuquei Danny hoje quando ele me tentou ajudar e eu não quero queimar mais ninguém.
— Tudo bem — Ashley disse. — Hoje tentei ajudar minha avó e derramei ovos na cabeça dela. Ainda por cima, eu causei um terremoto que fez meus avós me expulsarem de casa.
Isso deu a Hayley um motivo para dar risada e Ashley ficou agradecida por ter feito a garota sorrir. Elas ficaram conversando sobre a parte "normal" do dia e Ashley descobriu que Hayley tinha colocado fogo em sua escola ("Foi um acidente, então acho que não há uma maneira de me culpar"). Ashley também descobriu que os pais de Hayley eram os famosos diretores de uma empresa de informática e estavam sempre viajando. Hayley morara em dez países desde que nascera enquanto Ashley não conhecia nem cinco estados dos Estados Unidos.
Mesmo com menos de cinco minutos de conversa, Ashley já considerava Hayley sua melhor amiga. Ela não tivera muitas amigas durante a infância ou no Ensino Médio — era sempre ela e Arthur o tempo todo — por isso gostou dela. A garota finalmente sentia que podia ser verdadeira com uma mulher do seu lado. Ashley nunca tivera uma figura materna que podia ser sua melhor amiga nem os grupos de melhores amigas de infância que ela via em todo filme sobre garotas e que ela odiava profundamente.
Talvez estivesse depositando muita fé em Hayley, só que ela esperava que Hayley também começasse a confiar nela também. Lea não parecia querer falar com as duas — e Ashley tinha a impressão de que todos os outros empregados se comportavam da mesma maneira. As missões que Aristóteles falara podiam ser perigosas e complicadas, mas nada seria tão difícil quanto se socializar ali.
— Com licença — chamou Ashley educadamente, correndo para alcançar Lea. — Onde nós estamos, exatamente?
— 65 mil pés de altura — respondeu Lea de forma tranquila. O sangue de Ashley gelou; como estavam tão alto se não sufocaram quando Aristóteles abriu as janelas do templo? — Os cientistas chamam essa camada de estratosfera, mas temos outro nome para ela.
— E qual é? — indagou Hayley entrando na conversa.
Lea parou em frente a uma porta bem ordenada. Desenhada nela estavam figuras feitas de fogo e rochas. Ashley presumiu que ela e Hayley fossem dormir ali. Ela se perguntou se a porta dos garotos tinha ventos e água desenhados nela. As mãos de Ashley coçaram para que Lea abrisse a porta logo.
— O senhor Aristóteles dirá para vocês amanhã — a menina respondeu de maneira enigmática. O rosto de Ashley murchou. Ela não queria dormir. Queria aventurar pelo templo e começar a praticar. — Seus pertences mais importantes estão ao lado de suas respectivas camas. Uma em frente à outra, como foi a dois milênios atrás. Boa noite, senhoritas.
Ashley franziu a testa para a polidez com que Lea falava. Ela olhou para a outra garota, se perguntando se seria muito rude questionar à empregada o que ela fizera para parar ali. Hayley balançou a cabeça, negando, enquanto Lea abria a porta enorme de madeira. Lea se afastou para que as garotas entrarem e saiu com uma reverência.
O queixo de Ashley caiu. O quarto era maior que sua casa, o que fazia que o seu quarto antigo parecesse uma miniatura perto desse. Duas camas postavam em lados opostos, assim como Lea dissera. A cama da direita tinha decorações vermelhas e laranjas, com desenhos de vulcões e coisas em chamas; e a cama da esquerda estava cheia de rochas e montanhas, sempre na cor de terra.
O resto do quarto era uma mistura das cores principais. Uma das paredes era ocupada por um guarda-roupa enorme feito de madeira, enquanto as outras tinham quadros antigos e alguns objetos que pareciam ter sido tirados de livros medievais. Ashley ficou apaixonada pelo escudo prateado que estava pendurado em cima da sua cama. O desenho era de uma mulher usando uma toga no topo de uma montanha. Parecia vivo em contraste com a prata do objeto.
— Você acha que essa era a antiga Guardiã da Terra? — perguntou Ashley à Hayley, apontando para o escudo. — Será que foi ela que fugiu?
Hayley deu de ombros, sem saber o que responder. Ashley parou de focar em sua cama e virou sua atenção para o guarda-roupa. Ela abriu uma das portas que era encravadas com montanhas e se deparou com as roupas organizadas em prateleiras e cabides. A maioria das vestes eram dela, mas Ashley notou também outras roupas que ela nunca vira na vida, como collants e um moletom com um símbolo que não conhecia.
Ela pegou uma camisa do seu time de futebol americano favorito e vestiu junto com um par de calças do moletom, sem se importar se Hayley a observava ou não. Ashley vestiu o pijama rapidamente e logo se enfiou dentro das cobertas quentinhas de sua cama.
— Então... — disse ela, tentando quebrar o clima estranho que parecera entre as duas. Ashley estava ficando cansada, como se Aristóteles tivesse jogado uma maldição para ela que dormisse naquele momento. — Não há ninguém com quem você converse ou se sinta confortável lá na Austrália?
Ashley viu Hayley se revirar na cama, evitando responder. Ela não queria ter perguntado algo que parecia ser tão pessoal, mas Ashley realmente desejava aprender mais sobre sua nova companheira. Não era sua culpa se ela era curiosa nos momentos mais inoportunos.
— Eu não tinha amigos na minha escola — disse Hayley evasivamente. — Faz muito tempo que eu não converso como estou conversando com você agora. É estranho.
— Há um escudo em cima da sua cama também — reparou Ashley. Outra garota, só que o fundo estava em chamas. — Será que as duas eram amigas?
— Eu não sei — respondeu Hayley, sonolenta. Sua voz estava abafada pela coberta. — Fiquei a noite toda acordada e parece que o dia durou, hm, dias. Está sendo um pouco mais complicado que o normal para mim.
— Tudo bem. — Ashley pigarreou, sentindo-se desconfortável. — Além de Arthur, nunca fui muito de ter amigos. Minha avó me proibia. Quer dizer, sendo do clube de teatro e tudo mais, não era como se eu fosse ter muitos amigos.... De qualquer forma, pelo pouco que você contou, posso me conectar com isso. Eu sei que a gente m*l se conheceu, mas.... Sabe?
Hayley grunhiu da sua cama, provavelmente dizendo que entendia o que Ashley queria dizer. A garota soltou um suspiro aliviado. Ela virou para o lado e fechou os olhos, sabendo que Hayley ainda estava acordada. Ashley esperou que a nova amiga começasse a cochilar para que pudesse dormir.
Ela já pressentia que o próximo dia seria muito mais longo que esse.