Camilla
Depois de comer bastante estou deitada em minha cama, no meu novo quarto, olhando pro teto, está indo tudo tão bem, é fácil conviver com meu pai, ele se parece muito comigo, e acredito que não vai tentar me prender ou me reprovar quando eu quiser sair e conhecer novas pessoas..
Conhecer. Novas. Pessoas.
Isso parece tão difícil, pra mim..
Não demoro muito tempo a adormecer, o cansaço logo toma conta do meu corpo, e consigo m***r todo o sono que reprimi de dia, causado pela insônia de ontem..
..
Desperto com o celular vibrando embaixo do travesseiro, e ainda sem enxergar muito bem deslizo o dedo atendendo, só minha mãe pra me ligar uma hora dessas..
-Alô? - Falo sonolenta.
- Oi filha ainda está dormindo a uma hora dessas? O que fez tanto ontem? - Ela pergunta, mas sem me deixar tempo de responder começa falando mais coisas..
Tiro o celular do ouvido e olho pra tela me assustando quando vejo o horário em que acordei, já passa do meio dia, mas o quarto está escuro e a temperatura fria é a mesma de ontem a noite, levanto esfregando os olhos enquanto escuto minha mãe contando suas novidades e repetindo pela milésima vez que está com saudades, eu já sentia saudades dela enquanto morava lá, depois do meu padrasto ir morar com a gente, pois sempre era muito difícil termos um tempo sozinhas..
Ela se despede e então desligo, arrumo a cama e vou ao banheiro escovar os dentes;
Abro a janela do quarto para clarear o ambiente e então vejo o quanto são grandes os vidros de blindex escuro , onde eu passaria com facilidade, caso precisasse, a janela vai de encontro a uma área da garagem, o problema maior seria o portão, espero não precisar sair assim escondida, odeio mentir, na verdade eu sou uma péssima mentirosa, então provavelmente meu pai descobriria uma possível fuga..
Saio do quarto ainda de pijama e vou direto pra geladeira, vejo que a geladeira está bem preenchida, meu pai deve ter ido ao supermercado, e em cima da mesa encontro um bilhete..
Não quis te acordar, imaginei que estivesse cansada, estou na oficina boneca
Demoro um pouco a entender a caligrafia do meu pai, mas consigo ler o bilhete.. Acho lindo o jeito que ele me chama desde pequena..
Depois de um grande café da manhã decido trocar de roupa e ir procurar a tal oficina que meu pai trabalha, não deve ser muito longe, aqui parece tudo ser perto..
Coloco uma bermuda jeans e uma regata preta, pego meu celular e um casaco pra garantir, não está muito frio, mas não conheço o clima da cidade e parece que qualquer momento pode chover..
Passo pela rua de casas bonitas e percebo que elas devem estar ali a muitas décadas, algumas tem modificações mais modernas, outras parecem sair do século XX, e como se para contradizer, carros caros da atualidade passam por mim...
Chegando ao grande comércio sinto meu rosto esquentar, alguns pares de olhos se demoram em mim, não acredito que essa cidade é pequena ao ponto de saberem quem é novo aqui, paro em um grande supermercado e compro um refrigerante, assim tenho oportunidade de perguntar a atendente onde fica a oficina..
Ela me fala a direção e não demoro muito a encontrar, de longe vejo meu pai com um macacão sujo de graxa, aceno pra ele, e vejo que ele parece surpreso a me ver.
- Me desculpe filha, você deve ter ficado entediada né?- ele me pergunta passando as mãos no macacão..
- Não pai, só quis sair pra dar uma volta e conhecer mais a cidade.. - devolvo o sorriso a ele..
- Venha vou te apresentar a meus colegas..
Acompanho ele para dentro da grande oficina, percebo que tem vários carros de luxo, na parte de dentro tudo parece ser bem sofisticado.. - Manoel essa é minha filha Camilla.- Meu pai me tira de meus devaneios, falando orgulhoso enquanto estende a mão a um senhor moreno, de cabelos grisalhos que usa o mesmo uniforme que ele e tem um sorriso bastante simpático..
- Muito prazer! - Falo sorrindo e estendo minha mão a ele..
- Você me desculpa moça bonita, mas se eu pegar na sua mão vou te deixar bem suja. - Ele fala e então todos riem..
- Tudo bem! - Falo sorrindo.
Ele me conduz mais a frente e então aponta a um rapaz.- Filha esse aqui é o Zeca, e aquele o Luiz.- Aceno para os dois achando o tal Zeca bem gatinho.
- E essa é a Malu, ela é a secretária daqui, e faz um café maravilhoso. - ele fala enquanto nos aproximamos de um balcão cheio de telefones e atrás de um computador está uma menina, ela sai de trás da mesa e então a vejo melhor, ela é loira e baixinha, seu rosto é fino e seu corpo é muito bonito.
- Oi Milla!!- ela se agarra em meu pescoço e sem me conter a abraço também.
Não sei como ela sabe meu nome, muito menos meu apelido, mas fico muito feliz por sua empolgação, por ser tímida é muito difícil a aproximação com outra pessoa, mas quando é alguém assim como ela, consigo me soltar mais e fica muito mais fácil.
