###Matteo
Estava concentrado, lendo as fichas dos funcionários da loja. A porta do meu escritório estava entreaberta, e através dela, pude ver e ouvir Lara conversando com alguém. Pareciam amigas íntimas. A acústica da minha sala é excelente quando a porta está fechada, mas aberta, é impossível evitar ouvir as conversas do lado de fora.
Senti um misto de culpa e frustração ao perceber que já passava das 19:00 e eu nem havia notado. Deixei as coisas dela sobre a mesa sem pensar, ela vai me considerar um carrasco por isso.
Saí da sala e me aproximei delas. Lara tentou apresentar a sua amiga, nossa recepcionista, mas se atrapalhou. Jade logo se justificou, explicando por que estava ali. Mais uma vez, elas me viam como o carrasco da empresa. Ri internamente da situação.
Conversei brevemente com Jade, achando-a simpática. Não é à toa que é uma das melhores recepcionistas da nossa loja. Após as apresentações, avisei Lara que estava dispensada e a levaria para casa. Lara sugeriu que fossem de táxi, mas Jade aceitou prontamente a carona, argumentando que seria mais conveniente. Lara a repreendeu de brincadeira por isso. Foi engraçado, mas mantive a compostura.
Voltei à minha sala para pegar as minhas coisas e as fichas para trabalhar em casa. Enquanto isso, ouvi Jade se despedindo e alertando Lara para não me "agarrar" no elevador. Jade era uma figura. Não seria má ideia ser o centro da atenção dela. Mas meu pai me mataria se eu me envolvesse com Lara. Além disso, não sou do tipo que se compromete, e Lara parece uma pessoa séria.
Ao sair novamente da minha sala, encontrei Lara falando sozinha. Parecia não ter percebido que Jade já havia saído. Questionei-a, e ela admitiu estar conversando com a amiga. Olhamos ao redor, constrangidos, concordando silenciosamente que ela parecia estar falando sozinha.
Começamos a caminhar e logo percebi que ela estava com dificuldades, parecia ter machucado os pés. Como fui insensível! Fiz com que ela me acompanhasse por toda a empresa: três andares de joias, dois de perfumes, salas de reuniões, administração, RH, e finalmente o meu escritório, tudo isso enquanto usava saltos altos. Sem hesitar, a peguei no colo, surpreendendo-a.
— Senhor, o que está fazendo? Eu posso caminhar. — Ela protestou, mas não resistiu enquanto seguimos em direção ao elevador. — Não, você não pode. Sei que está com os pés machucados e a culpa é minha.
Entramos no elevador e ela pediu para que eu a colocasse no chão. Obedeci, e o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das nossas respirações. O perfume de Lara invadiu as minhas narinas, doce e envolvente. Por um momento, fechei os olhos, perdido no seu aroma. Desde quando parei para perceber o perfume de uma mulher? Agradeci internamente quando as portas do elevador se abriram, aliviado por não ter cedido ao impulso de agarrá-la ali mesmo. Jade nos esperava com um sorriso no rosto.
— Está tudo bem, amiga? — Jade perguntou, notando o rubor no rosto de Lara.
— Sim, só estou um pouco cansada. — Lara respondeu, lançando a Jade um olhar irônico.
Confuso com a situação, acompanhei-as até o carro. Deixei-as na casa de Lara e segui para casa com a mente ainda ocupada pelo trabalho. Queria fazer o meu pai se orgulhar e provar que sou capaz. As palavras de Lara mexeram comigo, especialmente quando ela mencionou amar o que faz e insinuou que eu tive tudo de mão beijada, sem esforço. Isso me fez refletir profundamente. Decidi que a partir daquele momento, valorizaria cada conquista, cada esforço que o meu pai dedicara para construir a nossa empresa.
###Lara
Jade me deixou falando sozinha e me senti constrangida ao lado de Matteo. Mas para minha surpresa, ele mostrou-se prestativo ao me levar nos braços até o elevador. Talvez ele tenha percebido que o meu pé estava machucado. Fiquei surpresa com esse gesto gentil. No elevador, m*l conseguia ficar de pé devido ao cansaço. Enquanto isso, Jade já devia estar planejando a próxima aventura na balada. Como ela consegue ser tão agitada? Comparada a ela, me sinto como uma senhora em corpo de jovem.
Olhei para o lado e vi Matteo com os olhos fechados. Será que ele dormiu em pé? Trabalhamos tanto que estamos até dormindo em pé. Por que estou reparando nele assim? Será só porque ele é ainda mais bonito de perto e tem um perfume incrível? Ai, meu ponto fraco. Lara, se recomponha. A porta do elevador se abriu e fiz de conta que não tinha notado nada, mas meu rosto estava fervendo. E pelo sorriso de Jade, ela percebeu.
— Está tudo bem, amiga? — Jade perguntou, vendo o meu rosto ruborizado.
— Está sim, só estou um pouco cansada. — Respondi, lançando um olhar brincalhão para Jade.
Ficamos em silêncio constrangedor até chegar em casa, onde nos despedimos rapidamente. Tinha medo que Jade dissesse algo comprometedor, então a puxei rapidamente para dentro.
