Capítulo Três — A Bastarda Borralheira

1692 Words
Daniella Paiva O cheiro de sândalo e cera cara da mansão dos Paiva sempre me causou um nó no estômago, mas o jantar de sábado era um ritual sagrado. Prometi à minha mãe, depois que ela adoeceu e precisou se internar, que me esforçaria para ter uma boa relação com o meu pai: Rômulo Paiva. Um empresário do ramo têxtil que a conheceu durante a faculdade, a engravidou e nunca assumiu. Hoje, após vinte e cinco anos, ela enfrenta um câncer que exige muitos cuidados e eu precisei me humilhar a esse homem para que pudesse ajudar no tratamento dela. Cruzei o hall de mármore com meu uniforme de ASG ainda na mochila. Trabalho limpando escritórios o dia todo e meu orgulho é a única coisa que brilha mais que aquele chão da mansão Paiva. — Olha só quem chegou... — a voz de Lucrécia, a esposa do meu pai, cortou o ar como uma lâmina enferrujada. — O jantar está atrasado, Daniella. Por favor tente não sujar o estofado com esse seu cheiro de produto de limpeza. Ignorei. Lucrécia me odiava por eu ser o lembrete vivo de que Rômulo teve uma vida — e uma paixão — antes dela e de seus milhões. Theodoro, meu meio-irmão, estava no sofá com seu melhor amigo. Sergio Carvalho. O homem por quem meu coração batia acelerado. Mas que não me enxergava como mulher. Apenas como a filha bastarda do seu chefe. Meu coração deu um solavanco involuntário ao vê-lo ali. Ele trabalhava para o meu pai e frequentava a mansão Paiva com frequência. O vi sorrir para mim, um gesto que eu guardava no peito como um tesouro secreto. — Oi, Dani. Trabalhou muito hoje? — perguntou, levantando-se para me cumprimentar. — O de sempre. Mas não é o trabalho que me cansa, o que mata é a arrogância de quem menospreza o que faço — respondi, lançando um olhar para Theo, que nem sequer tirou os olhos do celular. Senti o olhar do moreno em mim, mas logo ele se desviou para a escadaria. Lilian, com sua beleza e elegância, e filha "perfeita", estava descendo as escadas. Ela usava um vestido que custava três meses do meu salário. Enquanto eu ainda vestia uma simples calça jeans e uma camiseta. Sergio a observou com uma admiração que me queimou por dentro. Dói saber que, para ele, sou apenas a garota esforçada e nunca me olhou daquela forma. — O jantar está servido — anunciou o mordomo, interrompendo a tortura silenciosa. Sentamos à mesa de mogno. O silêncio era pesado, interrompido apenas pelo tilintar dos talheres de prata. Rômulo parecia distante, sério. Sua tensão era perceptível pela carranca usual. Mais hoje ainda mais feia. — Preciso dar uma notícia — meu pai começou, a voz carregada de um peso que eu nunca tinha ouvido antes. — As empresas estão enfrentando uma crise sem precedentes. Lucrécia parou o garfo no ar. — Crise? Do que você está falando, Rômulo? Acabamos de trocar o iate! — Gastamos o que não tínhamos, Lucrécia. “O mercado têxtil ruiu e os empréstimos que tomei com a Blackwood Global Holding venceram.” — E o que isso significa? — Theo interveio, finalmente largando o celular. — Significa que estamos tecnicamente falidos. A menos que aceitemos a condição do CEO da Blackwood. Senti um calafrio percorrer minha espinha. "Condição" era uma palavra perigosa na boca de homens poderosos. — Ele ofereceu um aporte de capital imediato e uma moratória de dois anos na dívida — continuou Rômulo, olhando para Lilian. — Em troca de um casamento por contrato. Você irá se casar com ele, Lilian e isso é irreversível. O barulho do cristal batendo na mesa foi como um tiro. Lilian empalideceu, seus olhos azuis arregalados em choque. — Casamento? — Lucrécia gritou. — Você quer vender a nossa filha para um estranho para salvar seus negócios? — Não é vender! É um contrato de dois anos. Ela terá tudo do bom e do melhor, e depois se divorcia e teremos as empresas a salvo. “É a única forma de mantermos esta casa, os carros... a sua vida de luxo, Lucrécia!” Lilian começou a tremer. Olhei para Sérgio; ele parecia paralisado, os punhos cerrados sobre a mesa. A angústia dele por ela era uma adaga no meu peito. — Quem é esse homem, pai? — Lilian perguntou, a voz saindo em um sussurro engasgado. — Guilherme Sampaio. Dizem que ele é uma máquina. Voltou de Londres com sangue nos olhos e está comprando metade de São Paulo. — Esse homem só pode ser um monstro, Rômulo! — Lucrécia bufou. — Ele é a nossa única salvação — meu pai rebateu, autoritário. — Lilian, por favor... você é a única que pode fazer isso. Eu observava a cena como se estivesse fora do meu corpo. A família "perfeita" estava desmoronando diante da perda do ouro que tanto amavam. Sempre fui a excluída, a bastarda que limpava o chão que eles pisavam, mas naquele momento, eu