Daniella Paiva
A noite foi um deserto de descanso. Eu despertava a cada trinta minutos, com o coração saltando no peito, e tateava o celular para ver se havia alguma mensagem dele.
Aquele número desconhecido me ligou apenas duas vezes e não insistiu mais. Talvez não tenha sido ele, pensei, tentando me convencer, embora a intuição gritasse o contrário.
Não dormi quase nada. Quando os primeiros raios de sol atravessaram a cortina, resolvi me levantar. Precisava ir até a clínica visitar minha mãe; ela certamente estranharia minha ausência prolongada.
O peso no meu peito aumentava só de pensar que eu ainda não tinha contado a ela nada do que aconteceu nesses últimos dias. Como explicar que minha liberdade foi o preço do seu fôlego?
Fui para o banho. A água quente batia em meus ombros, mas não conseguia relaxar os músculos retesados. Sentia dores pelo corpo e uma enxaqueca latejante, fruto da tensão insuportável do jantar de ontem.
Eram muitas emoções acumuladas e eu não tinha desabafado com ninguém. Eu era uma represa prestes a romper.
Saí do banho e olhei ao redor. A casa estava em ordem; o silêncio e a arrumação eram as únicas coisas que eu ainda podia controlar. Vesti minha velha calça jeans e uma camiseta simples, prendi o cabelo e peguei a mochila.
Antes da clínica, passei no supermercado. Comprei itens de higiene e algumas guloseimas que sei que ela adora, tentando comprar, com pequenos gestos, a coragem que me faltava.
Ao chegar na clínica, o cheiro de antisséptico me atingiu, trazendo de volta a realidade da doença. Segui pelo corredor familiar até o quarto dela.
Antes de tocar na maçaneta, fechei os olhos e respirei fundo, forçando uma máscara de tranquilidade para que ela não percebesse o abismo em que eu estava mergulhada.
— Filha! — O sorriso dela surgiu, embora estivesse cansado e desgastado pelo tratamento severo.
— Que bom te ver. Pensei que tinha finalmente abandonado esse fardo e ido viver sua vida, como eu sempre te digo para fazer.
Ela ria enquanto eu a envolvia em um abraço apertado. Naquele contato, encontrei o alento que minha alma gritava para ter.
Enterrei o rosto em seu ombro, segurando com todas as forças a vontade de chorar. Eu não podia desmoronar agora; ela era a frágil, não eu.
— Não diga isso nem de brincadeira, mãe — respondi, afastando-me um pouco para analisar seu rosto pálido.
— Tive muitos contratempos e só consegui vir hoje. Como você está? Os efeitos da quimioterapia melhoraram?
— Você sabe como eu fico após as sessões, querida... Mas o Doutor Telles tem boas notícias. Falou com ele?
— Que notícias? — Meu coração acelerou. A esperança de que ela pudesse voltar para casa era o que me mantinha de pé.
— Não o vi quando cheguei. Daqui a pouco vou procurá-lo. Agora, só quero ficar aqui juntinho de você.
— Você trabalha muito, Daniella. Tem que tirar um tempo para cuidar de si mesma — ela me observou com aquele olhar clínico de mãe, capaz de atravessar qualquer disfarce.
— Está abatida, pálida. Tem se alimentado bem?
— Claro, mãe — menti, desviando o olhar. A verdade é que eu m*l conseguia engolir algo desde que esse inferno com o Guilherme começou.
— É só o cansaço do trabalho e da faculdade. — Fiz uma pausa, sentindo um nó na garganta.
— Estou pensando em trancar o semestre. Está ficando pesado e não quero que minhas notas caiam.
— Isso vai te afetar muito, eu sei... — Ela estendeu a mão, fazendo um carinho suave em meu rosto.
— Sei o quanto esse sonho é importante para você. Perdoe a mamãe por não poder te ajudar, Daniella. Por ser o motivo de tanto sacrifício.
O brilho de emoção nos olhos dela me desesperou. Tentei desconversar imediatamente; agitá-la era perigoso para sua recuperação. Mas o destino parecia não querer me dar trégua.
Meu celular tocou no bolso. Olhei a tela: o mesmo número de antes. Ignorei a chamada e guardei o aparelho no bolso de trás da calça, mas minhas mãos tremiam.
— Que cara é essa, Daniella? — A voz dela ficou séria, o tom de quem não aceitaria mais evasivas.
Percebi que não conseguiria sustentar a mentira por mais tempo. Respirei fundo e me deitei ao seu lado na cama estreita, buscando o conforto da sua presença, como fazia quando era criança e tinha medo do escuro. Só que agora, o monstro era real.
— Mãe... o papai andou aprontando.
— E qual a novidade nisso? — Ela suspirou com amargura. Nada de novo, exceto que, desta vez, o preço foi a minha vida.
— Dessa vez as coisas saíram do controle dele. Tomaram proporções que ele não conseguiu manejar... e eu fui envolvida.
— Como assim? — Ela se ajeitou na cama, o rosto contraído de preocupação. — Como ele te envolveu nos negócios dele? Você nunca quis nem chegar perto daquela sujeira!
— Eu não tive escolha, mamãe — levantei-me, incapaz de ficar parada. Comecei a andar de um lado para o outro no quarto pequeno, sentindo-me encurralada.
— O que ele fez, Daniella? Se aquele homem te colocou em perigo, eu juro que acabo com ele!
— Calma, dona Sheyla! Não pode se aborrecer — pedi, tentando conter o tom de voz. — Eu não queria te preocupar, mas você precisa saber...
— Conte-me tudo. Agora.
Voltei para perto da cama e encarei aquele rosto que, apesar de pálido, sempre foi meu porto seguro. As palavras saíram como um veneno que eu precisava expelir.
— O papai adquiriu dívidas imensas. Um figurão do ramo financeiro precisava de uma esposa por contrato, por um tempo determinado, e ofereceu o perdão da dívida se o papai entregasse a Lilian como noiva por dois anos.
— O seu pai nunca deixa de me surpreender negativamente — ela disse, com os olhos cerrados.
— Ele é capaz de tudo por dinheiro. Até abandonar a mulher grávida sem olhar para trás... — Ela me encarou, o cenho franzido em confusão.
— Mas o que você tem a ver com essa história da Lilian?
— A Lilian fugiu, mãe. Casou-se com o gerente financeiro das empresas Paiva e desapareceu. O papai já tinha assinado o contrato de garantia... ele não teve outra opção a não ser me oferecer no lugar dela.
O rosto da minha mãe se contorce em uma máscara de fúria e pavor. O monitor cardíaco ao lado da cama começou a apitar levemente mais rápido, indicando sua agitação.
— Me diga que você não aceitou algo tão absurdo, Daniella! Você não é uma mercadoria para ser negociada!
— Eu sinto muito, mãe... — As lágrimas que eu segurei a manhã toda finalmente transbordaram, quentes e amargas.
— O papai ameaçou cortar o seu tratamento. Disse que não pagaria mais nada se eu não aceitasse. Eu fiquei sem saída. Era a sua vida ou a minha liberdade.
Vi uma névoa de culpa e dor tomar conta da expressão dela. O silêncio que se seguiu foi devastador. Eu sabia o que ela estava sentindo: a culpa de estar viva às custas da minha felicidade.
O pânico me dominou ao ver sua respiração ficar irregular; eu não me perdoaria jamais se a verdade acabasse sendo o que a levaria de mim.