Capítulo Sete — A Mercadoria e o Comprador

1008 Words
Guilherme Sampaio Observei Daniella assinar aquele papel com a mesma expressão de quem caminha para a guilhotina. Cada traço da caneta era um elo da corrente que agora a prendia a mim. Eu não sentia remorso. O remorso é para os fracos, depois da traição dos meus próprios pais, e do abandono da Lívia, me livrei desse sentimento de compaixão. Se eu tive que sangrar para chegar até aqui, pouco me importa se alguém com o sobrenome Paiva sangraria para que eu alcançasse o que queria. O "sim" dela saiu como um sussurro derrotado. No momento em que o juiz fechou o livro, eu a reivindiquei. O beijo não foi um selamento de amor, foi uma marcação de gado. Meus lábios esmagaram os dela para que ela entendesse, desde o primeiro segundo quem detinha o poder. Senti como se um choque eletrizasse o meu corpo. Nada me preparou para aquilo. Mas apenas ignorei. Desde o momento em que me deparei com essa beleza crua percebi que havia algo entre nós e eu não desperdiçaria isso. Ela estremeceu nos meus braços, uma mistura de pavor e uma faísca de algo que ela tentava esconder sob aquele ódio latente. Ela também sentiu. — Bem-vinda ao seu novo inferno, Sra. Sampaio — sussurrei contra sua pele, sentindo o calor que emanava dela, um contraste violento com o frio que eu carregava no peito. O clima na mansão dos Paiva era nauseante. Rômulo Paiva tentava agir como se fôssemos aliados, ostentando um sorriso que fedia a covardia. E eu sabia que tudo aquilo acontecia apenas pelo alívio financeiro. Sua esposa, Lucrécia, parecia uma cobra peçonhenta, desfilava sua arrogância, mas eu vi o olhar que ela lançou para Daniella. No rosto da minha agora esposa, tinha marcas de dedos. Um tapa? Eu vi a marca vermelha no rosto da dela. Ninguém toca no que é meu. Nem mesmo para humilhar. Só eu tenho esse privilégio. Ela não tinha nenhuma importância para mim, mas não permitiria que esse covil de cobras usasse seu veneno. Meu celular vibrou no bolso do paletó. Era uma mensagem da minha mãe, a matriarca dos Sampaio, a mulher que me ensinou que o amor é uma transação de conveniência. E eu aprendi a lição direitinho. "Confirmado o jantar de aniversário do seu pai para amanhã. A Lívia me contou que você se casou. Espero que sua 'esposa' esteja à altura do nosso sobrenome. Não nos envergonhe, Guilherme." Já imaginava que a minha ex contaria sobre meu “casamento”. Minha mãe como sempre, exigente e hipócrita. Qualquer vagabunda que eu levasse seria superior a mulher que me traiu com o meu irmão com o apoio dela e do meu pai. Mas o que será que aconteceu com os dois? Será que ainda estão juntos? Isso foi algo que nunca procurei saber. Cortei total contato com todos. Apenas minha mãe ousou me procurar vez ou outra, insistindo em que eu voltasse e continuasse o trabalho nas empresas, Quanta petulância, achar que ainda pode dar opinião sobre quem deve estar comigo. Como se nossa linhagem fosse da realeza e nem todos pudessem fazer parte dela. — Parece que chegamos numa boa hora — ouvi uma voz feminina dizer e logo reconheci quem era. — Lilian, Onde você esteve? Sérgio, nós temos muito o que conversar... A família começou uma discussão sobre as atitudes irresponsáveis da filha. Enquanto ela se justificava com o pai, me olhava com olhos de cobiça. Acabei rebatendo o comentário que fez sobre não querer se casar com um estranho. Seu olhar me analisando dos pés à cabeça dizia que ela se precipitou em fugir e renunciar a um casamento com um bilionário. Olhei para o lado. Daniella estava encolhida perto de uma pilastra, usando aquele vestido de cetim barato que parecia clamar por misericórdia. O contraste entre as irmãs era gritante. O azul era bonito, realçava a pele dela, mas o corte era grosseiro, o tecido brilhava de um jeito que gritava "liquidação de subúrbio". Senti uma pontada de irritação. Eu não podia levar aquela mulher desleixada para o covil dos lobos. Minha mãe a destruiria em segundos, e meu pai riria da minha "escolha". Sem contar que a Lívia teria o prazer de me ver ao lado de uma mulher inferior a ela em classe e elegância. — Vamos embora — ordenei, segurando o pulso dela com uma firmeza que não admitia contestação. — Eu preciso pegar minhas coisas... — ela começou, a voz trêmula, mas ainda tentando manter um pingo de resistência. — Você não vai levar nada desse lixo — cortei-a, arrastando-a em direção à saída. — Aquela vida acabou. Você agora é uma Sampaio, comece a agir como tal. Entramos no carro e o silêncio foi absoluto, quebrado apenas pelo som do motor potente cortando as ruas de São Paulo. Daniella olhava pela janela, as lágrimas escorrendo em silencio, o perfil de uma beleza crua que me irritava por ser tão... natural. Peguei o telefone e liguei para o Dimas, meu assessor pessoal que já estava na cobertura organizando os últimos detalhes. — Dimas, quero um personal stylist na cobertura ainda hoje. O melhor que o dinheiro puder pagar — disparei, sem tirar os olhos da estrada. — Algum evento específico, chefe? — ele perguntou, sempre eficiente. — Vou transformar uma faxineira em uma rainha para o jantar dos meus pais. Quero um guarda-roupa completo. Traga todas as grifes internacionais. Desliguei antes que ele fizesse mais perguntas. Daniella se encolheu no banco de couro, parecendo ainda menor sob o meu julgamento. — Você me acha um objeto, não é? — ela disse, a voz rouca de cansaço e mágoa. — Um projeto que você pode reformar. — Você é um investimento, Daniella. E eu não aceito prejuízo. Se vou te exibir, você será a melhor versão que esse dinheiro pode comprar. Chegamos à cobertura nos Jardins. O luxo era absoluto: mármore n***o, automação de última geração e uma vista que dominava a cidade. Ali seria o nosso lar, ou o nosso inferno.
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