Capítulo 5

770 Words
A governanta insistiu para que eu usasse um dos vestidos pendurados no closet. Mas eu a dispensei com um simples aceno. Escolhi uma calça escura e uma blusa simples que eu mesma tinha trazido. Se Alessio queria que eu estivesse ali, ele teria que lidar com a versão real de mim — não com uma boneca vestida para o jantar. Quando entrei na sala de jantar, a atmosfera mudou. O som dos talheres contra a porcelana parou por um segundo. Alessio estava sentado na cabeceira. A postura impecável. O olhar fixo na porta antes mesmo de eu cruzar o batente. À sua direita, uma mulher com traços tão afiados quanto os dele me observava com uma calma glacial. Do outro lado, um rapaz mais novo, com uma expressão mais relaxada, parecia estar contando os segundos para o jantar acabar. — Sente-se, Serena — Alessio indicou a cadeira à sua esquerda. Eu me sentei, mantendo as mãos sobre o colo para esconder o leve tremor que teimava em aparecer. — Minha irmã, Bianca. E meu irmão, Luca — ele disse, com uma frieza que parecia ser o padrão daquela casa. Bianca me analisou como se eu fosse um problema a ser resolvido. — Serena Lombardi. Eu confesso que estava curiosa para saber que tipo de mulher faria meu irmão perder a compostura ao ponto de trazê-la para a Villa. — Não confunda obsessão por controle com perda de compostura, Bianca — respondi, sustentando o olhar dela. — Eu não estou aqui porque ele me quer. Estou aqui porque ele não suporta que algo fuja do seu domínio. Luca soltou uma risada abafada, ganhando um olhar repreendedor de Bianca. — Ela tem língua afiada, Alessio. Pelo menos o jantar não vai ser um tédio como de costume. Sou o Luca, aliás. — Eu sei quem vocês são — falei, olhando para o prato à minha frente. — Eu passei anos ouvindo o nome Caruso associado a cada tragédia que acontecia com a minha família. Alessio, que permanecia em silêncio, finalmente se manifestou. — O que aconteceu no passado não muda o presente, Serena. E o presente exige que você coma. — É difícil sentir fome quando se está cercada por predadores — retruquei, sentindo o estômago dar voltas. — Se fôssemos predadores, Serena, você já teria desaparecido — Bianca rebateu, a voz desprovida de qualquer emoção. — Você está aqui por um único motivo. Uma pausa. — O bebê. — Exatamente — Alessio cortou a irmã, e o tom de sua voz não dava margem para discussões. — E enquanto ela estiver carregando um Caruso, ela terá o respeito de todos nesta mesa. Uma pausa mais pesada. — Fui claro? Bianca apenas assentiu, voltando sua atenção para o vinho. Luca tentou mudar de assunto, falando sobre um cavalo novo que tinha chegado ao haras da propriedade. Mas o clima continuava denso. Eu olhava para Alessio pelo canto do olho. Era impossível não lembrar daquela noite no hotel. O ódio que eu sentia por ele se misturava com uma vergonha corrosiva por ter me deixado levar. O corpo tem uma memória c***l. E o jeito que ele me olhava agora me fazia sentir exatamente como naquela noite: encurralada… mas estranhamente alerta. — O médico virá amanhã cedo — Alessio disse, interrompendo meus pensamentos. — Ele vai cuidar para que tudo esteja bem. — Eu posso ir ao meu próprio médico — rebati. — Você não vai sair da Villa. O médico virá até você. — Você não pode me trancar aqui para sempre, Alessio. Ele largou o talher. E se inclinou levemente na minha direção. O perfume dele — uma mistura de madeira e tabaco — pareceu preencher todo o espaço ao meu redor. — Eu posso fazer exatamente o que eu decidir que é necessário, Serena. A voz veio baixa. Controlada. — Aprenda isso o quanto antes. Vai poupar muito esforço de ambos os lados. Eu o encarei, sustentando o olhar até que meus olhos ardessem. Eu não ia ser a prisioneira grata que Bianca esperava. E muito menos a mulher submissa que Alessio achava que podia moldar. — Terminamos? — perguntei, levantando-me antes mesmo dele responder. Alessio apenas me observou partir. Luca me lançou um olhar que parecia carregar uma ponta de pena… mas eu o ignorei. Subi as escadas com o coração martelando. Eu estava em território inimigo. Carregando o sangue deles dentro de mim. Mas eles ainda não tinham ideia de uma coisa: o ódio que eu sentia era a única coisa que me mantinha de pé. E eu usaria isso como uma arma… assim que tivesse a chance.
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