Aonde você estava?

1057 Words
Fecho os olhos. Minha cabeça lateja como se estivesse sendo esmagada por dentro, a dor pulsante me obriga a manter as pálpebras cerradas. Cada batida ecoa como um tambor, abafando qualquer pensamento que não seja a tentação de me render ao vazio acolhedor da escuridão. Lá, pelo menos, não há dor. Não há peso. —A cuidadora que contratei ficará com você agora. É bom que se acostume com ela, pois depois ela continuará com você no apartamento. Eu luto para abrir os olhos, mesmo que cada fração de movimento pareça um esforço desumano. Quando finalmente consigo, a claridade do quarto me agride — Desde quando estou aqui? — minha voz sai rouca, frágil, como se tivesse atravessado um deserto de palavras. — Quando você soube do meu acidente? Ele me encara, os olhos tão intensos quanto de costume, mas há algo mais ali: cansaço, talvez raiva. — Faz uma semana. Eu acompanho seu caso desde o início. — Sua resposta é direta, seca, mas o peso de suas palavras é inegável. — Se não tivesse saído da minha casa daquela forma, nada disso teria acontecido! Não estaria exposta na rua, procurando emprego! As palavras caem sobre mim como pedras. Fecho os olhos, sentindo um nó apertar minha garganta. Ele está me culpando agora? Meu peito pesa como se estivesse sendo esmagado. Claro que saí! Que alternativa eu tinha? Minha vida já é uma confusão sem fim, não precisava de mais. Uma lágrima escapa sem pedir permissão, quente e pesada, descendo pela minha pele fria. Antes que eu possa me afundar ainda mais, sinto a mão dele deslizar pelos meus cabelos, seus dedos ásperos em contraste com o toque delicado. Então, os lábios de Murat pousam na minha testa, macios como uma promessa não dita. —Shiiii. Ficará tudo bem. Você verá. Perdoe-me se fui rude com você. É que me tira do sério. Eu abro os olhos e mais lágrimas descem. Encontro seus olhos incrivelmente carinhosos agora nos meus. Assinto para ele com a cabeça. —Preciso ir. Vou tomar um banho, comer alguma coisa. As falas dele me fazem reparar nele melhor. Realmente ele parece abatido, amassado. —Você passou a noite aqui? —Hoje passei. —Ele diz calmamente. —Seu pai está sabendo disso? —Não — ele diz seco e pelo jeito nem vai saber. Então ele me dá um beijo na testa. —Vou indo. Amanhã venho te pegar para te levar para o apartamento. —Está certo. E... obrigada—digo num sussurro. —Estou feliz que esteja de volta...da inconsciência. — Ele diz suavemente, os olhos ardentes fixos nos meus... —Eu também... Ele acena com a cabeça, como se aquilo fosse suficiente para ambos, e desaparece pela porta. O vazio que ele deixa para trás é rapidamente preenchido por uma mulher mais velha que entra e se senta na cadeira onde Murat estava. Ela não diz nada, apenas me observa com um olhar calmo e paciente. Fecho os olhos novamente. A luz ainda me incomoda, cada pensamento parece piorar a dor latejante. Não quero pensar em nada, não agora. O peso das pálpebras vence, e eu me entrego à escuridão mais uma vez, esperando que, pelo menos ali, a dor se dissipe. Murat  Entro em casa e imediatamente meu pai vem na minha direção. Relanceio o olhar para a janela da sala e contemplo o deprimente espetáculo: relâmpagos iluminam o céu, nuvens pesadas anunciam a tempestade se formando lá fora, mas o que me preocupa é com a que está se formando aqui dentro. — Aonde você estava? Volto a cabeça para o meu pai. — Não te devo satisfação. Meu trabalho está em dia, não está? Esse é seu limite. Cobrar meu trabalho, quanto ao meu dia a dia, minha rotina e o que faço, nunca te dei essa a******a e não é agora que vou dar. Num gesto nervoso, meu pai pega o meu braço quando estou para deixar a sala. — Você tem um compromisso com Hazal! Quer pôr tudo a perder? — A voz estridente chega aos meus ouvidos. — Eu fui ao seu quarto. Você não dormiu em casa. O que há com você? Eu retiro suas mãos do meu braço. — Pai, como eu te disse, tenho trinta e seis anos e não te devo explicação. — Pensei que finalmente essa sua vida devassa fosse acabar. Mas pelo jeito me enganei. E quando você se casar? Será assim? Desrespeitará os costumes? Terá essa vida mundana? — Não! Serei o homem que devo ser. Não faria isso com ela. — Digo com minha raiva contida. — Pensei que finalmente estivesse apaixonado, gostando de Hazal — meu pai me olha tentando me entender. Minha vida está uma confusão de sentimentos. Minha rotina mudou depois que soube do acidente e o que menos tenho pensado desde que soube que Ester estava internada é em Hazal. Bem, eu já não pensava muito nela desde que Ester saiu da minha vida, essa é a verdade... — Para mim ela é uma grande mulher, virtuosa, blá, blá, blá... Meu pai blasfema em turco: — Não encare tudo com cinismo. — Pai, bom dia para o senhor, se me der licença, hoje é sábado e eu vou dormir até mais tarde. — Não dormiu essa noite? — Meu pai pergunta com desprezo. — Não, não perdi meu tempo dormindo. — Digo e saio da sala. Pela cara que ele fez, tenho certeza que a vontade dele é me bater com uma vara como ele fazia quando eu era adolescente. Tenho vontade de jogar tudo para o alto. Dar um basta nessa dominância de meu pai. Mas nunca agi pelo coração, sempre fui razão e quero a presidência, custe o que custar! Finalmente eu descobri um jeito de estar sob controle da situação, mas isso levará tempo. Tenho amarrado todos os contratos que conquistei ao meu nome. Sem mim, não há negociações, nem transações futuras. Meu coração se fecha em dor por ter que mentir, enganar, trapacear. Sinto como se jogasse todos os ensinamentos de minha mãe no lixo, mas não consigo evitar. Sei que meu pai jogaria sujo comigo caso precisasse. Por que eu agiria diferente? Hazal seria, sim, a mulher certa para casar se não fosse por um pequeno detalhe: essa fascinação que sinto pelos cabelos de fogo...
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