Zander Pepper
Me sinto meio grogue, uma luz forte faz meus olhos doerem quando tento abri-los, os fechos rapidamente e tento me lembrar onde estou e porque minha cabeça doe tanto, estou perdido, mas a dor em meu peito insiste em permanecer, é dilacerante, ainda mais quando lembro do estado em que Paulo chegou aqui, as máquinas ao meu redor começam a apitar, tenho certeza que por causa do meu coração acelerado querendo sair de dentro do peito.
Ainda de olhos fechados os apertos mais, não querendo acreditar que isso seja verdade, não quero chorar novamente, quero que me deem a notícia de que tudo não passou de um engano, que ele ainda está respirando. É só isso o que eu peço, que seja mentira, por favor que seja mentira.
Sinto um aperto quente em minha mão, o que é bem-vindo, eu conheço esse toque, queria gritar para Arthur me abraçar com força e tirar essa dor de mim, mas apenas soluços e gritos sufocados saem da minha garganta. Escuto vozes alteradas e logo outras mãos seguram os meus braços, esses toques não são bem-vindo, o que faz eu me debater ainda mais sobre a cama, e finalmente quando tento abrir meus olhos eu os sinto pesado.
— Paulo.
Então caio na escuridão novamente.
Sinto o ar fresco em meus cabelos, o que me faz sorrir, o cheiro da água salgada me fez abrir os olhos e enxergar aquela imensidão azul a minha frente, tem coisas no mundo que são um mistério de tão lindas, me faz questionar o cuidado desse tal criador, se ele existe, em criar algo tão belo e quase que infinito, o cheiro, o horizonte, a cor, as ondas quebrando, é lindo, maravilhoso ao mesmo tempo que pode ser fatal. Me deito sobre a areia e encaro o céu, está brilhante, sem nuvens, apenas o sol quente em toda sua glória, até sinto meu rosto esquentar e os olhos arderem de tão brilhante que está.
Sinto minhas mãos adentrarem na areia ao meu lado, ela está um pouco molhada, é até que geladinho em contraste com o sol em meu rosto.
— Vem Zander, vamos entrar.
Escuto sua voz, e como em flash tudo vem em minha memória, me levanto, procurando em direção de onde sua voz veio, e lá está ele, com um sorriso mais quente que o sol em cima da minha cabeça, mordo meus lábios impedindo que o choro sofrido saia, ele acena em minha direção, sua camisa e shorts brancos fica lindo em contraste com seu rosto que ainda tem o sorriso quente para mim. Deixo que as lágrimas saiam e me permito chorar por tudo, pela sua perda, levanto meus joelhos e com as mãos sobre eles eu deito minha testa em meu braço, enquanto vejo as gotas das lágrimas caírem sobre a areia.
Sinto sua uma mão quente e macia sobre meu ombro, o que me faz levantar o rosto, quando o vejo ali, sentado ao meu lado olhando o mar com seu rosto sereno, me pergunto se é apenas algo fruto da minha imaginação, sonhado com ele por causa de sua ausência.
— Está tudo bem chorar, sei que sente minha falta. — Ele sorri todo convencido olhando para mim.
— Como pode brincar com isso?
— Se não falarmos com leveza, como vamos falar? Deixar tudo ainda mais pesado para os que ficaram carregar? Eu não queria que terminasse assim, mas infelizmente foi assim que aconteceu, só resta para aqueles que ficou aceitarem e aprenderem a conviver com a minha falta.
— Não sei se algum dia eu vou ser capaz de superar ou esquecer, de seguir em frente.
Ele sorri e um puxa para um abraço, beija meus cabelos e depois se afasta.
— Nunca nada será igual novamente, você não vai esquecer, não vai superar, você vai aprender a conviver com a saudade, você vai sorrir, rir, gargalhar, ser feliz, mas tudo bem quando sentir saudades e tiver vontade de chorar, chore, coloque esse sentimento para fora para depois voltar a sorrir novamente, é um ciclo, você não vai ficar triste para sempre, nem vai ter momentos felizes sempre. Entende? — Enxugo as poucas lágrimas que ainda caiam e encaro seu rosto, sua expressão é serena, ele parece calmo e conformado.
— Acho que entendo.
— Que bom, porque você tem uma vida longa pela frente, tem o Arthur agora, nunca estará sozinho.
— É, eu o tenho agora.
— Ele faz bem a você, te ama, cuida, nunca sai do seu lado, te apoia em tudo. Acho que você encontrou o seu final feliz. — Abaixo a cabeça triste.
— Que não vai ter você nele. — Ele sorri, seus olhos brilhando.