- Oi Malu! - Falo sorrindo meio desajeitada.
- Finalmente te conheci!, o chefe aqui fala muito de você! - ela fala voltando pra trás da mesa. - Você aceita um café? Ou melhor uma água?- ela tagarela enquanto eu me sento em um banquinho em frente o balcão..
- Ah não, obrigada!- Falo sorrindo.
Meu pai volta a trabalhar me deixando sozinha com ela..
- Ouvi você dizer que veio conhecer um pouco mais da cidade.. - ela fala mexendo em alguns papéis e fico tentando descobrir sua idade por sua aparência.. - Eu sou uma ótima guia, melhores festas, praças, os rios, conheço tudo, afinal moro aqui desde que nasci.- Ela sorri descontraída.
- Vou adorar conhecer tudo Malu, mas primeiro queria conhecer a universidade e também gostaria de procurar um trabalho.. - Eu ia começar a tagarelar, pois já me sentia bastante a v*****e com ela, seu sorriso é acolhedor, e ela me lembra muito minha amiga Jessica..
- Eu posso te apresentar a universidade!- ela fala animada.- Faço administração lá.. E trabalho, bom, posso ver onde está precisando, e te ajudar a entregar alguns currículos.
Meu sorriso vai de um canto ao outro, estou muito feliz com a hospitalidade da garota simpática em minha frente, estava evitando pensar em como seria difícil ficar sem companhia aqui, gosto de estar com meu pai, mas ele tem o trabalho dele, e não entenderia muito sobre assuntos de mulher..
Conversamos sobre diversos assuntos, Malu é uma pessoa com conversas fáceis, com seu jeito meigo me conquistou facilmente, descobri que ela já tem vinte anos e mora com seus avós, descobri também que a cidade é cheia de cachoeiras e rios, prometeu me levar em uma gruta linda que fica perto da cidade, só não fiquei muito feliz com o fato de que para chegar até ela, teremos que fazer uma pequena trilha, fiquei bastante interessada nas festas e nas praças espalhadas pela cidade..
Sem perceber o tempo passar meu pai se aproxima avisando o fim de expediente..
Troco número de telefone com a Malu e combinamos de ir até a praça do centro mais tarde para conversarmos mais..
Entro no carro muito contente, e meu pai logo percebe minha alegria..
-Fico feliz que esteja fazendo amizade Camilla.. -Ele fala enquanto dirije pra casa.- Agora que o sr Filipe me promoveu na oficina, estou com o dobro de responsabilidades, e não vou ter muito tempo também.. - ele fala sem jeito.- Malu é uma menina ótima, trabalhadora..
- Pai!- falo interrompendo ele.. - Falando em trabalho, o senhor não seria contra eu conseguir um também não é? - Espero em silêncio mas ele não me diz nada. - Eu quero trabalhar, mas não deixaria atrapalhar minhas obrigações na faculdade..
- Filha, seu pai não é rico, mas não vou te deixar faltar nada, você não precisa trabalhar .. - Ele fala sério.
- Eu sei pai, mas eu quero, e se não conseguir a bolsa integral terei que pagar.... - Falo com uma voz segura, tentando parecer convincente..
Ele então sorri. - Do mesmo jeito que eu quando tinha sua idade.. Tudo bem.. - Ele concorda.
Sorrio feliz, não convivia muito com meu pai na minha infância, eles se separaram enquanto minha mãe estava grávida, na verdade nunca nem namoraram, eu fui um acidente, mas meu pai nunca deixou de cuidar de mim, mesmo a distância, pois ele se mudou pra essa cidade e ia para lá me ver, não entendo porque ele não se casou novamente, é novo, e é um gato..
Chegamos em casa e enquanto meu pai toma banho, resolvo fazer um jantar, não sou muito boa na cozinha mas aprendi um arroz, feijão e bife.
Depois de jantar tomo um banho e me arrumo, dou um beijo em meu pai e saio de casa, enviando uma mensagem a Malu, dizendo que estou indo ao seu encontro, mais uma vez ando observando as casas e seus mistérios, a cada hora que passo por aqui, vejo algo diferente, é como se todas pertencessem ao história do lugar, umas a outras..
Andando descontraída observando a rua vejo uma camionete parada em frente a uma casa grande, talvez a maior da rua, assim que ultrapasso o carro vejo um homem saindo de dentro com uma mochila preta nas costas, ele anda apressadamente e então vejo algo pesado caindo do bolso aberto da mochila, faz um pequeno barulho ao cair, o portão eletrônico começa a se fechar então..
-EI! - Grito indo em direção ao objeto. - Você deixou cair.. - Paraliso em choque olhando pra uma a**a grande, não faço a mínima de qual seja, olho para o banco de trás pela porta que ele deixou aberta, e vejo outra a**a, prateada e reluzente.
O barulho do portão me desperta, e consigo me virar tropeçando dali.
Pode ser que ele seja policial, mas se não for, não quero descobrir.