Capítulo 12

1989 Words
Arthur Allbertilli Os dias estão passando de pressa, desde que eu e Zander começamos uma relação, já tem se passado uma semana do nosso primeiro beijo, apesar de nossas rotinas serem bem corridas, por passamos mais tempo no hospital que em casa, tiramos sempre um tempo para um ir ao apartamento do outro, onde fazemos muitas coisas juntos, assistimos, ficamos no sofá jogando conversa fora, nos beijando e conhecendo o corpo um do outro, descobrindo nossos limites e testando coisas novas, mas tem uns dias que noto Zander meio pensativo, como se ele tivesse algo para me falar, mas ao mesmo tempo não sabe se seria o certo. É louco pensar que o conheço tão bem, apesar dos poucos dias convivência sei muito bem seus gostos, sei que ama músicas antigas brasileiras, ama animais, apesar de nunca ter tido um bichinho, ama ver todos a sua volta felizes, muito espontâneo, da mesma forma que é centrado e sério, é brincalhão e alegre, ama ver vídeos de panda na internet é quase nunca chora com filmes de romance tristes, mas odeia ver qualquer pessoa ou animal sendo maltratado que ele desaba em um choro sofrido, é duro na queda, mas sensível quando se trata de ter empatia. Bem, eu o conheço muito mesmo, por isso digo com toda propriedade que ele me esconde algo, e temo não gostar muito do que isso seja. — Está distraído. — Ele fala, beijando minha bochecha, estamos lado a lado no espaçoso sofá de sua casa, ele com sua cabeça em meu ombro enquanto assistimos um filme. — Estava pensando em algumas coisas. — Olho para ele, beijo seus lábios com carinho e ele sorri, voltando a deitar em meu ombro e prestar atenção na televisão. Sinto uma paz enorme apenas em poder viver momentos assim, uma coisa simples como sentar no sofá e assistir um filme juntos me tem com o coração acelerado e o sentimento de paz e esperança tomando todo meu corpo, me sinto como uma animal que vivia em cativeiro e agora está reaprendendo a viver na natureza novamente, sinto que nunca pude sentir esse gostinho de liberdade, antes eu não tinha voz, era apenas um boneco nas mãos dos meus pais, eles faziam o que bem entendessem com a minha vida, mas depois de todos esses anos apenas conhecendo aquela vida, eu tive voz pela primeira vez e conseguir dar um pequeno passo, sair de casa, conseguir sair de dentro do meu maior pesadelo, ainda sinto muito medo do meu pai, medo de que todo esse tempo que ele tem se mantido em silencio esteja planejando uma armadilha para que eu volte a viver em cativeiro. — Preciso te contar algo. — Depois do que pareceram horas em que nos dois estávamos em silencio, Zander volta a falar, o que ele acabou de dizer já me deixa com o coração batendo forte, temendo ser algo r**m. — Eu percebi você distante nesses últimos dias, tivemos dias incríveis onde conhecemos um ao outro, mesmo você estando comigo, percebia que algumas vezes você parecia estar em outro lugar. — Ele diz, sentado no sofá de frente para mim, que faço o mesmo, ficando frente a frente com ele. Ele morde os lábios parecendo nervoso, Zander pega minha mão e a segura firme entre nós dois, olhando em meus olhos. — Sua mãe me procurou a alguns dias no hospital, logo depois que nos acertamos e nos beijamos. — Meus olhos se arregalam e meu corpo treme, eu realmente pensei que seria capaz de ir contra eles? Nesse momento me sinto incapaz de proteger a pessoa que vem se transformando na mais importante em minha vida. — Como? Eu não consigo entender. Tão rápido, ela foi te procurar um dia depois que nos beijamos, como ela poderia saber que estamos envolvidos? — Me sinto nervoso, minhas mãos suando só de pensar no que eles estariam fazendo para ter essas informações. — O que ela falou? — Pergunto apertando sua mão na minha. — Ela disse que era para eu me afastar de você, que pensa que seu pai vai fazer algo que te machuque. — Fecho os meus olhos com força, orando para alguma divindade que não deixe ele se aproximar de mim nunca mais. — Eu fiquei com medo, Arhur, não por mim, mas por você, tenho medo de que realmente o seu pai tente algo. — Volto a olhar para ele, vendo seus olhos tristes, me pergunto se o mereço, depois de tudo que fiz, ter alguém que se preocupa comigo dessa forma, eu não mereço, não mereço nada de bom que possa vir dele, nem de ninguém. — Me desculpe por colocar você nisso. — Digo baixando minha cabeça, me sentindo envergonhado. — Você não tem culpa meu amor, não tem culpa dos seus pais serem quem são. — Diz ele tocando meu rosto, fecho os olhos recebendo seu carinho. — A verdade é que eu consegui sim sair de casa, consegui me desprender deles dessa forma, saindo de casa, mas temo te fazer sofrer em não puder enfrentar eles caso isso volte a se repetir, não sei o que fazer caso fique de frente com eles novamente, eu não sei. — Sinto meus olhos cheios de lágrimas, queria ser mais forte, queria poder lutar por mim, por nós, mas não sei como fazer isso, sempre fui ensinado com violecia, sem amor, pensei até que não saberia