— E quem disse que eu não vou estar lá? — Olho para ele confuso, ele rir da minha cara. — Estarei em suas memórias, no seu coração, em cada cantinho da sua casa que eu já fui, estarei com você, no sofá, assistindo aos nossos filmes juntinhos enquanto comemos uma deliciosa pipoca, estarei com você em cada uma dessas memórias que construímos juntos, não importa se mude os moveis ou até mesmo mude de casa, minha marca estará para sempre gravada em seus corações. Pois você me amou assim como eu te amei, quando é verdadeiro, nada no mudo apaga ou separa, estaremos juntos para sempre!
Meu coração fica aquecido com essas palavras, meus olhos nem se falam, já derramam mais lágrimas, ouvir essas palavras dele não diminui a dor de sua perda, mas acalma meu coração, me deixa tranquilo e me sinto forte para enfrentar tudo, até mesmo sua ausência.
— Ah, por favor, continue ao lado de Diogo, ele vai sofrer nesse primeiro momento, mas logo ele vai se reencontrar, vai amar novamente, ele terá alguém que vai cuidar dele, eu fico tranquilo com isso, saber que ainda vai existir muito amor na vida dele, que alguém vai continuar o que comecei, dar um amor genuíno e verdadeiro ao meu Diogo. Não fale nada sobre isso com ele, apenas diga que eu o amei e continuo amando, não tem por que prolongar o sofrimento dele, que quero que ele continue sorrindo, amando, vivendo, nosso tempo infelizmente acabou, mas sei que ele será bem cuidado.
— Não vou abandonar ele, ele faz parte da família desde o primeiro dia que se tornou seu namorado, e ele vai continuar fazendo parte dela até quando ele quiser.
— Ótimo. — Ele segura minha mão entre a dele. O sorriso que ele me dar guardarei até os últimos dias de minha vida. — Continue, continue vivendo, amando, trabalhando, sorrindo, eu estarei lá em cada um desses momentos, em cada nova conquista, a cada novo ciclo da sua vida.
— Promete?
— É claro meu amor. Agora tenho que ir, nosso momento junto acabou. Eu te amo, não esquece, tá bom?
— Eu também te amo. — Ele segura meu rosto entre suas mãos e beija minha testa, meus olhos se fecham automaticamente.
Quando acordo sinto de novo aquela claridade horrível em meus olhos, o fazendo arder. Solto um suspiro quando finalmente consigo manter eles abertos, olho para o lado e Arthur está pertinho de mim, me olhando com seus olhos brilhosos.
— Você acordou. Se sente bem? Sinto muito que tenhamos te dopado contra sua vontade, mas era preciso. — Lhe dirijo um sorriso pequeno.
— Tudo bem.
— Eu sinto muito. Por tudo. — Balanço minha cabeça em positivo, apertando sua mão contra a minha com força, os olhos deles se enchem de lágrimas e os meus também. Mas mantenho o sorriso, por mais que ele seja pequeno e meu coração esteja em pedaços.
— Vai ficar tudo bem, tive a chance de me despedir dele. — Ele me olha confuso e me ajuda a levantar quando tento me sentar na cama de hospital, ele se senta ao meu lado, sua mão ainda grudada na minha.
— Como assim? — Ele parece realmente não entender o que quero dizer.
— Eu o vi pela última vez, com vida, ele parecia conformado, ele estava bem, me disse palavras de conforto, não quero pensar agora que tudo não passou de um sonho da minha cabeça sonhadora, tendo um último lampejo de loucura para aceitar que eu o perdi para sempre. — Arthur enxuga minhas lágrimas e sorri para mim.
— Eu acho que ele realmente veio para ver você, tudo bem acreditar e ter fé nisso, eu acredito em você. Estou com você. — Aceno, e com um pouco de receio, pergunte a ele.
— Já liberaram o corpo para o enterro?
— Sim, vai ser hoje a tarde, você passou a noite dormindo desde que acordou da primeira vez. — Apenas assinto.
— Ei, vou estar com você a todo momento. Não vou soltar sua mão nunca. — Sorrio enquanto seguro sua mão entre as minhas.
— Eu sei disso, eu te amo.
— Eu também te amo muito meu amor.
Algumas horas depois
Depois de ter alta do hospital, Arthur me levou para casa, soube lá que Diogo também já tinha saído do hospital com os pais dele, ele deve estar arrasado nesse momento, sinto a dor dele, então tenho uma pequena dimensão do tamanho de seus sentimentos nesse momento.
