Guilherme Sampaio
Daniella ainda segurava minha mão por baixo da mesa. Estranhamente, aquele gesto firme me transmitia uma calma que eu não sentia momentos antes, logo após a provocação barata do meu irmão diante de todos.
Rodrigo sempre soube exatamente onde cutucar para me ferir ou me envergonhar. O que ele não esperava, entretanto, era a surpresa que eu trouxera comigo. As dívidas da construtora da família agora pertenciam ao grupo onde eu era o gestor absoluto.
A humilhação que ele planejou estava prestes a ricochetear.
— Como assim, CEO da Blackwood? — Lívia perguntou, a voz falhando e a expressão subitamente desmascarada.
Eu a encarei, sentindo o sangue pulsar nas têmperas enquanto controlava minha raiva. As palavras dela ecoaram na minha mente como um veneno antigo; lembrei-me de quando meu pai escolheu meu irmão para assumir as empresas e ela me chamou de "fracassado".
Na época, ela deixou claro que não pretendia continuar com alguém que seria apenas um "simples advogado" em outro país.
— Londres me deu grandes ensinamentos e oportunidades — respondi, mantendo a voz gélida e pausada. — De um "simples advogado", tornei-me o CEO de um dos maiores conglomerados financeiros da Europa.
O semblante de Lívia empalideceu instantaneamente. Era visível o peso do arrependimento e do choque em seus olhos. Ela estava confrontando a nova realidade do homem que um dia amou e traiu com o próprio irmão.
— Ora, mas isso é maravilhoso! — interrompeu minha mãe, as mãos inquietas sobre o guardanapo, tentando, como sempre, amortecer a queda dos ânimos. — Meu filho se tornou um homem importante no mundo dos negócios.
— Meu marido tem se esforçado bastante para equilibrar os interesses — Daniella interveio, sua voz soando doce, mas carregada de uma autoridade que me impressionou. — Voltamos ao Brasil para que a unidade em São Paulo siga os mesmos parâmetros rígidos da matriz em Londres.
— Você parece saber muito bem sobre os negócios do meu irmão — disparou Rodrigo. O despeito em sua voz era tão evidente que chegava a ser patético. Ele se ajeitou na cadeira, visivelmente desconfortável.
— Mas é claro que sei — ela sorriu, um brilho astuto nos olhos enquanto sustentava o olhar dele. — Afinal, somos casados e atuamos praticamente na mesma área.
Essa informação me pegou de surpresa. Onde ela pensa que vai chegar com essa conversa?, pensei, observando o perfil decidido de Daniella. Ela era, de fato, uma caixinha de surpresas.
— Eu e minha esposa convivemos no mesmo ambiente — completei, reforçando a narrativa. — Ela conhece a dinâmica do meu trabalho e costumamos falar sobre isso em nossos momentos de i********e, em casa.
Lívia parecia ter engolido algo amargo. Sua expressão era de pura derrota ao perceber, talvez pela primeira vez, que havia escolhido o irmão errado.
— Estou feliz por você, meu amigo — disse Edu, quebrando o silêncio pesado. Seu comentário foi um golpe de misericórdia, carregado de uma satisfação legítima. — Ficamos anos sem contato, e te reencontrar sabendo do seu sucesso me deixa muito realizado. Parabéns.
Edu não perderia a oportunidade de esfregar a verdade na cara de quem me viu sair do Brasil destruído. Todos ali conheciam a história da traição e sabiam que eu havia sido chutado para fora porque, segundo meu pai, Rodrigo tinha "mais a cara dos negócios da família".
— Bem... para mim é um prazer e uma bênção ter meus dois filhos juntos neste jantar de comemoração dos meus setenta anos — declarou meu pai. Suas palavras saíram incertas, e ele evitou meu olhar. Ele sabia o que tinha feito. Sabia o quanto me subestimara e, agora, percebia que eu detinha o controle do seu império.
— Um brinde ao meu pai e seus setenta anos! — Rodrigo levantou a taça, os olhos fixos nos meus como um último desafio desesperado. Ele sentia que a música agora era tocada por mim. Ele teria que me engolir.
O restante do jantar transcorreu em um silêncio tenso, interrompido apenas pelo tilintar dos talheres. Daniella continuava a apertar minha mão sempre que Rodrigo tentava uma nova estocada. O toque dela era um âncora, lembrando-me de não ceder às provocações.
— O casal de pombinhos deseja ter filhos? — Lívia disparou a pergunta, ácida. Senti Daniella congelar ao meu lado. Dessa vez, fui eu quem apertei sua mão sob a mesa, oferecendo suporte.
Lívia queria testar a solidez da nossa união. Se ela queria um show, ela teria.
— Estamos casados há dois anos e, no momento, quero curtir a minha mulher — respondi, virando-me para Daniella. — Quero viajar e aproveitar cada segundo antes de aumentarmos a família. Ser pai está nos meus planos, mas agora a Blackwood exige muito de mim.
Olhei para Daniella, e ela me devolveu um olhar de uma cumplicidade tão profunda que meu coração falhou uma batida. Naquele momento, qualquer pessoa na sala juraria que éramos um casal apaixonado.
— Quando tivermos filhos, quero ser um pai e marido presente, e não apenas um provedor — finalizei, aproximando-me dela.
Inclinei-me e selei seus lábios com um beijo. Senti o calor que emanava dela e uma reação imediata percorreu meu corpo, trazendo a memória vívida da noite que compartilhamos. Aquele contrato estava me trazendo muito mais surpresas do que a simples substituição de uma noiva.