— Ai, m*l consegui me despedir direito.
— Eu te conheço há 6 anos, Jade!
— Eu só queria perguntar se rolou alguma coisa entre vocês no elevador. Você estava tão vermelha que parecia ter corrido uma maratona. — Ela riu, provocando.
— Não, não aconteceu nada. Estávamos só cansados. Você acredita que ele estava praticamente dormindo em pé no elevador? — Ri, lembrando de Matteo com os olhos fechados.
— Uau, você estava tão entediante assim que ele preferiu tirar uma soneca no elevador do que conversar contigo?
— Parece que sim! Vou tomar um banho, depois podemos pedir algo para comer e, com a barriguinha cheia, capoto na minha cama.
— Você acha mesmo que vai capotar? Nada disso! Vamos para a balada! Tenho um cartão VIP agora e você precisa perder essa virgindade, amiga, já passou da hora.
— Ah, Jade, você e as suas loucuras! Mas eu prefiro esperar pela pessoa certa, sabe? É uma escolha minha, acho que as coisas têm que acontecer naturalmente e não por pressão social.
— Lara, eu só estou te provocando, amiga. Você vai encontrar a pessoa certa quando menos esperar. E olha só, eu já tenho experiência nisso, então relaxa. Quando for para acontecer, será incrível!
— Eu sei, Jade, você sempre sabe como me provocar! Mas é bom ouvir isso de você. Acho que realmente preciso relaxar mais e deixar as coisas fluírem naturalmente. E pode deixar que, quando acontecer, você será a primeira a saber. E agora me diga, o que fez para seu pai te dar esse cartão VIP?
— Fui ao aniversário de 50 anos da minha "brudrasta" — ela riu, criando um apelido engraçado para madrasta.
— Acho que até eu me sacrificaria.
— Foi um tédio! Pior ainda foi nós duas fingindo nos amar, cobra comendo cobra, minha filha!
— O seu pai já parou de dizer que o seu cargo de recepcionista é uma vergonha para a família?
— Não, todos os dias ele me liga perguntando se já me demiti. Ainda bem que não dependo do dinheiro dele para nada. Só implorei pelo cartão VIP, já que nunca peguei nada dele. Diferente da minha meia-irmã,
aquela lambisgoia.
— Amiga, com todo o respeito, ele é um i.d.i.o.t.a! Todo emprego, por menos que remunere, é digno, pois representa esforço e dedicação. Você é muito dedicada e perfeita no que faz, miss simpatia da empresa Moreau.
— Obrigada! Te amo, amiga.
— Eu também te amo.
— Que fofas! — disse Gustavo, os seus olhos transbordando amor e orgulho paterno.
— Tenho a quem puxar — respondeu Lara, um sorriso tímido nos lábios enquanto se aconchegava no abraço do pai.
— Oi, tio Gustavo! — cumprimentou ela com um sorriso afetuoso.
— Olá, Jade. Cuide da minha menina enquanto estiver fora — pediu Gustavo com seriedade, o seu olhar alternando entre Lara e Jade.
— Cuido, sim, tio. Deixa comigo — assegurou Jade, o seu tom de confiança não deixando dúvidas sobre a sua determinação.
Lara não pôde conter uma risada leve ao intervir na conversa.
— É mais fácil eu cuidar de você, sua desmiolada — brincou, recebendo um olhar divertido de Jade e um sorriso compreensivo de Gustavo.
Gustavo aproveitou o momento para deixar uma última mensagem de carinho para sua filha.
— Estou indo, Lara. Cuide-se. Sentirei saudades, meu amor — disse ele, beijando suavemente o topo da cabeça de Lara antes de abraçá-la com firmeza.
— Pai, se cuida também. Te amo muito. Vou sentir saudades — respondeu Lara, segurando as lágrimas que ameaçavam surgir. A proximidade com o seu pai era algo que ela valorizava profundamente.
— Sábado que vem estaremos de volta. Preparem-se para me aguentar de novo — anunciou Gustavo com um sorriso, tentando trazer leveza ao momento de despedida.
— Vou te esperar com um banquete — prometeu Lara, decidida a receber o seu pai de volta com alegria e comida farta.
— Não vejo a hora. Tchau, princesa — despediu-se Gustavo, com um olhar repleto de ternura e orgulho paterno.
— Tchau, pai. Boa viagem! — disse Lara com um sorriso trêmulo, tentando transmitir coragem nas suas palavras.
— Obrigado, minha linda. Tchau, Jade — agradeceu Gustavo, dirigindo-se também à amiga da sua filha.
— Tchau, tio! Boa viagem! — desejou Jade, sorrindo com a sua habitual animação.
— Obrigado, querida — respondeu Gustavo, a sua voz carregada de gratidão pela presença e apoio de Jade.
Com um último olhar de despedida, Gustavo partiu, deixando um leve aroma do seu perfume no ar. Lara o observou partir, sentindo uma mistura de tristeza pela despedida e ansiedade pelo reencontro que viria.