Capítulo Dois — O Reencontro Inesperado

1216 Words
Guilherme Sampaio — Guilherme! Quanto tempo! — A voz dela me atingiu como um estilhaço de vidro. Lívia Ferreira estava saindo do elevador, acompanhada de duas pessoas que eu não fazia ideia de quem fossem e me importava ainda menos. Ela parou, os olhos arregalados, a mesma expressão de falsa inocência que um dia me fez acreditar em contos de fadas. — Lívia... — fui seco, monossilábico. Minha voz saiu como o estalar de um chicote. — Nossa! Quando você chegou ao Brasil? A Soraia não me falou que você estava aqui. — Minha mãe ainda não sabe que cheguei — respondi, mantendo a face impassível enquanto meu interior se transformava em um campo de batalha. Vê-la ali, tão perto, trouxe o gosto amargo do passado de volta. O perfume dela ainda era o mesmo, o que me causou uma náusea violenta. Era a mulher que eu amei com cada fibra do meu ser, a mesma que me apunhalou pelas costas para se deitar com o meu irmão. Olhar para ela era como olhar para a cicatriz de uma queimadura que ainda insistia em latejar. Coloquei as mãos nos bolsos, recusando-me a estender a mão ou oferecer qualquer gesto de cortesia. Não queria que ela percebesse que eu não usava aliança. O constrangimento dela era visível, uma sombra de desconforto que atravessou seu rosto perfeito, mas eu pouco me importava com sua sensibilidade. — E então? Você... está bem? — Ela hesitou, os olhos buscando os meus com uma curiosidade invasiva. — Casou? A pergunta me pegou de surpresa, um golpe baixo que eu não esperava receber em um saguão de empresa. Por um microssegundo, o vazio da minha vida pessoal pareceu uma vulnerabilidade exposta. Eu não ficaria por baixo. Não para ela. Jamais para os Sampaio. — Sim. Estou casado — menti com uma convicção gélida, a imagem de uma mulher inexistente servindo como meu novo colete à prova de balas. — Agora, com licença. Estou atrasado para uma reunião. Nos vemos por aí. Virei as costas, deixando-a de boca aberta, sem a atenção ou o drama que ela provavelmente esperava colher de mim. Caminhei em direção aos elevadores com passos firmes, sentindo o suor frio brotar na nuca. Eu não podia permitir que ela percebesse o quanto aquele encontro fortuito me abalou. Eu precisava de um plano, de controle e de poder. Rômulo Paiva já nos aguardava. Ele tem uma dívida gigantesca conosco e estamos aqui para negociarmos. — Senhores, sejam bem-vindos. Por favor, sentem-se — disse ele, a voz vacilante. — Obrigado, Rômulo. Sabe o que nos trouxe aqui, não sabe? — Dário foi direto. — Bem... eu creio que podemos negociar... os mercados estão instáveis... eu só preciso de um pouco mais de prazo... — Não há mais prazo — interrompi, minha voz cortando o ar como uma guilhotina. O silêncio foi sepulcral. — Quem é o senhor? — Rômulo perguntou, limpando o suor da testa com um lenço de linho caro. — Este é Guilherme Sampaio, CEO da Blackwood — apresentou Dário. — Ele veio pessoalmente encerrar este assunto. Rômulo mudou de cor. Ele sabia quem eu era. Sabia que a Blackwood era onde as esperanças morriam. Meus olhos vagaram pelo escritório enquanto ele balbuciava. Vi fotos sobre a mesa. Fotos de uma família perfeita. — Sr. Guilherme... me dê noventa dias. Só noventa dias e eu resolvo tudo — implorou Rômulo. — O que você fez com o investimento de cinquenta milhões que conseguiu conosco? — questionei, frio. — Eu... precisei usar para... outros fins. A economia... — Você queimou capital de giro para sustentar luxos, Rômulo. Apontei para a foto do iate nas Malvinas. — Vejo que sua família gosta de usufruir do que não tem — comentei, voltando meu olhar para outras fotos na estante. O desespero dele era palpável. Ele venderia a própria alma para manter o status de milionário falido. Olhei novamente para a fotografia em sua mesa e percebi que a filha dele seria uma boa opção de companhia para o evento da minha família. E a solução para a mentira que acabei de contar para a Lívia. Uma ideia distorcida tomou forma. Eu não queria laços afetivos com ninguém, tampouco poderia oferecer amor a qualquer mulher. Não confiava mais nelas. Eu precisava de uma esposa. Essa negociação poderia me render uma parceira, sem o vínculo emocional. Eu detinha o controle através de um contrato de casamento. — Há uma maneira de não executarmos a dívida nesse momento — anunciei, levantando-me lentamente. — Me diga o que for! Eu faço qualquer coisa! — Rômulo exclamou, quase caindo da cadeira. — Quero que me dê sua filha em casamento. — Apontei para a foto onde ele estava com a esposa e a filha. — Ela seria a esposa perfeita pra mim. Por dois anos. O silêncio foi absoluto. Dário me encarou em choque. Ele devia achar que eu tinha enlouquecido. — Como? Casar-se com minha filha? — Rômulo gaguejou. — Sim. Quero uma esposa. Alguém com nome conhecido na sociedade, mas que eu possa controlar. Um contrato de dois anos. Fiquei de pé, caminhei até a porta, mas parei e olhei por cima do ombro, fixando o olhar no homem espantado com o que ouviu. — Você tem cinco dias. Quero um casamento sem festas. Apenas o contrato. — Com esse acordo, a Blackwood dará uma moratória de vinte e quatro meses. Minha voz ficou ainda mais sombria, carregada de uma promessa de destruição. — Caso contrário, eu executo a dívida. E se aceitar e não pagar o que deve, fico com tudo e devolvo sua filha sem nada. Saí da sala sem olhar para trás. Eu sabia que ele aceitaria. Sabia que essa gente não renunciaria ao conforto. Eles venderiam até a alma. — O que foi aquilo, Guilherme? — Dário explodiu no carro. — Por que envolver uma garota nisso? E por que foi mentir para a Lívia que está casado? Ficou louco? — Eu preciso de alguém que minha família respeite pelo sobrenome, mas que me pertença por meios legais. Um casamento por contrato me dará tudo o que é necessário. Eu não estava apenas comprando uma esposa. Estava comprando uma oportunidade de humilhar a Lívia. A mulher que me traiu e me humilhou como se eu fosse um nada. Eu não iria me apresentar sozinho. A Lívia não teria o prazer de ainda me ver quebrado pela traição. Muito menos o covarde do meu irmão. Eu prosperei no mundo dos negócios, mas nunca consegui me livrar da dor e amargura da traição dela e da minha família. — O plano está em curso — murmurei para mim mesmo agora, olhando o horizonte cinza de São Paulo. Minha família podia pensar que eu voltaria para pedir perdão por tê-los deixado a própria sorte. Abandonei a Sampaio Engenharia nas mãos do meu pai, que já nem ia lá por saber eu dava conta de tudo. Eles não fazem ideia de que eu voltei para ser o carrasco. Vou tomar a empresa deles. Vou deixar meu pai na miséria. E vou mostrar a Lívia quem é o homem que ela desprezou e enganou. Quanto a filha dos Paiva? Ela seria o preço colateral da minha guerra. A peça que faltava no meu jogo de ódio.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD