Guilherme Sampaio
— Guilherme! Quanto tempo! — A voz dela me atingiu como um estilhaço de vidro.
Lívia Ferreira estava saindo do elevador, acompanhada de duas pessoas que eu não fazia ideia de quem fossem e me importava ainda menos.
Ela parou, os olhos arregalados, a mesma expressão de falsa inocência que um dia me fez acreditar em contos de fadas.
— Lívia... — fui seco, monossilábico. Minha voz saiu como o estalar de um chicote.
— Nossa! Quando você chegou ao Brasil? A Soraia não me falou que você estava aqui.
— Minha mãe ainda não sabe que cheguei — respondi, mantendo a face impassível enquanto meu interior se transformava em um campo de batalha.
Vê-la ali, tão perto, trouxe o gosto amargo do passado de volta. O perfume dela ainda era o mesmo, o que me causou uma náusea violenta.
Era a mulher que eu amei com cada fibra do meu ser, a mesma que me apunhalou pelas costas para se deitar com o meu irmão.
Olhar para ela era como olhar para a cicatriz de uma queimadura que ainda insistia em latejar.
Coloquei as mãos nos bolsos, recusando-me a estender a mão ou oferecer qualquer gesto de cortesia. Não queria que ela percebesse que eu não usava aliança.
O constrangimento dela era visível, uma sombra de desconforto que atravessou seu rosto perfeito, mas eu pouco me importava com sua sensibilidade.
— E então? Você... está bem? — Ela hesitou, os olhos buscando os meus com uma curiosidade invasiva. — Casou?
A pergunta me pegou de surpresa, um golpe baixo que eu não esperava receber em um saguão de empresa. Por um microssegundo, o vazio da minha vida pessoal pareceu uma vulnerabilidade exposta. Eu não ficaria por baixo. Não para ela. Jamais para os Sampaio.
— Sim. Estou casado — menti com uma convicção gélida, a imagem de uma mulher inexistente servindo como meu novo colete à prova de balas. — Agora, com licença. Estou atrasado para uma reunião. Nos vemos por aí.
Virei as costas, deixando-a de boca aberta, sem a atenção ou o drama que ela provavelmente esperava colher de mim. Caminhei em direção aos elevadores com passos firmes, sentindo o suor frio brotar na nuca.
Eu não podia permitir que ela percebesse o quanto aquele encontro fortuito me abalou. Eu precisava de um plano, de controle e de poder.
Rômulo Paiva já nos aguardava. Ele tem uma dívida gigantesca conosco e estamos aqui para negociarmos.
— Senhores, sejam bem-vindos. Por favor, sentem-se — disse ele, a voz vacilante.
— Obrigado, Rômulo. Sabe o que nos trouxe aqui, não sabe? — Dário foi direto.
— Bem... eu creio que podemos negociar... os mercados estão instáveis... eu só preciso de um pouco mais de prazo...
— Não há mais prazo — interrompi, minha voz cortando o ar como uma guilhotina. O silêncio foi sepulcral.
— Quem é o senhor? — Rômulo perguntou, limpando o suor da testa com um lenço de linho caro.
— Este é Guilherme Sampaio, CEO da Blackwood — apresentou Dário. — Ele veio pessoalmente encerrar este assunto.
Rômulo mudou de cor. Ele sabia quem eu era. Sabia que a Blackwood era onde as esperanças morriam.
Meus olhos vagaram pelo escritório enquanto ele balbuciava. Vi fotos sobre a mesa. Fotos de uma família perfeita.
— Sr. Guilherme... me dê noventa dias. Só noventa dias e eu resolvo tudo — implorou Rômulo.
— O que você fez com o investimento de cinquenta milhões que conseguiu conosco? — questionei, frio.
— Eu... precisei usar para... outros fins. A economia...
— Você queimou capital de giro para sustentar luxos, Rômulo.
Apontei para a foto do iate nas Malvinas.
— Vejo que sua família gosta de usufruir do que não tem — comentei, voltando meu olhar para outras fotos na estante.
O desespero dele era palpável. Ele venderia a própria alma para manter o status de milionário falido.
Olhei novamente para a fotografia em sua mesa e percebi que a filha dele seria uma boa opção de companhia para o evento da minha família. E a solução para a mentira que acabei de contar para a Lívia.
Uma ideia distorcida tomou forma. Eu não queria laços afetivos com ninguém, tampouco poderia oferecer amor a qualquer mulher. Não confiava mais nelas.
Eu precisava de uma esposa. Essa negociação poderia me render uma parceira, sem o vínculo emocional. Eu detinha o controle através de um contrato de casamento.
— Há uma maneira de não executarmos a dívida nesse momento — anunciei, levantando-me lentamente.
— Me diga o que for! Eu faço qualquer coisa! — Rômulo exclamou, quase caindo da cadeira.
— Quero que me dê sua filha em casamento. — Apontei para a foto onde ele estava com a esposa e a filha. — Ela seria a esposa perfeita pra mim. Por dois anos.
O silêncio foi absoluto. Dário me encarou em choque. Ele devia achar que eu tinha enlouquecido.
— Como? Casar-se com minha filha? — Rômulo gaguejou.
— Sim. Quero uma esposa. Alguém com nome conhecido na sociedade, mas que eu possa controlar. Um contrato de dois anos.
Fiquei de pé, caminhei até a porta, mas parei e olhei por cima do ombro, fixando o olhar no homem espantado com o que ouviu.
— Você tem cinco dias. Quero um casamento sem festas. Apenas o contrato.
— Com esse acordo, a Blackwood dará uma moratória de vinte e quatro meses.
Minha voz ficou ainda mais sombria, carregada de uma promessa de destruição.
— Caso contrário, eu executo a dívida. E se aceitar e não pagar o que deve, fico com tudo e devolvo sua filha sem nada.
Saí da sala sem olhar para trás. Eu sabia que ele aceitaria. Sabia que essa gente não renunciaria ao conforto. Eles venderiam até a alma.
— O que foi aquilo, Guilherme? — Dário explodiu no carro. — Por que envolver uma garota nisso? E por que foi mentir para a Lívia que está casado? Ficou louco?
— Eu preciso de alguém que minha família respeite pelo sobrenome, mas que me pertença por meios legais. Um casamento por contrato me dará tudo o que é necessário.
Eu não estava apenas comprando uma esposa. Estava comprando uma oportunidade de humilhar a Lívia. A mulher que me traiu e me humilhou como se eu fosse um nada.
Eu não iria me apresentar sozinho. A Lívia não teria o prazer de ainda me ver quebrado pela traição. Muito menos o covarde do meu irmão.
Eu prosperei no mundo dos negócios, mas nunca consegui me livrar da dor e amargura da traição dela e da minha família.
— O plano está em curso — murmurei para mim mesmo agora, olhando o horizonte cinza de São Paulo.
Minha família podia pensar que eu voltaria para pedir perdão por tê-los deixado a própria sorte. Abandonei a Sampaio Engenharia nas mãos do meu pai, que já nem ia lá por saber eu dava conta de tudo. Eles não fazem ideia de que eu voltei para ser o carrasco.
Vou tomar a empresa deles. Vou deixar meu pai na miséria. E vou mostrar a Lívia quem é o homem que ela desprezou e enganou.
Quanto a filha dos Paiva? Ela seria o preço colateral da minha guerra. A peça que faltava no meu jogo de ódio.