Acabo de tomar um banho e vou em busca de uma roupa adequada para o enterro, depois de estar vestido em roupas sociais pretas eu vou em direção a sala, Arthur se encontrava com as mesmas vestes, tinha se arrumado primeiro. Ele está sentado no sofá, não me vê em pé ali na entrada da sala, com um suspiro pego meu celular em meu bolso e encaro nossa última foto juntos, onde posso ver seu sorriso lindo, foi no jantar entre nós quatro, não me recordo se foi aqui em casa ou não de Arthur, estávamos tão felizes, nos quatro juntos, sorrisos e gargalhadas para todo o lado, ainda mais por causa das palhaçadas dele, nunca irei me acostumar com esse silencio sem ele em minha vida.
— Você está pronto. — Arthur está parado a minha frente e quando nota o que estou olhando no celular ele sorri.
— Foi um dos dias mais felizes da minha vida, ele era como uma força incontrolável. — Ele rir. — Não consegue ficar muito tempo quieto, sempre tinha que falar algo, muito me impressiona ele assistir um filme inteiro sem abrir a boca. — Eu sorrio encarando a foto.
— Ele sempre foi assim, muitas vezes ele foi meu sol em dias nublados.
— E ele sempre vai ser, é só lembrar dos sorrisos dele para você.
— Sim. — Arthur me toma em seus braços e deito minha cabeça em seus ombros, me sinto acolhido e bem aqui, dentro do abraço dele, estava precisando disso.
Chegamos ao local do enterro, tinha poucas pessoas, meu amigo tinha vários colegas, eu podia ver alguns deles, eu passava e recebia abraços e pêsames, acho que todos que faziam parte da vida dele me conhecia, ele fazia questão de me levar como um chaveirinho.
Assim que estava a poucos passos de seu caixão, o aperto no peito me deixou sem ar, mas ver Diogo em um terno branco assim como notei meu amigo estar eu não aguentei as lágrimas, ele estava fazendo o que não teve a chance de ser feito, as roupas remetiam ao casamento dos dois que nunca chegaria a acontecer, meu amigo sempre sonhou em ter algo especial, mas não teve a oportunidade de viver isso. Arthur segura meu corpo contra o dele, pois sinto que posso ir ao chão, ao me aproximar, a mãe de Paulo me nota e me abraça apertado, dizendo o quanto me ama e agradece por eu sempre ter estado ao lado de seu filho.
— Mamãe não pode vir, estava em uma viajem de negócios, ele disse que em breve irá visitar você. — A senhora sorri para mim apesar dos olhos vermelhos.
— Ela será bem-vinda, obrigada por tudo querido, por favor, aparece em nossa casa sempre que possível, não desapareça de nossas vidas.
— Claro. — Ela me abraça uma última vez e vai para o lado do marido, ele parece bastante abalado também, me abraça rapidamente e volta a segurar a esposa.
Arthur me guia para perto de Diogo, quando ele percebe minha presença, sai dos braços da mãe e me abraça. Desabando novamente, nós dois choramos no ombro um do outro.
— Tudo bem, ele te ama. Ele te ama muito. — Sussurro em seu ouvido, seus soluços aumentam e ele me aperta mais ainda. — Eu gostei muito da roupa de vocês, eu finalmente pude presenciar meu amigo em seu terno de casamento. Obrigado por ter cuidado dele tão bem, por ter amado ele.
— Você também o amou e ama muito, obrigado por isso. — Ele se solta de mim e enxugo suas lágrimas. — Sei que agora pode estar sendo difícil, mas não esquece que ele te ama e sempre vai querer ver você sorrindo, tudo bem passar pelo luto, tudo bem chorar quando sentir falta dele, mas continue vivendo e sendo feliz. Pode fazer isso? tanto por ele quanto por você.
— Eu posso tentar.
O padre começa todo seu discurso, falando palavras de conforto.
Encaro seu rosto pálido, sem a cor que costumava ser, sem o sorriso, o caixão vai descendo aos poucos, sinto o frio tomar conta do meu corpo, me sentindo tão vazio de repente, Arthur me abraça e desvio meus olhos da cena.
— Quero ir para casa. — Falo contra seu peito.
— Tudo bem.
Noto um pequeno alvoroço e Arthur fala baixinho que Diogo também está sendo retirado do local pelos pais. Quando Arthur me puxa olho rapidamente para trás e apenas vejo alguns homens jogando a terra no buraco, meu peito doí tanto que sinto como se tivesse uma faca cega ali dentro.
— Estou com você meu amor. Eu te amo. — Escuto Arthur dizer.
— Adeus Paulinho.