sentia pena de Lilian. Ser entregue a um homem possessivo e frio como esse tal Sampaio parecia um destino pior que a pobreza. — Eu não entendo... Sr. Rômulo — Sérgio murmurou, olhando para o meu pai — Não existe outra saída? Um empréstimo bancário? — O nome Paiva está sujo no mercado. Ninguém nos dá um centavo. Guilherme Sampaio nos tem nas mãos. O casamento será em sete dias. “Ele quer o sobrenome, quer a imagem de uma família tradicional para os negócios dele.” — Ele quer uma boneca de luxo — eu disse, minha voz saindo mais firme do que eu planejava. Todos os olhares se voltaram para mim. Lucrécia me fuzilou com o olhar. — Cale a boca, Daniella. Isso não é assunto para você. Volte para a sua insignificância. — Eu posso ser insignificante, Lucrécia, mas pelo menos ninguém está me vendendo para pagar dívidas — retruquei, sustentando o olhar dela. Rômulo suspirou, ignorando a nossa troca de farpas. Ele estava focado na filha mais nova, que agora chorava silenciosamente. — Lilian, querida... são apenas dois anos. Você terá joias, viagens, e salvará o seu pai da prisão por fraude financeira. “Porque é para lá que eu vou se a Blackwood executar a dívida.” A palavra "prisão" caiu como uma bomba na sala de jantar. Até Theo parecia horrorizado agora. Lilian levantou-se bruscamente, derrubando a cadeira de veludo. O som ecoou pelo teto alto da mansão, vibrando nos meus ouvidos. — Você está me pedindo para me casar com um homem que eu não conheço? Um homem que você mesmo diz que é perigoso? Provavelmente um velho babaca que quer uma novinha pra exibir. — É para o bem de todos, Lilian! Lucrécia tentou mudar de tática, vendo a ruína de seu estilo de vida bater à porta. — Pense no sacrifício que seu pai fez por nós todos esses anos! — Sacrifício? — Lilian soltou uma risada histérica, as lágrimas borrando a maquiagem cara. — Vocês querem que eu seja uma moeda de troca! Ela olhou para o Theo ao seu lado, buscando um apoio que ele não podia dar. Não passava de um inútil Ele abaixou a cabeça, a impotência estampada em seu rosto. Sergio a olhava com devoção e ao mesmo tempo com angústia. Era nítido o seu interesse nela. Meu coração sangrou por ele, e por ela, e por mim, presa naquele teatro de horrores. — Eu não vou me casar com esse Guilherme Sampaio! — Lilian gritou, a voz ecoando por toda a mansão. — Eu não sou um objeto! Eu prefiro morrer a ser entregue a esse carrasco! — Quanto a isso não há o que discuti, Lilian. Nem que eu te mantenha presa em seu quarto até o dia do casamento, você irá se casar com ele e caso encerrado. Ela saiu correndo da sala, subindo as escadas aos prantos. Lucrécia foi atrás dela, gritando ordens e súplicas. Theodoro levantou-se e saiu para o jardim, provavelmente para socar alguma parede. Sobramos apenas eu, meu pai e o homem por quem meu coração erra a batida cada vez que ele está por perto. O grande empresário não perdia a pose de grandeza. Mesmo diante da falência e de ter que vender a própria fica não abandonava o ar arrogante. Sérgio olhou para mim. Havia uma dor profunda em seus olhos, uma preocupação que eu sabia que não era por mim, mas pela "princesa" que tinha acabado de fugir. — Eu preciso ir, Dani — ele disse, a voz rouca. — Isso tudo... é demais. Fiquei ali, sentada à mesa farta, cercada por luxo e podridão. Olhei para o meu pai, ainda sentado à mesa como se nada estivesse fora do lugar. — Papai — chamei sua atenção, porém apreensiva pelo que iria falar — quanto a conta do hospital... — engoli em ceco. Era sempre constrangedor pedir ajuda a esse homem. —Não vê que estamos vivendo uma situação complicada e você ainda vem falar de dinheiro, Daniella — ele responde antes de me ouvir. Sinto meu rosto queimar de vergonha e revolta. Sempre fomos apenas nós duas enfrentando todas as dificuldades. Por amor a ela, me sujeitei a precisar das esmolas que ele me dava pra arcar com os custos do tratamento. Me esforçava para que dependesse o menos possível. — Eu... — segurei o choro pela humilhação continua — ia dizer que consegui um segundo emprego. Ainda não é o suficiente para arcar com tudo. Vou continuar precisando da sua ajuda. — Torça para que sua irmã se convença e aceite esse casamento. Se não, nada de dinheiro para tratamento a partir de agora. O destino de Lilian parecia selado, e o meu e da minha mãe também, mas algo me dizia que Guilherme Sampaio não era homem de aceitar um "não" como resposta. Eu não sabia quem ele era, mas o nome "Guilherme Sampaio" agora estava gravado na minha mente como um aviso de tempestade. Mal sabia eu que a recusa de Lilian mudaria o curso da minha vida de uma forma que eu jamais poderia imaginar.
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