Capítulo 2 – Davi .
Davi narrando .
Hoje o dia não queria acabar, e eu não via a hora de ir pra minha casa, tomar um banho demorado e cair na cama. Mas algo dentro de mim dizia que isso não ia acontecer. Um pressentimento velho, conhecido, desses que arrepiam a espinha e apertam o peito. Porque se tem uma coisa que o Felipe nunca gostou foi de me ver em paz. E isso vem desde criança.
Desde sempre , na verdade .
O sol já tava quase se escondendo atrás das casas amontoadas no morro, pintando o céu de laranja sujo, misturado com cinza. O tipo de fim de tarde que engana quem olha de fora, mas que pra quem vive aqui significa só mais uma noite de tensão. Caminhei devagar pela viela, sentindo o peso do dia nas costas e um cansaço que não era só físico. Era da alma.
Hoje é dia de baile, e eu não vou , eu nunca gostei de ir, e só ia quando tava de Platão . E tentava fica o mais escondido possível, pra não chama a atenção principalmente do meu pai .
Mas o Felipe… ele sempre foi o oposto de mim.
Enquanto eu aprendi a baixar a cabeça pra sobreviver, ele aprendeu a levantar a voz pra mandar. Enquanto eu sonhava em sair daqui, ele sonhava em mandar em tudo isso. E o pior é que ele conseguiu.
Passei em frente ao campinho onde a gente jogava bola quando era moleque. A trave torta ainda tava lá, enferrujada, igual às lembranças que insistem em não desaparecer. Lembrei da gente, descalço, camisa suada, brigando por qualquer coisa. Naquela época, ninguém falava em poder, em comando, em respeito pelo medo. Era só inveja pura, daquela que cresce junto com a gente.
Felipe sempre quis ser melhor do que eu. Mesmo quando não precisava competir.
Quando cheguei perto de casa, senti. O ar tava pesado demais. Silêncio demais. Nenhuma criança correndo, nenhuma música alta, nenhum riso jogado ao vento. Só o som distante de moto e vozes abafadas. Meu estômago revirou.
— Merda… — murmurei pra mim mesmo.
Antes mesmo de abrir o portão, ouvi meu nome.
— Davi.
A voz era calma demais pra coisa boa.
Virei devagar e vi o Nando encostado no muro, braços cruzados, cara fechada. Soldado fiel do Felipe. Desde sempre também.
Davi — Fala. — respondi, tentando manter a neutralidade.
Nando — O chefe quer trocar uma ideia contigo.
A palavra chefe me deu vontade de rir. Ou de quebrar alguma coisa. Talvez as duas.
Davi — Hoje não, Nando. Tô morto de cansado.
Ele deu um meio sorriso, desses que não chegam nos olhos.
Nando — Não é um convite.
Claro que não era.
Respirei fundo, sentindo aquela velha raiva subir, misturada com impotência. Eu podia dizer não. Podia virar as costas. Podia tentar fingir que ainda tinha escolha. Mas no morro, escolha é luxo. E eu nunca tive.
Davi — Onde ele tá? — perguntei .
Nando — Lá em cima. Na casa antiga.
A casa antiga. Onde tudo começou. Onde a gente cresceu ouvindo grito, ameaça e promessa vazia. Onde Felipe aprendeu que medo manda mais que amor.
Subi o morro com passos pesados, cada degrau trazendo uma lembrança que eu preferia esquecer. Minha mãe gritando pra gente parar de brigar. O silêncio depois das surras. O olhar do Felipe, sempre duro, sempre acusando, como se a culpa do mundo fosse minha.
Quando cheguei, a porta tava aberta. Entrei sem ser anunciado. O cheiro de bebida misturado com fumaça me fez arder os olhos.
Felipe tava sentado no sofá, pernas abertas, cotovelo apoiado no joelho, copo na mão. O mesmo olhar de sempre. Frio. Calculista. Um rei no trono que ele mesmo construiu.
Felipe — Até que enfim — ele disse, sem levantar a voz. — Pensei que tinha esquecido de onde veio.
Davi — Nunca esqueci — respondi. — É justamente por isso que tentei sair.
Ele riu. Um riso curto, sem humor.
Felipe — tu não tem pra onde ir , e se tu sair , tu acaba voltando, por que Todo mundo volta, Davi. Aqui é raiz. É sangue.
