Zander Pepper
Estou na cozinha enchendo um copo com água para Arthur que está imóvel a alguns minutos no nosso sofá, ele parece perdido em seus pensamentos, não falou mais nada desde que disse que seu pai tinha falecido, pelo que parece a mãe apenas jogou essa informação sobre ele e lhe deu o endereço do hospital onde ainda estão e onde vão preparar o corpo para o enterro, o copo já está com a água, mas continuo no mesmo lugar, apenas encarando ele sentado e quieto do outro lado da sala, no momento não posso nem sonhar com o que se passa em sua cabeça, ele parou de chorar e apenas mantém uma expressão fechada e pensativa, sinceramente estou com medo do que pode estar passando por sua cabeça.
Ando a passos pequeno e me sento ao seu lado no sofá, ele nem ao menos se mexe, lhe estendo o copo e Arthur apenas n**a com a cabeça. Isso está me matando, preciso que ele fale, que coloque para fora o que está sentindo. Quando estou pronto para falar com ele o celular em meu bolso começa a tocar, desvio meus olhos dele e pego o celular, olhando a tela vejo que Paulinho está me ligando, com um suspiro me levanto e sigo para a cozinha, atendendo a ligação.
— Oi meu amor. — Ele diz muito animado.
— Oi Paulinho.
— Você está bem? Sua voz está um pouco estranha.
— Eu estou bem na medida do possível, mas Arthur não sei ao certo em que pé estamos, ele acabou de receber uma notícia terrível, não sei o que se passa na cabeça dele.
— Poxa, pensei em chamar os dois para um encontro duplo, mas acho melhor que você cuide do seu namorado. — Fecho meus olhos com força.
— É, não seria uma boa ideia sair nesse momento, não ainda o que Arthur pretende fazer com a notícia que recebeu, ele perdeu alguém que não foi legal com ele durante toda sua vida, acho que ele está dividido. Perdeu o pai, mas o homem foi o mostro de seus piores pesadelos.
— Nossa, ele deve estar enfrentando uma barra bem pesada, deve ser difícil dele lidar com isso. Ele deve estar bem confuso com tudo isso.
— Sim, e eu não faço a mínima ideia do que fazer com ele.
— Você vai encontrar uma forma de ajudar, você sempre encontra, apenas esteja ao lado dele nesse momento, uma hora ele vai se abrir e colocar tudo para fora.
— Ele já chorou, mas agora não diz ou faz nada, apenas encara o além como se esperando uma resposta.
— Ele deve estar em choque, esse homem o fez sofrer, mas ainda é o pai dele, é normal que ele esteja confuso com seus sentimentos, o abrace forte e o conforte, ele vai ter que conviver com a perda, mas vai ficar bem.
— Ok meu bem, obrigado pelas palavras, você sempre aparecendo quando eu preciso. — Escuto seu riso baixo do outro lada e sorrio.
— Você sempre me ajuda também, sempre me dar os melhores conselhos e abraços, assim como eu posso contar com você, você pode contar comigo, eu te amo meu irmão, tenho certeza que logo vocês estrão bem.
— Obrigada maninho, te amo.
Ele desliga o celular e volto para a sala, sento-me ao lado de Arthur e começo um carinho em seus cabelos.
— Sei que pode querer ficar sozinho nesse momento, pode estar se sentindo confuso com seus sentimentos. — Ele ainda continua a olhar para o nada. — Mas amor, tudo bem você estar triste, isso não anula o fato de que ele foi um dos maiores causadores de dor a você, ele ainda era seu pai, apesar dos erros que cometeu contra você, apesar de todo m*l, você pode chorar por estar perdendo seu pai, e ficar feliz por se livrar do meu maior pesadelo, está tudo bem. — Eu mesmo tenho lágrimas em meus olhos quando ele finalmente me olha com seus olhos repletos de lágrimas, suas bochechas vermelhas e molhadas. O puxo para junto de mim e o abraço com força enquanto ele chora.
— Eu não queria que acabasse assim.
— Eu sei que não, vai ficar tudo bem, eu estou com você, não vou sair nunca do seu lado.
O acalento por minutos a fio, até que ele decide ir ao hospital e ter seu último momento com seu pai.
