Daniella Paiva
Dias após o jantar na casa do meu pai, eu tentava manter minha rotina de trabalho, visitas ao hospital e meus estudos.
Com muita luta eu consegui uma bolsa para estudar Direito. Meu grande sonho. E o novo emprego na biblioteca do campus me ajudava a manter ele vivo.
Já passam das 20h, e o meu dia tinha sido um pesadelo prolongado que começou com meu pai aparecendo no meu trabalho, todo cheio de si, impondo suas vontades.
— Daniella, você precisa fazer isso! A Lilian me traiu, ela fugiu com o Sérgio! — ele gritava, me seguindo pelo corredor.
— Se você não assinar aquele contrato amanhã, eu vou ser preso nos próximos dias! O Sampaio não aceita desaforo!
Eu queria rir na cara dele. A filha "perfeita" fugiu com o homem que eu amava em segredo, e agora o peso caía sobre meus ombros.
Como a Lillian pode fazer isso comigo? Ele sabia dos meus sentimentos pelo Sergio e mesmo assim fugiu com ele e me deixou para cumprir o contrato sórdido do meu pai.
Toda aquela podridão da família Paiva, todo aquele luxo construído sobre o abandono da minha mãe, agora me exigia um sacrifício desse tamanho!
— Eu não vou salvar vocês, papai! Suma daqui! — gritei, sentindo a bile subir pela garganta, o ódio queimando meus pulmões.
Ele me olhou como se eu fosse um objeto, uma peça do seu jogo que ele podia mover sem se importar com a minha integridade.
— Você não tem opção, Daniella. Já falei com ele. É amanhã. Você será a nova Sra. Sampaio, ou eu não vou mais fazer nada por você e sua mãe.
Suas palavras pareciam uma sentença de morte.
— Papai, o senhor não pode fazer isso. Não pode me obrigar a casar com um homem que nem conheço. Nem sequer faço parte desse mundo fútil de vocês.
— Não acredito que vai ter coragem de usar a doença da mamãe pra me obrigar a isso.
— É isso ou vai se virar sozinha — diz, seguindo pelo corredor. Me deixando com o coração esmagado.
Desci do ônibus exausta, sentindo o peso do mundo nas costas. O bairro de periferia onde eu morava parecia ainda mais cinza sob a luz do poste.
Minha mãe estava internada há algum tempo. Precisava de cuidados constantes e eu não poderia cuidar dela já que precisava trabalhar dia e noite.
A minha casa ficava no meio do quarteirão: pequena, geminada, com a pintura já descascando, uma janelinha com grade e um vaso de planta teimosa na entrada — simples demais para carregar o sobrenome Paiva.
Mas ao me aproximar da minha casa, encontrei um carro de luxo estacionado. Assim que me aproximei do portão, a porta do carro abriu e um homem desconhecido desceu.
Terno impecável, postura de predador e olhos que liam minha alma com uma crueldade fascinante e perigosa. Meu corpo reagiu de forma estranha diante de tanta beleza e... frieza naquele olhar.
Meu coração disparou e eu já imaginei quem poderia ser: Guilherme Sampaio. Em carne, osso e beleza.
— Daniella Paiva? — perguntou me olhando como se fizesse uma raios X.
— Sim. Sou eu mesma — respondo, o coração acelerado pelo de medo e o receio.
— Então é aqui que você vive? — ele perguntou, com um desdém que me fez querer arrancar seus olhos com as próprias mãos.
— Seu pai parece querer mesmo que ninguém saiba sobre você e... te escondeu bem.
— Quem é você? — pergunto, ciente de quem ele seja.
— Sou seu futuro marido. Acho bom começar a me ver assim.
Que cara i****a! Além de querer me obrigar, ainda vem até aqui desdenhar de mim.
— Você deve ser o Guilherme Sampaio. O que você quer? Meu pai deve ter dito qual a minha decisão sobre esse contrato ridículo.?
