Eu engulo em seco.
—Falar sobre mim?
Fico a olhar desnorteada para ele. A porta se abre e a mãe dele entra.
—Filho, o que você tem? Rose me disse que está passando m*l.
—Com licença. —digo, aproveitando a entrada dela para sair do quarto.
Murat
Kahretsin! Binlerce kez bok!(Merda! Mil vezes merdaa!) Minha mãe tinha que entrar justo agora? Eu estava quase a convencendo...
—É apenas um m*l-estar.
Ela coloca a mão na minha testa.
—Maal-estar? Você está ardendo em febre?
Allah! Eu me sinto com febre o tempo todo, desde que coloquei meus olhos nos cabelos de fogo.
—Não se preocupe, anne. (mãe) Já tomei um antitérmico. Acho que deve ser uma virose.
Eu finalizo o mamão e coloco o suporte de lado. Deito-me nos travesseiros.
—Não vai comer os ovos mexidos?
Abro os olhos e dou com seus olhos negros nos meus.
—Não. Estou sem fome. Você pode pedir para Ester depois vir buscar o carrinho? O cheiro de comida está me fazendo maal.
—Eu levo.
Eu fungo, o meu sangue ferve.
—Mãe, a empregada leva. Talvez eu coma algo mais tarde.
—Você acabou de dizer que não aguenta o cheiro.
—É só colocá-lo distante de mim. Quando eu tiver fome, eu como. Não esse ovo é claro, mas os pães. Leva os ovos para a cozinha.
—Então eu vou pedir para ela tirar perto do horário do almoço e ela já traz uma sopa para você.
—Ótimo—digo e viro meu corpo na cama puxando mais a coberta e fecho os olhos.
Ouço a porta se abrir nas minhas costas.
—O que Murat tem? —Meu baba questiona.
—Ele está com alguma virose. Isso passa. Nosso filho é forte como um touro. Vamos sair para ele descansar.
Boa mãe!
—Vá você que eu quero falar com ele.
Allah! Ele vai me falar sobre Hazal!
—Sevgilim, agora não. Ele já está dormindo.
Meu pai bufa.
—Tudo bem!
Quando eles saem eu solto o ar e passo a mão nos olhos. Dessa vez meu pai não desistirá tão fácil. Ele colocou na cabeça que Hazal é a mulher ideal para mim. Ainda mais por essa união ser tão vantajosa.
Ester
Servi o café da manhã para os Çelik. Não pude deixar de ouvir a conversa dos dois. Eles falavam o tempo todo de almoço de amanhã, eles estão crentes que Hazal se unirá a Murat. Que é questão de tempo. Eles planejam introduzi-la em festas, jantares, almoços de família. Isso foi a resposta confirmatória que eu precisava para entender que Murat só me usará. Seus pais têm outros planos para ele e dificilmente o homem turco irá contra à vontade deles.
E se Murat acabar gostando dela?
Ele me usará e me enxotará depois de sua vida.
Após eles tomarem café eu retiro a mesa. Estava lavando a louça quando a senhora Ayla pede para Norma fazer uma sopa leve para Murat. Terminando a louça, ajudo Norma a cascar os legumes enquanto ela cozinha uma carne magra para depois colocá-los.
Tão logo a sopa fica pronta ela me pede:
—Ester, leve a sopa nessa bandeja e já traz o carrinho.
Meu coração se agita com seu pedido.
Deus! Não vai prestar eu ficar nessa casa. Na minha folga vou procurar outro emprego.
Assinto para ela e levo com cuidado a bandeja com a sopa. No corredor a coloco em cima do aparador e bato na porta. Não ouço resposta. Meu coração dispara ainda mais. Sou obrigada a abrir a porta.
Murat não está na cama.
Apuro meus ouvidos e o ouço vomitando no banheiro.
Vou até lá. A cena é de um homem grande com a cabeleira n***a revolta, só de short azul-marinho e camiseta branca debruçado no vaso sanitário.
—Murat?
Ele gira sua cabeça na minha direção. Está branco como papel. Eu vou até ele angustiada.
—Vou chamar sua mãe.
—Não! Minha mãe não! —Ele diz se erguendo e se segurando na parede do banheiro. Eu fico a olhar para ele sem saber o que fazer.
Ele aperta a válvula da descarga e depois olha para mim.
—Você pode me ajudar a voltar para a cama? Ou vai ficar aí, parada, me olhando?
Insegura vou até ele e enlaço sua cintura. Ele me envolve com seu braço e juntos vamos caminhando devagar até a sua cama. Ele se deita nela, eu o cubro.
—Desde quando você está vomitando?
Muito pálido, ele abre os olhos.
—Desde agora. Eu estava lutando aqui na cama achando que o maal-estar passaria, mas não teve jeito.
—Eu trouxe uma sopa.
—Allah! Eu não consigo comer nada agora.
—Você está...com....você sabe.
Ele me olha aéreo.
—Não, não sei.
—Só vomitando?
Ele sorri.
—Pode ficar tranquila, estou só vomitando. Leve a sopa e pede para Norma um remédio para cortar o vômito e traga isotônicos.
—Vai tomar remédios por conta? Você já teve isso antes? Não acha melhor chamar o médico?
—É um maal-estar de nada. Tenho trinta e seis anos nas costas, sou bem vivido para saber que ficarei bem. Então, por favor! Minha mãe não deve saber de nada, ela dramatiza tudo. Já vai chamar o médico e ele acabará me receitando tudo isso que te falei.
—Não sei...eu ainda acho que ela deveria saber.
—Ester! —Ele ruge, eu estremeço inteirinha.
—Tudo bem.
Ele funga.
—Vamos fazer assim? Se eu não melhorar até amanhã, eu vou ao médico.
Eu respiro mais tranquila.
—Está certo. Vou levar o carrinho com as coisas e já trago seu remédio.
—Faça isso —ele diz de olhos fechados.
—Já volto.
Eu pego o carrinho e o empurro no corredor, vou até o aparador e coloco a bandeja com a sopa na parte de baixo do carrinho e o movo devagar até a cozinha.
—E Murat? Melhorou? —Norma indaga quando me vê entrando com as coisas.
—Ele estava vomitando quando cheguei. Bem pálido. Pediu aquele remédio que ele costuma tomar quando vomita e isotônicos.
—Hum, então ele nem comeu a sopa?
—Não.
Ela me olha pensativa.
—E a senhora Çelik sabe que ele vai tomar remédio por conta?
—Não! E nem pode saber. Ele pediu isso.
Norma aperta os lábios.
—Bem a cara de Murat.
—Ela dramatiza tudo, mesmo?
—Ele te disse isso?
Assinto para ela.
—Sim.
Ela ergue a mão e faz sinal de bobagem no ar.
—Dramatiza nada. Murat que tem uma vida independente. Seus pais pensam que o tem nas mãos, mas ele é como uma águia. Voa livre e bem longe e volta para o ninho só para agradá-los. Ele não luta contra mas faz o que bem entende.