Arthur Allbertilli
Encaro os corredores todos em branco enquanto sinto a mão quente de Zander na minha, acho que ele é o único motivo de eu estar são. Desde que recebi a notícia fiquei muito confuso com meus sentimentos, me perguntei se era certo ficar feliz por finalmente ter a liberdade que sempre sonhei, sabendo que ele não poderia mais tentar nada contra mim ou contra quem eu amo, e me perguntei se era certo estar triste por ele, por ele estar morto, ele me fez tanto m*l, me maltratou, humilhou, me ensinou a ser um homem a qual não me orgulho, me bateu quando deveria me amar, me fez ter medo dele quando eu deveria sentir amor e orgulho por chama-lo de pai. Estou ainda muito confuso, mas resolvi vir até ele e me despedir, não quero levar nenhum tipo de arrependimento depois.
Ando mais alguns passos e finalmente dou de cara com minha mãe, está sentada sozinha em dos bancos na sala de espera, quando paro em sua frente ela levanta os olhos e os vejo vermelho pelo choro, sempre me perguntei se era um casamento onde o amor os tinha unido, mas agora vejo que apenas da parte dela tinha amor, ele nunca demostrou isso a ninguém a sua volta.
— Filho... — Ela se levanta da cadeira e está pronta para me tomar em seus braços, sei que nesse momento ela procura por conforto e estou pronto para dá isso a ela, mas suas ações param ao notar quem está ao meu lado. — O que ele está fazendo aqui? — Pergunta com aparente nojo em sua voz e expressão.
— Por favor mãe, vamos apenas nos despedir daquele homem, não comece agora, por favor. — Ela me olha com seus olhos marejados.
— Aquele homem? Como pode se referir ao seu pai desse jeito, ele o pôs no mundo. — Já não sei se fiz o certo ao vir até aqui.
— Isso mesmo, ele apenas me fez o favor de me colocar nesse mundo, mas nunca foi um pai de verdade, quando deveria me amar, apenas bateu e machucou, me ensinou como ser agressivo e um homem da pior espécie, então não vamos fazer dele um bom moço apenas porque ele morreu. — Sinto o tapa arder em meu rosto quando sua mão acerta minha face em cheio. Zander me puxa para junto dele e minha querida mamãe nos olha com ainda mais raiva.
— Tenha mais respeito no leito de morte do seu pai Arthur, não lhe ensinamos a nos responder assim. — Apenas respiro fundo, cansado.
— Foi uma péssima ideia ter vindo, apenas me conte o que aconteceu com ele. — Ela desvia seus olhos dos meus e volta a sentar na cadeira.
— Ele descobriu um câncer muito avançado, começou a quimio a alguns meses, mas nada dava resultado, ele apenas aceitou isso, então hoje o câncer o levou. Não tinha mais nada que os médicos pudessem fazer.
— Como eu não fiquei sabendo disso antes? — Pergunto.
— Você foi embora Arthur, nos abandonou, como queria que nos falássemos para você sobre isso?
— Eu não os abandonei, vocês fizeram isso comigo a muito mais tempo. — Tento não chorar, seguro as lágrimas até o fim, não vou me mostrar tão fraco na frente dela, não nesse momento. — Quando será o enterro.
— Hoje, à tarde.
— Ótimo, estarei lá. — Lhe dou as costas e puxo Zander comigo, mas antes que eu me afaste, ela ainda fala.
— Arthur, tudo que seu pai fez foi para o seu bem, ele só queria que você vivesse bem. — Mordo meus lábios com força.
— Olhe para tudo o que vivi e me diga você se eu tive uma vida boa, aquilo não era viver bem, era viver preso, com medo das ações dele contra mim. Mas isso já não importa mais. Estou melhor longe de vocês.
Saio dali quase sem ar em meus pulmões, tenho dificuldade para respirar, meu coração parece estar prestes a sair pela minha boca de tão rápido que ele bate, estou exausto, muito exausto, já não aguento mais levar tanta coisa assim, m*l sair de uma notícia c***l para cair em outra, será que nunca terei um dia de paz? Apenas vinte e quatro horas sem que meu mundo desmorone sobre minha cabeça, é só isso que peço, um dia, apenas um dia sendo completamente feliz ao lado do homem que eu amo.
Quando volto a mim é que me dou conta que estou nos braços de Zander, ele me abraça apertado enquanto fala palavras de conforto em meu ouvido, eu definitivamente não mereço ter ele em minha vida, ele chegou e transformou tudo ao meu redor, eu m*l posso lembrar do homem que fui antes dele, será que mereço toda essa felicidade que é ter ele? Talvez essa minha pergunta já tenha sido respondida com as tragédias que acarretam meus dias cheio de caos.