Cuspi as palavras, segurando a alça da minha mochila com força.
— E sim. É aqui que eu moro. E não me importo nenhum pouco se o meu pai me esconde ou não.
Ele se aproximou, invadindo meu espaço pessoal. O perfume caro e o cheiro de tabaco me atingiram, confundindo todos os meus sentidos. Nunca havia estado perto de um homem tão lindo e... intenso.
— Você não tem escolha, garota — ele olha ao redor e volta ame encarar
— Olha onde você mora. Isso aqui é um lixo. Como o seu pai pode manter uma filha aqui? Ninguém sabe da sua existência.
— É um lixo mais é meu. Pode ir embora do “lixo” e me deixa em paz. Como você chegou até aqui?
— Fiquei curioso. Seu pai não me disse que tinha outra filha. De repente minha noiva desaparece e ele me vem com a proposta incluindo alguém que ele esconde. Eu tinha que matar a curiosidade.
— Matou sua curiosidade. Agora pode já pode ir.
— Como eu disse, você não tem escolha. Comigo você terá luxo. Vou te dar uma fortuna ao final de dois anos. Você nunca mais vai precisar tocar em uma vassoura na vida.
Ele olha para o meu uniforme. Meu crachá ainda pendurado no bolso, entregando minha profissão.
— Eu não quero nada de você! Não quero suas joias, não quero suas mansões. Prefiro a dignidade dessa pobreza do que sua vida podre.
— Você é muito orgulhosa e atrevida para alguém que tem a vida do pai nas mãos — ele zombou, segurando meu queixo com força possessiva.
O toque dele me fez estremecer. Havia uma eletricidade perversa em sua pele que me odiei por sentir naquele momento de vulnerabilidade.
— Se não assinar aquele contrato amanhã, garanto que o Rômulo vai para a pior cela de uma prisão federal. Você prefere ver ele lá?
O pavor me atingiu. Eu odiava o homem que abandonou minha mãe a própria sorte comigo em seu ventre, mas não podia deixar que ele fosse destruído dessa forma covarde. Eu precisava dela pra ela ficasse bem.
E se ele fosse preso, eu não conseguiria pagar os custos do tratamento da minha mãe sozinha.
— Por que está fazendo isso? Há tantas mulheres por aí dispostas a se casar com alguém como você. Me deixa em paz.
— Não te interessa o porquê. Veja onde você vive, mesmo tendo um pai rico. Se ele for pra cadeia, vai perder tudo e morrer numa cela. É isso que quer?
Se fosse apenas isso! Ele não sabia da situação da minha mãe. E eu não vou dizer, pra não ficar mais vulnerável diante de tanta arrogância.
Eu não acreditava que estava vivendo esse inferno. A vida nunca me deu trégua e agora vem me dar mais essa rasteira.
— Eu aceito — sibilei, engolindo o orgulho e sentindo o gosto amargo do sacrifício subir pela minha garganta como fel.
— Mas escute bem, Sr. Sampaio. Você vai ter meu nome no papel, mas nunca vai ter a minha alma. Nunca me comprará com o seu dinheiro.
Ele riu, um som baixo e perigoso, enquanto seus dedos deslizavam pelo meu pescoço, enviando arrepios por todo o meu corpo.
— Você vai descobrir, Daniella, que ninguém consegue me dizer não por muito tempo. E eu vou ter muito mais do que seu nome.
Ele entrou no carro e arrancou, deixando-me sozinha no escuro, tremendo de raiva e de um desejo proibido que eu me recusava a admitir.
O pacto estava feito. Amanhã eu deixaria de ser a faxineira invisível para me tornar a esposa do monstro que desejava me submeter a sua vontade.
Eu não fazia ideia do que me esperava. Nem os motivos desse homem querer me sentenciar a esse destino. Mas não vou facilitar pra ele.
A noite caiu, e com ela, a certeza de que a escuridão que eu tanto temia agora tinha um nome, um rosto e um contrato.