Capítulo Dezoito — A Farsa Perfeita

1333 Words
Guilherme Sampaio Eu estava feito um louco à procura de Daniella. Não conseguia apagar da mente a imagem do seu rosto — aquela beleza delicada que eu mesmo ajudei a moldar para a noite — perdendo o brilho instantaneamente ao ouvir as palavras venenosas de Lívia. O que eu mais odiava, no entanto, não era o veneno da minha ex-noiva, mas a minha própria paralisia. Fiquei feito uma estátua, congelado no lugar, ainda enfeitiçado pela presença da mulher que amei por tantos anos e que teve a audácia de me trair com meu próprio irmão durante dois anos, bem debaixo do meu nariz. Um lado sombrio de mim desejava o revide; desejava reconquistá-la apenas para descartá-la, fazendo-a sentir o mesmo gosto amargo da rejeição. O que eu não esperava era a conexão inesperada que estava criando com a esposa falsa que contratei. Daniella deveria ser apenas um adereço, um escudo de luxo para despertar o ciúme de Lívia, mas sua ausência agora deixava um vazio estranho e inquietante. No instante em que decidi finalmente ir atrás dela, ouvi um burburinho. Algumas pessoas começaram a se aglomerar no centro do salão. Próximo a elas, vi meu irmão com um semblante forçadamente preocupado. — Aconteceu alguma coisa com sua mãe! Ela está caída ali — Lívia disparou, correndo em direção ao tumulto. Olhei para a saída, hesitando. Não havia rastro de Daniella. Será que ela está me esperando lá fora?, me perguntei, sentindo uma pontada de ansiedade. Decidi checar o estado da minha mãe rapidamente antes de sumir daquela festa maldita. — Guilherme, nos ajude com a mamãe — Rodrigo pediu, a voz carregada de um nervosismo que me pareceu exagerado. Minha mãe estava sentada, cercada pelo meu pai, que a abanava freneticamente enquanto ela fingia estar à beira de um desmaio. — Alguém chamou uma ambulância? Ela precisa ir a um hospital agora — eu disse, cruzando os braços e observando a cena que me parecia ensaiada demais para ser real. — Vamos levá-la para casa. Ela só está cansada — Lívia interveio, aproximando-se da minha mãe com um zelo suspeito. — Ela se esforçou muito na organização desta festa. Deve estar emocionada com a sua chegada, Guilherme. — É claro, filho... Tantos anos sem você conosco. Eu senti tanto a sua falta — minha mãe murmurou, a voz fraca e trêmula, como se estivesse realmente desfalecendo. Eu não confio em uma única vírgula que sai da boca dessas pessoas. Mas, ali, diante dos convidados, eu não podia simplesmente ignorar um possível m*l-estar da minha mãe. Ofereci meu carro para levá-la ao hospital, testando o blefe. — Não! Eu não quero hospital nenhum. Só quero meus filhos ao meu lado, e o seu pai — ela olhou para ele com os olhos marejados. — Desculpe, querido. Eu estraguei a sua festa. — Não se preocupe, Soraia. Vamos para casa. Você precisa descansar; já comemoramos o suficiente — meu pai cedeu prontamente. — Vamos, Guilherme. Eu vou com você. Seu pai se despede dos convidados por mim — ela determinou. Nada me tirava a sensação de que aquilo era puro teatro. Eu só precisava entender qual era o objetivo final daquela encenação. — Já que a senhora está bem o suficiente para recusar o hospital, pode ir com o Rodrigo. Eu tenho que ir para casa — anunciei, já girando sobre os calcanhares. — Guilherme, seu filho ingrato! — Minha mãe, que segundos antes parecia estar morrendo, recuperou a voz e o vigor milagrosamente. — Você vai deixar sua mãe nesse estado para ir atrás de uma mulher? — Já melhorou, mamãe? