Capítulo 5 – Felipe
Felipe narrando .
Eu sempre consigo tudo que eu quero , e não importa como, e sim que eu consigo.
Meu nome é Felipe, e eu sou filho e futuro sucessor do dono do morro , e eu não tenho um vulgo, porque eu quero que todos saibam o meu nome e tenham medo quando ouvirem ele. E eu já tenho isso, porque todos me temem aqui no morro . E é disso que eu gosto .
Desde pequeno eu aprendi que o medo é a moeda mais valiosa que existe. Dinheiro vem e vai, lealdade muda, amor é fraco. Mas o medo… o medo fica. Ele se instala no peito das pessoas e não sai nunca mais. Meu pai sempre disse isso, mesmo sem precisar falar. Eu aprendi observando . Observando quem ele mandava sumir. Observando quem abaixava a cabeça quando ele passava. Observando quem sorria de nervoso só de ouvir o nome dele .
Eu cresci entendendo que aquele mundo era meu por direito. Não porque eu pedi , mas porque ele sempre esteve ali , esperando por mim. Enquanto outras crianças brincavam de bola na rua, eu aprendia a diferenciar o som de um tiro de aviso e de um tiro pra matar. Enquanto outras mães ensinavam os filhos a dizer por favor , a minha me ensinava a nunca implorar por nada .
Aqui no morro, ninguém me chama de filhinho do chefe . Eles me chamam de Felipe. E só isso já basta. Basta pra gelar o sangue, basta pra fazer gente grande tremer, basta pra abrir caminho sem eu precisar levantar a voz. Porque quando eu falo baixo, todo mundo sabe que é pior.
Eu não gosto de bagunça desnecessária. Não gosto de gritaria, nem de gente se achando mais esperta do que realmente é. Aqui tudo funciona do meu jeito. Cada um no seu lugar, cada ordem cumprida sem pergunta. E quem pergunta demais, aprende rápido que curiosidade mata mais que bala.
Meu pai confia em mim. Não porque eu sou bonzinho, mas justamente porque eu não sou. Ele sabe que eu não penso duas vezes quando precisa fazer o que tem que ser feito. Eu não deixo emoção atrapalhar decisão. Emoção enfraquece. E fraqueza, aqui, custa caro .
Eu lembro da primeira vez que precisei provar quem eu era. Eu ainda era novo, mas já tinha gente cochichando, dizendo que eu era só um playboy do morro, que quando chegasse a hora eu não ia aguentar o peso. Eu ouvi tudo. Sempre ouço. E fiquei quieto. Porque quem fala demais revela o medo. Quem espera, vence.
Foi rápido. Um erro pequeno de alguém que achou que podia me testar. Eu não gritei, não ameacei. Só mandei chamar. Olhei nos olhos. Perguntei se ele achava que eu era fraco. Ele gaguejou. Gente que gagueja já perdeu. Eu dei a ordem. Simples assim. No outro dia, ninguém mais duvidava de nada.
Desde então, meu nome passou a circular diferente. Não era só respeito. Era receio. Era aquele silêncio pesado quando eu aparecia. E eu gosto disso. Gosto de sentir que controlo o ambiente só com a minha presença.
O morro é um tabuleiro, e eu sei mover cada peça. Sei quem é leal de verdade e quem só finge enquanto é conveniente. Sei quem sorri pra mim, mas me apunhalaria se tivesse chance. Esses são os mais perigosos. E os que eu observo com mais atenção.
Eu não confio em ninguém completamente. Nem mesmo em quem dorme sob o mesmo teto que eu. Confiança é um luxo que eu não posso me dar. Aqui, tudo é teste. Tudo é observação. Tudo é estratégia.
Tem gente que me chama de frio. Eu prefiro dizer que eu sou lúcido. Eu não ajo por impulso. Eu calculo. Eu antecipo. Eu penso três passos à frente. Enquanto os outros estão reagindo, eu já decidi o final.
E quando falam do futuro do morro, não falam em quando o pai do Felipe cair . Eles falam quando o Felipe assumir . Isso diz tudo.
Eu sei que tem quem me odeie. Sempre tem. Mas ódio também é uma forma de reconhecimento. Ninguém odeia quem não importa. E eu importo. Eu importo muito.
Às vezes eu observo tudo do alto. As casas amontoadas, as vielas apertadas, as pessoas correndo pra sobreviver. Esse lugar é duro, mas é meu. Cada esquina guarda uma história, um segredo, uma dívida. E eu conheço todas. Ou quase todas. As que eu ainda não conheço, eu descubro.
Não existe espaço pra ingenuidade aqui. Quem nasce no morro aprende cedo que o mundo não é justo. E quem quer mandar, precisa ser mais c***l do que o mundo foi com ele. Eu não pedi pra nascer nesse lugar, mas já que nasci, vou dominar cada pedaço dele.
Meu pai ainda está vivo, forte, respeitado. Mas o tempo não perdoa ninguém. E quando a hora chegar, não vai ter disputa. Não vai ter guerra interna. Não vai ter dúvida. Porque eu já sou o comando, mesmo sem o título oficial.
Eu não preciso levantar a voz. Não preciso provar nada o tempo todo. Meu nome já faz isso por mim.
E se você ouvir esse nome ecoando pelo morro, saiba de uma coisa:
não é um aviso.
É a certeza de que eu já decidi o seu destino.
continua . . . .