continuação....
Predador
A noite não seria das melhores, eu fiquei horas acordado sentado na varanda do meu quarto olhando o morro, vendo as luzes acesas nas casas, ouvindo o barulho distante de moto subindo, música tocando longe, gente conversando alto como sempre acontece. O morro nunca dorme de verdade, sempre tem alguém acordado, sempre tem alguma coisa acontecendo, e eu já me acostumei com isso faz tempo. Mas naquela noite minha cabeça não estava em paz, porque a imagem daquela garota chorando dentro do carro não saía da minha cabeça, e isso me irritava, porque eu não sou homem de ficar pensando nessas coisas.
Eu me levantei da cadeira e andei até a beirada da varanda, apoiando as mãos no parapeito e olhando lá para baixo, tentando organizar meus pensamentos. Foi então que eu percebi que a janela do quarto onde a garota estava estava entreaberta, a luz apagada, mas dava para ver que ela também não estava dormindo, porque de vez em quando uma sombra passava pelo quarto. Aquilo ficou na minha cabeça, junto com o que o F2 e o VK tinham falado mais cedo, principalmente o F2, que disse que trazer gente para dentro de casa sempre dá problema. Ele não falou desrespeitando, ele falou como amigo, como irmão, e eu sei que ele só quer o meu bem, mas mesmo assim eu não gosto quando parece que estão duvidando das minhas decisões.
Eu tirei um fino do bolso, acendi e dei um trago longo, segurei a fumaça por alguns segundos e depois soltei devagar olhando para o morro, vendo a fumaça se espalhar no ar da noite. Fiquei ali fumando e pensando na vida, pensando em como eu cheguei até ali, pensando que todo dia eu tenho que decidir coisas que mudam a vida das pessoas, às vezes para melhor, às vezes para pior, e não tem como agradar todo mundo, não tem como ser bom nesse mundo que eu vivo.
Meu celular vibrou em cima da mesa e me tirou dos pensamentos. Quando eu peguei e olhei, era uma mensagem da Stephany. Eu já sabia mais ou menos o que era, porque ela sempre aparecia de noite, sempre com o mesmo tipo de conversa. Quando eu abri, era uma foto dela pelada e uma legenda dizendo que estava me esperando, cheia de emoji de diabinho e coração. Eu fiquei olhando a tela alguns segundos sem expressão nenhuma, depois apenas bloqueei o celular e deixei ele de lado. Eu não estava com cabeça para aquilo, para falar a verdade fazia tempo que eu não estava com cabeça para mulher nenhuma, minha vida sempre foi trabalho, problema, dinheiro, arma, responsabilidade, gente dependendo de mim, guerra para evitar, guerra para enfrentar, e no meio disso tudo sobra pouco espaço para qualquer outra coisa.
Fiquei mais um bom tempo ali na varanda, pensando, olhando a noite passar devagar, até que senti o cansaço bater de verdade. Eu entrei para o quarto, fechei a porta atrás de mim e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro no gelado mesmo, porque às vezes água gelada ajuda a colocar as ideias no lugar, ajuda a acordar a mente, ajuda a lembrar que amanhã sempre terá mais problemas para resolver. A água gelada caiu sobre a minha cabeça e desceu pelo corpo, e eu fiquei ali alguns minutos parado, só pensando que o dia seguinte não seria fácil, como nunca foi, porque quem manda nunca tem dia fácil.
Quando terminei o banho, desliguei o chuveiro, peguei a toalha e me enrolei nela, fui até o closet, peguei uma cueca e vesti. Voltei para o quarto, liguei o ar-condicionado e me deitei na cama, olhando para o teto escuro. A casa estava silenciosa, o morro lá fora ainda tinha barulho, mas ali dentro estava tudo quieto. Eu cruzei os braços atrás da cabeça e fiquei pensando em tudo que ainda tinha para resolver, em tudo que ainda podia dar errado, e sem perceber acabei pensando de novo na garota que estava dormindo no quarto do outro lado do corredor.
Eu virei o rosto para o lado, fechei os olhos e falei baixo, quase como se estivesse falando comigo mesmo:
— Amanhã será um outro dia, Renan.
E naquele momento eu sabia que seria mesmo, porque depois que aquela garota entrou na minha casa, alguma coisa tinha mudado, e eu só ainda não sabia exatamente o quê seria só fechei os olhos e apaguei.
Acordei com o cantar do g**o ecoando pelo morro, aquele som que sempre aparece antes do sol e que para muita gente é só mais um barulho, mas para quem vive aqui em cima é praticamente um relógio natural dizendo que mais um dia começou. Abri os olhos devagar, ainda deitado, olhando para o teto por alguns segundos enquanto minha cabeça começava a funcionar e lembrar de tudo que eu tinha para resolver naquele dia. Eu nunca acordo sem ter problema para resolver, decisão para tomar ou dinheiro para cobrar ou gente pra matar, essa é a vida de quem está na posição que eu estou, não existe descanso de verdade, existe só intervalo entre um problema e outro.
Levantei da cama, passei a mão no rosto e fui direto para o banheiro ainda meio sonolento. Entrei e fui logo mijar, aquele alívio de começo de manhã que parece que acorda o corpo de vez. Depois tirei a cueca, joguei no cesto de roupa e entrei no box, liguei o chuveiro e deixei a água cair sobre mim enquanto eu ainda tentava organizar meus pensamentos. Eu sempre penso melhor debaixo do chuveiro, talvez porque ali ninguém me chama, ninguém bate na porta, ninguém pede decisão, ninguém pede dinheiro, ninguém pede ordem, é um dos poucos momentos do dia que eu fico sozinho comigo mesmo.
Peguei a escova de dente que ficava ali mesmo e escovei os dentes debaixo do chuveiro, costume antigo que eu nunca perdi, depois passei a mão no rosto, lavei o cabelo, fiquei mais um pouco debaixo da água deixando ela cair nas costas, pensando na vida, pensando no morro, pensando nos problemas e, sem querer, pensando na garota que agora estava dormindo no quarto do outro lado do corredor. Balancei a cabeça como se quisesse afastar aquele pensamento, porque eu não podia começar a misturar as coisas, e terminei o banho.