Predador
Deixei ela no quarto e desci pra sala novamente com passos firmes, mas a mente longe do controle que eu costumava ter em qualquer situação, porque, pela primeira vez em muito tempo, algo tinha saído do padrão que eu mesmo estabeleci, e isso me incomodava mais do que qualquer ameaça externa. Fui direto pra mesa onde ficavam as bebidas, sem olhar ao redor, como se o caminho já estivesse marcado no meu corpo, peguei um copo, servi o whisky até a metade e virei de uma só vez, sentindo o líquido descer queimando pela garganta, forte, seco, do jeito que eu precisava naquele momento, como se pudesse apagar ou pelo menos silenciar o que estava rodando na minha cabeça desde que saí daquele barraco.
Eu tinha recebido uma pessoa como pagamento de uma dívida, eu já tinha recebido várias coisas como casa, carro, moto, já tinha tirado vidas mas esta foi algum que eu não deveria ter tido mais algum em mim não sei o que, fez eu querer ter ela. Ela é diferente, não sei explicar, tem um padrão diferente, não é como as outras, ela é gordinha em uma b***a grande baixinha linda mesmo vestindo aquele trapos velhos .
Verei o resto do whisky de uma vez, quando a porta abriu eu olhei e por ela passou VK o F2eu sabia que eles não iriam engoli esta de receber alguém como pagamento eles entram e sentaram no sofá.
—Eu sabia que vocês iriam voltar —falei vindo até eles com a garrafa de whisky e mais dois copos coloquei na mesinha de centro e servir eles.
— Isso não é comum — F2 diz, encarando o teto por alguns segundos antes de me olhar. — A gente já cobrou dívida de tudo quanto é jeito, mas isso aí… foi diferente.
Pego mais whisky, dessa vez sem pressa, girando o copo na mão enquanto penso, porque ele está certo, e eu sei disso, mas admitir em voz alta não muda o fato de que já aconteceu.
— Não é sobre ser comum — respondo, a voz baixa, controlada. — É sobre manter a regra.
VK cruza os braços, o maxilar travado.
— E qual é a regra quando o pagamento é uma pessoa? – E quando o comado ficar sabendo disso vai cair em cima de você.
O silêncio que se segue não é confortável. Não é falta de resposta, é excesso de pensamento.
— A regra continua a mesma — digo por fim, encarando ele. — A dívida foi paga e eu sou o comando esqueceu que sou líder também .
— Pagamento estranho — F2 rebate, sem rodeio.
Dou um meio sorriso sem humor, levando o copo aos lábios novamente.
— O morro inteiro é estranho, irmão.
Ele não discute, mas também não concorda totalmente, e eu entendo. Nós três viemos do mesmo lugar, crescemos vendo coisa errada virar normal, mas ainda assim existem linhas que nem todo mundo cruza sem sentir. Eu aprendi a cruzar sem olhar pra trás, porque foi isso que me trouxe até aqui.
Me levantei do sofá e fui até a grande janela , e fiquei olhando as luzes do morro lá embaixo. Tudo aquilo depende de ordem, de controle, de decisões rápidas e firmes. Não existe espaço para dúvida.
— Ela não é problema agora – falo, mais para organizar meus próprios pensamentos do que para convencer eles. – O pior problema era grama que a noia da mãe dela tava devendo já está resolvido .
— E ela agora vai vira o que ? – VK perguntou direto.
Eu virei o rosto na direção dele , sustentei o olhar por algum segundos.
— Eu ainda não decidir o que vou fazer com ela.
A sinceridade areia no ar como algo raro,porque normalmente eu sempre sei exatamente e que fazer,exatamente onde cada peça se encaixa , mas sessa vez não é assim , e isso me irrita em um nível que não deixo transparecer.
F2 se levanta , caminhando até mim,apoiando o copo na parede ao lado da janela.
— Só tome cuidado com o que você vai fazer com esta garota,ela não é como as que você já está acostumada dá pra ver que ela já sofreu pra c*****o ela, é diferente – ele fala mais sério agora .— Porque não é droga , não é arma não é dinheiro É gente.
Dou uma risada baixa sem humor nenhum.
— Eu sei exatamente o que é,não precisa você me falar F2.
E sei mesmo , porque diferente do que muitos pensam,eu nunca perdi a noção do que estou fazendo , apenas escolhi fazer mesmo assim.
Existe uma diferença grande entre ignorância e decisão, e tudo na minha vida sempre foi assim.
— Amanhã eu vejo isso —completo, virando mais um gole.– hoje ela só dorme.
VK faz um aceno leve com a cabeça , aceitando a minha decisão enquanto F2 apenas solta o ar pelo nariz,ainda pensativo, mas sem insistir .Eles confiam em mim, sempre confiaram, e eu não vou dar motivos pra ser diferente.
O silêncio volta a tomar conta da sala depois que eles se afastam indo embora, cada um indo para sua casa, cuidando do que precisa ser cuidado, enquanto eu permaneço ali, olhando para o morro, mas sem realmente ver nada específico, porque minha mente volta para o mesmo ponto, repetidamente, como um disco riscado.
A imagem dela. O olhar. A forma como foi entregue.
Não foi a primeira vez que vi desespero, mas foi uma das poucas vezes que vi alguém desistir de outro ser humano com tanta facilidade, e isso diz mais sobre o mundo em que a gente vive do que qualquer discurso.