Primeiro Capítulo

1209 Words
Amor verdadeiro não existe. Passei anos imaginando que existisse. Na verdade, achei que tivesse encontrado. Quatro vezes, para ser mais exata. Vejamos: Taylor. Meu namorado do colégio. Ficamos juntos durante todo o ensino médio. Ele era a estrela do time de beisebol. O melhor que a escola já teve. Grande, tinha mais músculos que cérebro e o pinto do tamanho de um amendoim com casca. Provavelmente graças aos esteroides que tomava escondido de mim. Ele me abandonou na noite da formatura. Fugiu com a minha virgindade e a chefe das líderes de torcida. Ouvi dizer que ele largou a faculdade e está trabalhando como mecânico em uma cidadezinha sem nome, com dois filhos e uma mulher que não torce mais por ele. Depois, teve o assistente do professor na minha turma de introdução à psicologia na Faculdade Comunitária de Las Vegas. Seu nome era Maxwell. Eu achava que ele era o cara. Acontece que ele sapateou em cima do meu coração, porque pegava uma garota de cada turma em que era assistente. Na verdade, ele prestava assistência a peitos e bundas, e sempre tinha muitos deles à disposição. Tudo bem. Ele acabou engravidando duas meninas na mesma época e foi expulso da faculdade por má conduta. Aos dezenove anos, já tinha duas mães na sua cola, exigindo que ele pagasse pensão. Pensando bem, havia algo muito poético nisso. Graças a Deus, sempre exigi que ele usasse camisinha comigo. Aos vinte, dei um tempo. Passei o ano todo servindo mesas no MGM Grand, na Las Vegas Strip. Foi aí que conheci o afortunado número três, Benny. Só que nem eu nem ele tivemos sorte. Ele contava cartas no pôquer. Na época, dizia que era da área de vendas, rodava os cassinos e adorava jogar. Tivemos um romance que nem foi tão romântico assim. Acho que passei a maior parte do tempo bêbada e debaixo dele, mas, infelizmente, acreditei que ele me amava, já que me dizia isso o tempo todo. Durante dois meses, nós bebemos, nadamos na piscina do hotel e transamos a noite toda em um dos quartos que eu conseguia arrumar com um amigo que trabalhava na limpeza. Eu servia bebidas de graça para esse cara e os amigos dele e, em troca, ele me dava a chave de um quarto na maioria das noites. Funcionava. Até o dia em que não funcionou mais. Benny foi pego contando cartas e desapareceu. No primeiro ano de seu desaparecimento, fiquei desesperada. Então descobri que ele tinha sido espancado quase até a morte. Ele passou um bom tempo no hospital e depois se mandou da cidade, me deixando para trás sem uma palavra. O último erro foi o que podemos chamar de a gota-d’água. É o motivo pelo qual eu acredito que o amor verdadeiro é uma coisa criada pelas empresas que vendem cartões e por pessoas que escrevem livros sentimentais e roteiros de comédia romântica. Ele se chamava Blaine, mas seu nome deveria ser Lúcifer. Era um executivo de fala mansa. “Executivo” é bondade minha. Na verdade, ele era um agiota. O mesmo que emprestou ao meu pai mais dinheiro do que ele poderia pagar. Primeiro ele mirou em mim, depois no meu pai. Naquela época, eu achava que o nosso amor era de contos de fadas. Blaine me prometeu o mundo e me deu o inferno na Terra. — É por isso que eu acho que você deve pegar o emprego que a sua tia ofereceu e ver o que acontece. — Minha melhor amiga, Ginelle, mascou seu chiclete de um jeito barulhento do outro lado da linha. Afastei um pouco o telefone da orelha. — É a única solução. De que outra maneira você vai conseguir livrar o seu pai do Blaine e dos capangas dele? Dei um gole na água fresca, enquanto o sol da Califórnia dividia as gotas em fragmentos de luz salpicados na garrafa. — Não sei o que fazer, Gin. Não tenho essa grana toda. Não tenho grana nenhuma. — Suspirei, de um jeito alto e dramático demais até para os meus ouvidos. — Olha, você sempre curtiu se apaixonar... — Não mais! — lembrei à minha melhor amiga de toda a vida. Eu podia ouvir o barulho de Vegas pelo telefone. As pessoas acham que o deserto é um lugar tranquilo. Não na Strip. Máquinas caça-níquel tilintavam e campainhas soavam constantemente em qualquer lugar em que você estivesse. Não dava para escapar. — Eu sei, eu sei. — Ela mexeu no telefone, fazendo-o estalar no meu ouvido. — Mas você gosta de sexo, não é? — Eu não sou uma Barbie, Gin. Por favor, não me faça perguntas idiotas. Estou em uma situação complicada aqui. — Ou melhor, se eu não encontrar um jeito de conseguir um milhão de dólares, meu pai é que estará. Ginelle gemeu e mascou seu chiclete. — O que eu quero dizer é que, se você pegar o trabalho de acompanhante, só vai precisar estar sempre bonita e transar muito. Você não fica com ninguém há meses. Poderia muito bem aproveitar a chance, né? Ginelle era a única pessoa capaz de transformar um trabalho de garota de programa — muito bem pago — no emprego dos sonhos. — Não estamos no filme Uma linda mulher, e eu não sou a Julia Roberts. Caminhei até minha moto — uma Suzuki GSX-R600 que apelidei de Suzi. Era a única coisa de valor que eu tinha. Passei a perna sobre o banco e coloquei o telefone no viva-voz. Separei meu cabelo, grosso e pesado, em três partes e fiz uma trança. — Olha, eu sei que você tem boas intenções, mas, sinceramente, não sei o que vou fazer. Não sou uma prostituta. Pelo menos não quero ser. — O simples pensamento fazia meu peito estremecer de pavor. — Mas tenho que pensar em alguma coisa. Preciso ganhar muito dinheiro, e rápido. — Sim, eu sei. Depois me conta como foi o encontro na Exquisite Acompanhantes de Luxo. Se puder, me ligue à noite. Merda, estou atrasada para o ensaio e ainda tenho que me vestir. — Sua voz soava entrecortada e eu podia imaginá-la correndo pelo cassino para chegar ao trabalho, o telefone colado ao ouvido, sem dar a mínima para quem a observava ou achava que ela era louca. Era isso o que a tornava tão especial. Ela falava as coisas do jeito que eram... sempre. Assim como eu. Ginelle trabalhava no show burlesco Dainty Dolls, em Vegas. Assim como o nome do espetáculo, minha melhor amiga era pequena e meiga, e sabia exatamente a melhor forma de balançar o traseiro. Homens do mundo todo vinham assistir ao show sensual na Strip. Mesmo assim, ela não ganhava o suficiente para emprestar a mim ou ao meu velho. Não que eu tenha pedido. — Tá bom. Te amo, sua vaca — falei docemente, enquanto enfiava minha trança dentro da jaqueta de couro, para que ela caísse entre as omoplatas. — Te amo mais, vadia. Virei a chave no contato, acelerei e abaixei a viseira do capacete. Enquanto guardava o telefone no bolso interno da jaqueta, coloquei o pé no pedal e saí em alta velocidade, em direção a um futuro que eu não queria, mas não tinha como evitar.
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