Pantera narrando A moto roncava de um jeito gostoso, descendo o Cruzeiro como se fosse extensão do meu corpo. O vento batia na cara e, pela primeira vez no dia, eu ri. Ri alto mesmo. Daqueles risos que tu solta quando entende que o inimigo tá jogando com tabuleiro errado. O Ciro acha que vai fechar o morro por fome? Achar que vai travar rua, trânsito, polícia, e que isso vai mexer comigo? Papo de quem esqueceu de onde saiu. Aqui não é escritório com ar-condicionado. Aqui é vivo. Aqui pulsa. Aqui se adapta. Passei pelos beco e a rapaziada olhou, acenou. Nem clima de medo tinha. O que tinha era postura. Morro firme. Gente que sabe quem tá com quem. E quem manda aqui não é o que tem arma nova, é o que tem raiz. Parei a moto perto da laje do Seu Bené, tirei o capacete e ri de novo. — Ciro

