Eleonor
Eu pude ver o sol nascer diante dos meus olhos, mas aquilo não teve nada de bonito como as pessoas costumam falar, porque a noite para mim não tinha sido de descanso, tinha sido de lembranças, medo e uma dor que eu ainda não sabia explicar direito, uma dor que não era no corpo, era por dentro, como se alguma coisa tivesse sido arrancada de mim e eu ainda estivesse tentando entender o que era. Eu não dormi nada, fiquei deitada naquela cama enorme olhando para o teto, toda vez que eu fechava os olhos vinha a imagem da minha mãe apontando para mim e falando para ele.
— Pode levar ela, é até bonita mas é gorda e é virgem.
Me levar, como se eu fosse um objeto velho dentro de casa que já não tinha utilidade, e aquilo voltava na minha cabeça sem parar, como um filme repetindo a mesma cena o tempo todo. Eu chorei tudo que tinha para chorar, chegou uma hora que não tinha mais lágrima, mas a dor continuava ali, pesada, parada dentro do peito.
Quando a claridade começou a entrar pela janela eu desisti de tentar dormir, levantei devagar, senti o chão gelado nos pés e por um momento fiquei parada olhando aquele quarto enorme, aquela casa que parecia coisa de gente rica de novela, e eu ali dentro sem saber o que ia ser da minha vida a partir de agora.
— Não adianta ficar se alimentando,esta angústia, Eleonor porque esta agora era a minha mais nova realidade.
Fui até a minha mochila , abrir zíper , procurei algum pra mim vestir não tinha muito mais era o que tinha então peguei um short jeans e uma regata simples um conjunto de calcinha e sutiã e fui para o banheiro tomar banho, porque o dia estava começando e eu sabia que querendo ou não eu teria que enfrentar aquilo tudo.
— Vamos lá Eleonor, isso não é um bicho de ste cabeça, você sempre enfrentou os leões que vinha este só mais um que você vai ter que enfrentar.
Tirei meu pijama, deixei dobrado em cima da bancada , entrei no box , liguei o chuveiro e deixei a água morna cair no meu corpo, tentei relaxar mais não estava conseguindo era muita tenção , finalizei o banho abrir o box peguei a toalha macia enrolei no meu corpo
comecei a me secar devagar, vesti a calcinha, o sutiã, depois o short jeans e a regata. Em cima da pia tinha uma escova de dente nova e uma pasta, fiquei olhando aquilo alguns segundos e depois usei, escovei os dentes devagar me olhando no espelho, e eu quase não me reconheci, meus olhos estavam inchados de tanto chorar, meu rosto estava cansado, parecia que eu tinha envelhecido anos em uma única noite.
— Nossa, como estou m*l to com cara de uma vela enrugada. – fiquei um tempo olhando no espelho — é Eleonor fica olhando o espelho não vai adiantar nada.
Saí do banheiro e fui até a janela, fiquei de costas para a porta olhando o morro lá embaixo, as casas uma em cima da outra, as pessoas já começando a andar, o barulho de moto subindo, gente conversando alto, música longe, o morro acordando para mais um dia normal, enquanto a minha vida tinha virado de cabeça para baixo nem trabalha eu poderia e mais sei como o seu Zuza era como eu não vou poder ir mais ele vai e demitir. Eu fiquei ali parada pensando comigo mesma que eu não sabia o que ia acontecer comigo, não sabia o que ele queria comigo, não sabia se eu ia poder sair dali algum dia não tinha dinheiro pra pagar a divida pra poder sair eu, não sabia de mais nada, e aquilo dava um medo que eu nunca tinha sentido antes continuei olhando o morro da janela.
Foi então que eu ouvi batidas na porta. Na mesma hora meu coração acelerou tão forte que parecia que eu conseguia ouvir ele batendo dentro do peito. Eu nem me virei na hora, só respirei fundo e falei baixo:
— Pode entrar.
A porta abriu e eu me virei devagar, e era ele. Posturado, sério, arrumado, vestia preto da cabeça aos pés, a roupa parecia feita sob medida, no pescoço tinha um cordão de ouro discreto, mas que dava para ver que era caro, o relógio no pulso também parecia coisa de gente muito rica, e o perfume dele invadiu o quarto inteiro, um cheiro forte e marcante, um cheiro que combinava com ele, com a presença dele, com o jeito dele. Ele não parecia um homem, ele parecia uma autoridade, alguém que estava acostumado a mandar e ser obedecido sem ninguém questionar.
Quando ele abriu a boca para falar, a voz dele saiu grave, forte, parecia um trovão dentro do quarto silencioso.
— Preciso falar com você sobre as regras, então vou esperar você lá embaixo lá não demora não tempo pra espera tem um morro inteiro pra comandar.
Naquela hora eu entendi que a partir daquele momento minha vida ia ser baseada em regras que eu não criei, em um lugar que não era meu, vivendo uma vida que eu não escolhi, e pela primeira vez desde que tudo aconteceu eu senti que talvez chorar não ia adiantar mais nada, porque agora eu ia ter que aprender a sobreviver dentro do mundo dele.
— Eu..eu já vou descer, não vou demorar. –falei tropeçando nas voz.
Ele saiu do quarto e fechou a porta atrás dele, e eu fiquei parada no meio do quarto por alguns segundos tentando respirar direito, porque parecia que o ar tinha ficado pesado de repente. Passei a mão no rosto, respirei fundo algumas vezes e tentei me acalmar, porque eu não podia demonstrar fraqueza, não sabia como ele era, não sabia o que ele fazia com quem desobedecia, então naquele momento a única coisa que eu podia fazer era obedecer e observar, aprender como funcionava aquele lugar e aquele homem.
— Vamos, lá respirei fundo para sair do quarto .
Fui andando até chegar na escada e parei um segundo olhando lá para baixo, respirei fundo e comecei a descer devagar, segurando no corrimão, sentindo meu coração bater forte dentro do peito.
Eu parei a alguns passos dele e fiquei quieta, sem saber se falava alguma coisa ou se esperava ele falar primeiro. Quando ele guardou o celular no bolso, levantou o rosto e me olhou, aquele olhar sério, firme, que parecia atravessar a gente. Eu não consegui sustentar e baixei a cabeça na mesma hora.
Foi então que ele falou, com a voz firme e calma ao mesmo tempo.
— Gosto de falar com as pessoas, olho nos olhos delas, então olha pra mim quando eu for falar com você falo.
Eu senti um frio na barriga na mesma hora, mas levantei a cabeça devagar e olhei para ele, mesmo com medo, mesmo com vontade de olhar para o chão de novo, mas eu olhei .
— É o seguinte: escuta o que vou falar, porque não sou de repetir as coisas.
Ele então cruzou os braços e começou a falar devagar, como se quisesse que eu entendesse muito bem cada palavra.
— As regras aqui são ditas e cumpridas. Não aceito que sejam descumpridas, então acho bom você andar na linha e prestar bem atenção no que eu vou falar.
Eu engoli em seco na mesma hora, senti um arrepio descer pela minha espinha de um jeito estranho, uma mistura de medo com nervoso, e fiquei quieta só ouvindo, porque eu sabia que ali eu não tinha direito de discutir nada.
— Eu não aceito erros — ele continuou. — Você foi entregue a mim como um pagamento, então vai fazer tudo que eu mandar pra valer a pena esse dinheiro.