Capítulo Onze — O Troco

1265 Words
Guilherme Sampaio Eu achava que estava pronto para o confronto com meu passado, mas na verdade eu não estava pronto para ela. Quando Daniella saiu da limousine, meu cérebro deu um curto-circuito. A faxineira de mãos calejadas havia sumido. A gata borralheira se transformou em Cinderela. E eu a fiz minha ontem à noite. Em seu lugar, uma mulher de uma beleza devastadora, capaz de calar qualquer salão de festas da elite paulistana. Aquele que tive em meus braços e me proporcionou um dos melhores orgasmos que já tive, A mudança foi tão brutal que meu receio de passar vergonha com sua simplicidade foi substituído por uma atração que eu odiava sentir. Meu sentiu na hora o choque apenas por olhá-la com aquele vestido e lembrança de quando esteve dentro dela, Nem o peso a mais do seu corpo parecia ter importância naquele momento. Ela estava ali, com aquele olhar de desafio que me dava vontade de dobrá-la sobre a primeira mesa que encontrássemos. Estava certo de que nossa relação seria um duelo constante. Beijei sua testa para as câmeras, mas o cheiro da pele dela — uma mistura de lavanda e o perfume caro que comprei — me deixou tonto. — Tente não tropeçar na própria língua e cair desses saltos — murmurei, guiando-a para dentro do evento de Leonardo Sampaio. Tentando controlar o desejo de beijá-la novamente. Entrar naquela festa era como caminhar sobre brasas. Cada rosto ali representava um pedaço do meu passado que eu queria queimar. Todos sabiam o que tinha acontecido e nunca mais souberam de mim. Meus pais, Leonardo e Soraia, estavam no centro do salão, cercados pela corte de hipócritas que chamavam de amigos. Mas o que realmente amargava minha alma e deixava um gosto de fel na minha boca era quem estava ao lado deles. Lívia parecia a mesma de sempre. Sua beleza e elegância permaneciam a mesma. Rodrigo, meu irmão mais novo. O canalha que tomou posse de tudo o que eu conquistei, inclusive a quem eu mais amei, não estava ali e estranhei isso. Lívia era a mulher por quem eu teria dado a vida, a mulher que me jurou amor eterno e me jogou na lama sem a menor consideração. Estranho! De repente não senti o medo de reencontrá-la ou até de senti o que senti quando a vi na entrada da Holding Paiva. Senti Daniella tencionar ao meu lado. Ela percebeu. Vi que era sensível e soube que eu tinha coisas escondidas. E o olhar que ela direcionava a mulher que eu amei um dia e estava ao lado dos meus pais, dizia que a compreensão dela era real, Minha mãe nos viu primeiro. Ela abriu aquele sorriso de mãe encantadora e dedicada que eu sabia ser falso e puro fingimento. Uma mãe que ama um filho não faria o que ela e o meu pai fizeram. — Guilherme! — ela exclamou, a voz carregada de falsa alegria. — Que bom que veio. Seja bem vindo, meu filho! Lívia se virou. O rosto dela esconder o sorriso que pretendia dar ao me ver, quando seus olhos se desviaram para a mulher ao meu lado. Eu vi o choque dela. Vi a inveja brilhar por um segundo antes de ser mascarada pela etiqueta social. E ela nem sabia ainda quem eu me tornei. Apertei a cintura de Daniella com uma possessividade que não era apenas para as câmeras. Era real. Ela era minha. Eu queria que Lívia visse que eu tinha algo melhor. Alguém mais forte. Mesmo que fosse uma farsa que duraria dois anos. Ou para sempre. — Mãe, papai. Lívia — falei, minha voz saindo como um trovão baixo e controlado. — Creio que não conhecem minha esposa. Essa é Daniella Sampaio. Lívia mediu Daniella de cima a baixo, procurando um defeito, uma falha. Não encontrou nada. — Esposa? — meu pai perguntou, olhando para minha mãe. — Você nunca mencionou que ele tinha se casado, Soraia. — Há coisas que guardamos para nós mesmos, papai. Especialmente o que é precioso demais para ser compartilhado — retruquei, sentindo o prazer sombrio de ver a mágoa nos olhos da Lívia. Mas o prazer foi curto. Percebo o meu irmão se aproximar, e o ar ficou ainda mais rarefeito. Minha mãe como sempre tentou ser a pacificadora. Puxou o Rodrigo para mais perto e usou a chantagem emocional como arma para amenizar a tensão — Que bom que chegou meu filho. Veja só quem está aqui. Esse é o dia mais feliz da minha vida. Tenho meus filhos juntos novamente. Eu fiquei olhando aquela cena patética. Será que ela pensa que esqueci tudo o que me fizeram passar? — Então meu filho pródigo finalmente resolveu aparecer — meu pai disse, a voz ansiosa. Parecia entender a estratégia da esposa — é bom tê-lo aqui novamente, Guilherme. Você e sua esposa são bem vindos. — Vejo que ele trouxe companhia. Espero que sua escolha seja melhor do que suas decisões de abandonar a família anos atras — disse o meu irmão com olhos famintos para Daniella e isso me deixou incomodado. Todos percebem a alfinetada dele e minha mãe logo continua sua encenação. — Filho, que bom que está aqui. Quanto saudade! — minha mãe vem até mim e me abraça. Eu não retribuo. Ela parece constrangida, mas sai pela tangente. — Sua esposa é... linda! De onde ela é? Onde se conheceram? — Isso não interessa a vocês — digo, mantendo o braço possessivo ao redor da sua cintura. Senti o corpo de Daniella vibrar. — A minha esposa realmente é uma mulher linda e uma pessoa maravilhosa, Soraia. — Dou um beijo nos lábios da Daniella e a vejo corar. — Ora, não é porque nos abandonou e ficou anos fora sem dar notícias que irá começar a chamar sua mãe pelo nome, Guilherme. Olha o respeito. Leonardo Sampaio. Sempre autoritário e arrogante em achar que pode interferir na vida e nas escolhas alheias. Mas o problema não era o meu pai. O problema era como Lívia olhava para mim, e como meu corpo traidor ainda reconhecia aquele olhar. Eu sentia a pressão da mão de Daniella no meu braço e isso estava despertando coisas que eu não sentia há muito tempo. Eu estava no meio de um campo minado. De um lado, a mulher que me destruiu. Do outro, a mulher que eu estava destruindo. Olhei para o meu pai ainda ali com seu ar autoritário achando que eu pediria desculpas. — Você não determina como me refiro a ninguém, senhor Leonardo. Eu vim em... paz. Fui convidado e aceitei o convite. Mas se minha presença ainda continua sendo... um incomodo pra vocês, posso me retirar... novamente. — Você parece ainda guardar mágoas por não ter sido o escolhido pela Lívia, Guilherme — meu irmão se mete trazendo isso à tona. — Rodrigo, isso não é hora de falarmos sobre esses assuntos. Vamos festejar o aniversário do seu pai. Depois conversamos sobre a roupa suja. Lívia, sempre esperta e inteligente. Buscou amenizar a situação. Me olhou como quem dizia: você me deve essa. Eu a ignorei. — Vamos circular, querida — disse para Daniella, ignorando o olhar suplicante de Lívia. Precisávamos manter a fachada, mas por dentro eu estava em ruínas. Reencontrar essas pessoas e saber que eles ainda acham que lhes devo alguma coisa é uma facada em meu peito ainda aberto. A presença de Daniella ali estava me dando mais segurança do que eu esperava. Me dei conta que, talvez, a mercadoria fosse muito mais perigosa do que o comprador.
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