A segunda-feira amanheceu sob um céu de chumbo sobre as colinas de Milão.
Dentro da Villa Caruso, o ar parecia mais pesado, como se a própria casa estivesse prendendo a respiração antes de uma tempestade.
Passei a maior parte do dia trancada no quarto, alegando um cansaço que não era totalmente mentira. A gravidez começava a cobrar seu preço físico, mas era o desgaste emocional que realmente me consumia.
Eu precisava manter o foco.
Se Luca estivesse certo, eu teria apenas noventa segundos na noite seguinte.
Noventa segundos para cruzar o corredor.
Noventa segundos para entrar no escritório de Alessio.
Noventa segundos para descobrir o que ele escondia sobre a queda dos Lombardi.
Uma batida suave interrompeu meus pensamentos.
Não era a batida firme de Alessio.
Nem a eficiente da Sra. Agata.
— Entre — murmurei, fechando o livro que fingia ler.
Bianca atravessou a porta com a elegância silenciosa de uma pantera.
Vestia um conjunto de alfaiataria cinza-pérola que combinava perfeitamente com a frieza calculada de seus olhos. Ela não pediu licença; apenas caminhou até a varanda, observando a paisagem antes de voltar a atenção para mim.
— Você está muito quieta, Serena. Mais do que o normal.
A voz dela era reta. Precisa. Desconfiada.
— Alessio acha que você finalmente está aceitando a realidade. Eu, por outro lado, acho que você está planejando alguma coisa.
Cruzei os braços lentamente.
— Aceitar a realidade não significa que eu precise comemorar, Bianca. Estou grávida, presa e cercada por pessoas que me odeiam. O que esperava? Um brinde?
Bianca se aproximou devagar, analisando meu rosto como se procurasse rachaduras na minha máscara.
— Ninguém nesta casa te odeia. O ódio exige esforço emocional, e você ainda não conquistou isso de nós. Para mim, você é apenas um risco que precisa ser administrado.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Já para o meu irmão... bem, ele tem uma fraqueza por você que eu ainda não consegui entender.
Soltei uma risada seca.
— Fraqueza? Alessio não conhece o significado dessa palavra.
— Oh, ele conhece — respondeu com um sorriso frio. — O problema é que, quando Alessio encontra uma fraqueza, ele não a elimina. Ele a tranca em uma torre para garantir que ninguém mais possa tocar nela.
As palavras dela ficaram suspensas no quarto como um aviso silencioso.
Bianca sabia.
Talvez não sobre o plano em si, mas sabia que eu era perigosa.
E pior: sabia que Alessio não conseguia ser racional quando o assunto era eu.
Se eu fosse inteligente, usaria isso a meu favor.
— Se veio aqui para me ameaçar, está desperdiçando seu tempo — falei, sustentando o olhar dela. — Seu irmão já fez o trabalho pesado.
— Não vim te ameaçar.
Ela deu mais um passo.
— Vim te avisar que amanhã à noite eu estarei no comando da Villa enquanto Alessio estiver fora. E, ao contrário dele, eu não enxergo você através do desejo. Eu enxergo através da lógica.
O silêncio que veio depois foi sufocante.
— Então escute com atenção, Serena: se você der um passo em falso, eu não vou hesitar em cortar suas asas.
Bianca saiu sem esperar resposta.
A porta se fechou suavemente atrás dela, deixando no quarto apenas o perfume caro e a sensação crescente de perigo.
Ela era o verdadeiro obstáculo.
Luca podia me mostrar o caminho.
Mas Bianca era quem guardava a porta.
O restante do dia passou como um jogo silencioso de observação e máscaras.
Cruzei com Luca apenas uma vez no corredor principal. Ele não falou comigo; apenas inclinou a cabeça de forma quase imperceptível, confirmando que a manutenção do servidor continuava programada para as onze da noite seguinte.
Noventa segundos.
O jantar naquela noite foi silencioso.
Alessio parecia distante, revisando documentos no tablet entre um gole de vinho e outro. Ainda assim, eu sentia os olhos dele em mim de tempos em tempos — um toque invisível que me fazia querer recuar e me aproximar ao mesmo tempo.
Era insuportável.
Eu odiava aquele homem por destruir meu passado.
Mas a maneira como ele me protegia do resto do mundo criava uma confusão que eu ainda não estava pronta para encarar.
— Você está pálida, Serena — Alessio comentou de repente, quebrando o silêncio da mesa. — Já tomou suas vitaminas hoje?
Suspirei discretamente.
— Tomei, Alessio. Não sou uma criança.
— Não — ele respondeu, finalmente abaixando o tablet. — Você é a mãe do meu filho.
Meu estômago apertou.
— E a partir de amanhã, algumas coisas vão mudar. Vou aumentar a segurança da ala leste.
Meu coração falhou uma batida.
Ele sabia?
Forcei minha expressão a permanecer neutra.
— Por quê?
Alessio apoiou os cotovelos na mesa.
— Riccardo Moretti foi visto em Milão hoje. Ele sabe que você está aqui. E sabe o quanto você é importante para mim.
Importante.
Não “importante para a família”.
Não “importante por causa do herdeiro”.
Importante para ele.
— Eu não sou um troféu para ser disputado entre homens como vocês — retruquei, tentando ignorar o impacto daquelas palavras.
Alessio se levantou lentamente.
— Você é muito mais do que um troféu, Serena.
Ele caminhou até mim.
Meu corpo inteiro ficou tenso quando ele parou ao meu lado.
Então, com uma calma quase c***l, pousou a mão sobre minha cabeça em um gesto possessivo e estranhamente gentil ao mesmo tempo.
— Você é a única coisa que eu não estou disposto a perder.
Minha respiração vacilou.
Ele sustentou meu olhar por mais alguns segundos antes de se afastar.
— Vá dormir cedo — ordenou, voltando ao tom frio habitual. — Amanhã será um dia longo.
Observei Alessio sair da sala de jantar.
Ele iria para reuniões, negociações, ameaças e sangue.
Para o mundo onde era um predador absoluto.
E eu permaneceria ali, planejando me tornar uma ladra dentro da própria fortaleza dele.
Quando voltei para o quarto, tentei dormir.
Não consegui.
Fiquei deitada encarando o teto enquanto repetia mentalmente o trajeto até o escritório.
Vinte passos até a escada.
Doze degraus.
Trinta passos até a porta de carvalho.
Noventa segundos de escuridão digital.
Noventa segundos que poderiam destruir tudo.
Porque eu sabia que, se fosse pega, não haveria retorno.
Alessio talvez pudesse perdoar mentiras.
Talvez pudesse perdoar ódio.
Mas invadir o lugar onde ele enterrava seus segredos era atravessar uma linha sem volta.
Ainda assim... eu precisava saber.
Precisava descobrir se o ódio que existia entre nós era a única verdade daquela história.
Ou se havia algo muito mais sombrio escondido sob a obsessão de Alessio Caruso.
A terça-feira estava chegando.
E, com ela, o começo de algo que mudaria tudo entre nós.