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. Ela se jogou dramaticamente na cadeira, retomando o papel. — Filho, eu só estou sensível... Ter você de volta mexeu comigo. Leve a mamãe para casa e fique comigo esta noite. Sua esposa vai entender. Olhei para o relógio. O tempo estava correndo. Se Daniella ainda estivesse lá fora, estaria exposta ao sereno da noite. Eu estava com as chaves, ela não sabia onde o carro estava... Liguei para o celular dela, mas caiu direto na caixa postal. Maldita hora para ela sumir. — Vamos, mamãe. Vou te deixar em casa, fico até a senhora pegar no sono e depois sigo para a minha residência. Daniella está sozinha. — Obrigada, meu filho. Lívia, acompanhe-nos também. Rodrigo fica com o Leonardo para dispensar os convidados e depois eles nos encontram. — Posso levá-la sozinho, Soraia. A Lívia não precisa vir — tentei evitar, pois não queria ficar confinado em um carro com a mulher que ainda bagunçava minha cabeça. — Claro que ela vem. A Lívia mora conosco agora — minha mãe soltou a bomba. Fiquei em silêncio, processando a informação. Edu me dissera que o relacionamento dela com Rodrigo tinha fracassado, então por que diabos ela ainda vivia sob o teto dos meus pais? Ajudei a levar minha mãe até o carro, varrendo o estacionamento com os olhos na esperança de ver Daniella. Nada. Ela provavelmente pegara um transporte por aplicativo. No banco de trás, Lívia não perdeu a chance de destilar seu deslumbramento. — Você se deu muito bem mesmo, não é, Guilherme? Que carro é esse! Quanto custou? Olhei-a pelo retrovisor. O brilho de cobiça nos olhos dela era o mesmo de seis anos atrás. — Não me lembro do preço. Isso não importa. Eu apenas apontei o modelo e mandei entregarem. Ela ficou em silêncio por alguns instantes, visivelmente afetada pela minha indiferença financeira. Chegamos à mansão Sampaio. O lugar onde cresci me trouxe uma onda inevitável de nostalgia. Quase nada tinha mudado; o cheiro de madeira e lavanda era o mesmo. Minha mãe subiu para o quarto e eu fiquei parado na sala, cercado por fantasmas de uma família que me traiu. — Pensando em como a gente se pegava atrás daquela pilastra? — Lívia sussurrou, aproximando-se por trás. O perfume dela — o mesmo que eu costumava amar — misturou-se ao cheiro da casa, nublando meus sentidos. Mesmo com todo o ódio, eu não podia apagar a memória do que vivemos. Eu ainda buscava a resposta para o porquê. — Eu sei que você se casou, mas sei que ainda pensa em mim — ela invadiu meu espaço pessoal, pressionando o corpo contra o meu. O aroma me invadiu e, em um momento de fraqueza e desejo de posse, eu a puxei pelo pescoço, esmagando meus lábios nos dela. Aquele beijo era carregado de história, de uma luxúria antiga que costumava me deixar louco. Meu corpo parecia querer me trair, ou talvez fosse apenas a minha necessidade de testar se ela ainda tinha poder sobre mim. O beijo avançou, o calor subindo. Lívia levou a mão até minha calça, onde a excitação era evidente, mas, no ápice do contato, o rosto que surgiu na minha mente não foi o dela. Foi o de Daniella. O olhar triste dela no salão me atingiu como um soco. — Vamos parar com isso — eu a segurei pelos ombros, afastando-a com firmeza, mas sem violência. — Eu sei que você ainda me quer, Guilherme. Não sabe o quanto me arrependi de ter te traído — ela disse, tentando me alcançar novamente. — Para, Lívia! — Dei um passo atrás, rompendo o círculo de sedução dela. — Eu não esqueci o que você fez. Nem o que meu irmão e minha família fizeram. — Já faz tanto tempo, amor... Não pode nos perdoar? Todos erramos, mas era o que tínhamos na época. — Eu não quero mais falar sobre isso. Eu reconstruí minha vida sem nenhum de vocês e não tenho o menor interesse em me reconciliar com uma família que me tratou como lixo descartável. Saí daquela casa às pressas, o ar frio da noite limpando meus pulmões. Eu ainda tinha feridas abertas, feridas que latejavam de ódio. E, por um segundo, senti que estava traindo a única pessoa que, naquele momento, parecia ser real em meio a tanta farsa: Daniella. Eu precisava encontrá-la.
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