— Vamos para casa. — Ele diz baixinho, pegando a chave do meu carro ele destrava o mesmo e me coloca no banco do passageiro, ele toma o volante e deito minha cabeça contra o vidro, vou durante todo o caminho apenas observando o movimento ao nosso redor, me dando conta do quão pequeno sou em comparação a tudo isso.
Quando chegamos em casa em apenas deito sobre o sofá, Zander por hora me deixa quieto enquanto prepara nosso almoço, fico apenas pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, vai entender, quando ele me chama para comer, vou mesmo não sentindo fome, não quero deixar ele mais preocupado do que aparenta estar comigo, como quase que forçado, não aguento nem mesmo por água em minha boca, mas o faço mesmo assim, preciso me manter forte para ver o caixão descer no buraco.
Terminado nosso almoço, eu me deito sobre a cama.
— Vai deitar-se novamente? Não quer assistir a um filme comigo? — Zander ainda tenta, mas realmente só quero ficar quieto nesse momento.
— Quero descansar mais um pouco, você pode ver sem mim. — Respondo, minha voz sai com um pouco de dificuldade pelo pequeno longo tempo que fiquei sem a usar.
— Tudo bem, vou ficar com você.
Me deito de lado e pouco segundos depois o sinto atrás de mim, ele me abraça e me sinto confortável com isso, posso até mesmo sentir o sono chegando mais rápido, durmo, pois quero que esse dia termine logo.
Horas depois estou vestido num terno preto, adequado para a situação, Zander quem dirige novamente, enquanto eu apenas foco minha visão na paisagem fora da janela, não demora muito para que o carro pare e eu veja os grandes portões do cemitério, me sobe um arrepio, mas deixo isso de lado e saio do carro, vendo Zander sair e parar ao meu lado, ele veste um jeans preto com uma camisa social na mesma cor, e sapatos na mesma cor.
— Está preparado? — Ele pergunta, segurando firme em minha mão.
— Nem um pouco, mas vamos lá.
Andamos por alguns minutos até avistar minha mãe num vestido preto em frente a um caixão bem chique e com flores sobre ele, respiro fundo e ando até o lado da minha mãe, o padre está falando algo a qual não presto atenção, tem bem umas dez pessoas ao redor, todas muito bem-vestidas e enxugando lágrimas que eu julgo serem falsas, reconheço alguns rostos sendo sócios do meu pai.
Foco apenas na mão de Zander na minha, pelo menos mamãe não gritou ao ver ele ao meu lado.
As palavras do padre sessam, e o caixão desce, sinto um leve aperto em meu peito por estar perdendo-o e os momentos que gostaria de ter vivido ao seu lado, que agora serão tarde demais para que eu possa ao menos sonhar em viver. Mamãe joga uma flor e um pouco de terra sobre o caixão, eu faço o mesmo, me demorando em dizer algumas palavras de despedida.
— Oi pai, tenho certeza de que não gostaria que eu estivesse aqui, não com meu namorado, — sorrio fraco. — Sim, Zander, um homem trans é o meu namorado, eu fiquei muito dividido se deveria chorar de tristeza ou alívio, mas eu chorei pelos dois, pode te perder e por ficar finalmente livre do seu fantasma, estarei enterrando junto de você, o Arthur que você criou para mim ser. — Continuo a falar baixinho, apenas para que ele me escute. — Espero que da onde quer que você esteja, que me escute, e pelo menos se arrependa de tudo que me fez, irei te perdoar, mas nunca irei esquecer do pai que você não foi para mim, das suas ofensas, de todos os seus tapas, irei me casar com aquele cara extraordinário que estar a poucos passos atrás de mim, eu terei filhos e irei ensinar a eles o que é ser correto, irei dar todo o amor que você nunca me deu. Eu irei viver bem, irei ser feliz, muito feliz. — Sinto uma lágrima descer por minha bochecha. — Adeus papai, eu te amei muito, muito mesmo, mas você acabou com esse amor, e agora estou acabando com toda influencia que você tinha sobre mim, eu não lhe pertenço mais, você será apenas uma lembrança r**m em toda minha história, adeus.
Lhe viro as costas e com meu amor ao meu lado eu vou embora sem olhar para trás, irei começar uma vida sem a sombra do que ele foi para mim, eu irei ser o Arthur que eu sempre quis ser, o real Arthur, sem a moldura r**m que papai colocou sobre mim.