Davi — Sangue não prende ninguém — rebati, sentindo o coração acelerar.
Felipe se levantou devagar, caminhando até ficar na minha frente. A diferença entre a gente não era só física. Era de postura. Ele ocupava espaço. Eu evitava.
Felipe — Prende sim — ele disse baixo. — Principalmente quando é o mesmo sangue.
Ficamos nos encarando por alguns segundos que pareceram eternos. O silêncio era pesado, cortante.
Davi — O que você quer? — perguntei.
Felipe — Quero tu no baile hoje .
Davi - eu nam tô de Platão e hoje eu não tô a fim de ir no baile.
Felipe - não é um pedido ,eu tô falando que quero tu no baile, e tu vai .
A raiva ferveu no meu peito.
Davi — por que ? Eu só quero viver em paz, Felipe.
Ele inclinou a cabeça, como se analisasse algo curioso.
Felipe — Paz é coisa de quem não manda em nada.
Davi — Ou de quem já sofreu demais.
Isso fez algo mudar no olhar dele. Por um segundo, vi o menino que ele foi. Ferido. Esquecido. Depois sumiu.
Felipe — Sofrer não te dá direito de virar as costas pra família — ele disse.
Davi — Família não usa medo pra controlar.
O soco veio rápido. Seco. O impacto queimou meu rosto, mas doeu mais por dentro. Não pela força, mas pela confirmação. Ele nunca ia mudar.
Felipe — Aprende uma coisa, Davi — ele falou, chegando mais perto. — Aqui ninguém fica neutro. Ou tá comigo… ou contra mim.
Engoli em seco. Não abaixei a cabeça. Dessa vez, não.
Davi — Então já sabe minha resposta.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Felipe me olhou como se estivesse decidindo algo. Depois sorriu. Um sorriso perigoso.
Felipe — Vai pra casa — ele disse. — Hoje.
Aquilo me assustou mais do que qualquer ameaça.
Felipe — Mas lembra de uma coisa… — completou. — A paz que você tanto quer sempre cobra um preço. E eu faço questão de cobrar.
Saí dali com o corpo inteiro tremendo. O céu já tava escuro, e o morro parecia me observar, como se soubesse que algo tinha mudado. Pela primeira vez, eu não tinha recuado.
Cheguei em casa, fechei a porta e encostei nela, respirando fundo. Sabia que aquela noite não ia ser tranquila. Sabia que minha escolha tinha consequências.
Mas também sabia de uma coisa: eu não podia mais viver como eles queria .
Deitei na cama sem tomar banho mesmo. Olhei pro teto, sentindo o coração bater forte.
A guerra que eu tentei evitar a vida inteira… tinha acabado de começar.
E dessa vez, não tinha mais volta. O Felipe sempre foi mandão, se achava o dono do mundo, e pra ler me querer no baile hoje, e por que tinha alguma coisa , e se for o que eu penso que é, o sossego que eu cosegui vai acaba ,por que ele já tem tudo e mesmo assim ele insiste em querer o que eu tenho
Depois de fica um tempo na cama, eu resolvi me levantar e tomar um banho pra ver se a água levava um pouco do cansaço e de tudo embora, mais eu sei que a agua não vai apagar tudo que eu vivi esse tempo todo , mais fica me lamentando não vai adiantar nada .
Depois que eu tomei um banho , eu fui pra cozinha ver o que tinha pra comer ,e não tinha muita coisa , e eu mesmo não querendo sair ,eu resolvi ir compra um lanche , e como o baile já começou , a lanchonete deve tá vazia essa hora , então vai ser rápido.
Depois que eu peguei o meu lanche , eu tava voltando pra casa quando eu vi a Milena ,ela tava andando pela rua como se tivesse perdida.
Davi - tá perdida?
Milena - pior que eu tô , a minha vó pediu dia mim ir na farmácia , e eu não sei volta .
Davi - eu te levo até a tua casa .
Eu fui andado com ela ,e a gente foi conversando ,e quando chegamos na casa dela ,ela perguntou se eu queria entra e eu disse que não, e ela disse que ia só entregar o remédio pra vó dela e voltava pra gente continuar conversando , e eu me sentei na calçada e fiquei esperado ela volta , e fica conversando com ela, e bem melhor do que ir pro baile .
continua . . .