amar, mas Zander está me mostrando como esse sentimento é lindo, e quando o recebemos de forma simples e sem maldade, somos capazes de retornar ele de maneira pura, Zander deposita seu amor, sua confiança em mim, eu o recebo e guardo da maneira que posso, assim ele vai crescendo, se modificando, e posso devolver a ele ainda mais de maneira mais linda. — Arthur, não pense assim, eu sei muito bem me defender, entendo seus medos, seus traumas, pelo que posso perceber, cresceu numa família que acha que a violência resolve tudo, cresceu com pais homofobicos, não pôde ser você mesmo por muito tempo, hoje pela primeira vez tem experimentado essa liberdade, eu posso te compreender, juntos vamos arrumar um jeito de vencer seus pais, eles não vão conseguir separar nos dois. — Encaro seus olhos, sentindo meu peito se apertar. — Eu fiz muito m*l ao meu ex-namorado. — Começo a falar, desvio os olhos do dele, temendo o que vou ver ali ao terminar meu relato. — Hoje tenho noção que o que fiz não tem haver com os meus pais, eu fiz o que fiz porque sou r**m, assim como eles, eu só tive tempo de decidir não ser mais assim e tentar mudar. — Arthur... — Ela tenta me tocar, mas me levanto, ficando de costas para ele e começando a chorar, pela primeira vez eu ia colocar tudo isso para fora, iria sair da minha boca tudo o que fiz a um ser humano lindo, maravilhoso, que não merecia sofrer daquela forma. — Ele foi o primeiro homem pela qual eu senti alguma coisa, eu diria que cheguei a gostar dele, era uma atração, alguma coisa me puxava para ele, mas papai nunca aceitaria uma coisa desses, ele nunca aceitaria nem mesmo que eu explorasse esses sentimentos, mas decidi explorar mesmo assim, fui atrás de Alec, me envolvi com ele, namorei ele, fiz ele ter sentimentos por mim, ele me amou, do jeito dele, simples, sem cobranças, nos encontrávamos as escondidas, mas senti que isso estava indo longe demais, o que era para me descobrir coisas novas, estava ficando sério, cada vez mais eu queria mais, fosse dele ou de outros, temi que papai descobrisse isso, então fiz a pior coisa que alguém pudesse fazer para com outra pessoa, temendo que papai descobrisse que eu gostava daquilo, eu filmei nos dois em nosso momento intimo, e expus isso a toda faculdade, — Rio cheio de deboche. — Não sei onde estava com a cabeça, em meus pensamentos loucos, seu expôs-se isso dessa forma, iam pensar que era uma brincadeira para rirem da cara de mais um viado, achei que assim papai acharia que eu estava apenas tirando com a cara desse tipo de gente, eu transei com ele, isso me fazia ser gay certo? Mas se fosse por uma brincadeira, tudo bem, isso não me fazia gay. — Arthur, você estava com medo. — Escuto sua voz atrás de mim. Ele parece decidido. — Foi o que você cresceu aprendendo. Eu não vou passar a m*l em sua cabeça e dizer que não tem culpa, mas não vou crucificar você, você se arrependeu, está buscando melhorar, está buscando perdão, então digo a você, busque seu próprio perdão, se perdoe, e seja feliz, de preferência ao meu lado. — Ele vem para a minha frente e sorri para mim. — Não vou deixar você se é isso que teme, estarei ao seu lado, presenciando cada pequena mudança sua. — Ele segura minha mão e sorri. — Me permita ficar ao seu lado e te ajudar com cada pequeno passo. — Ele enxuga minhas lágrimas. — O homem, o Arthur que eu conheço agora, é amoroso, gentil, preocupado com todos a sua volta, o Arthur de agora teve coragem de enfrentar seus pais e sair de casa. Você não é o mesmo garoto ingênuo de antes, agora você reconhece cada passo que deu errado, está disposto a não ser mais assim, então não vou largar sua mão agora, vou te ajudar a seguir mais firme nesse seu novo eu. — O pego pelo braço e o puxo para mais perto, beijo sua testa e sorrio, mesmo que meus olhos estejam vermelhos. — Você é incrível, como pode ter tanta confiança em mim? Isso me faz querer ser cada vez melhor. — Ele deita a cabeça em meu peito e beijo seus cabelos, sentindo o cheiro delicioso vindo dele. — Do que você precisa? — Ele me pergunta. O olho confuso, afastando sua cabeça do meu peito, mas ainda o mantendo perto. — Como assim? — Do que precisa para finalmente deixar tudo isso para trás? Você sente que falta algo para que possa finalmente seguir em frente? — Ele me guia para sentar-se no sofá e se senta em meu colo, as duas pernas em cada lado da minha cintura. O que eu quero para finalmente deixar tudo isso para trás? Uma vez fui em busca de Alec quando soube de sua doença, isso faz muito tempo, nesse exato momento deve estar casado e com um filho, soube muito depois que esperava um bebê e que adotou duas crianças, eu realmente estava feliz em saber que ele estava vivendo bem, estava feliz e tem uma família grande para o amar. Eu quero falar com Alec, não quero ouvir dele que me perdoe, seu marido disse uma vez e sei que é verdade, Alec é bom demais até mesmo para me odiar, quero conversar com ele, quero saber se tivemos um bebe, esses sonhos que tive, que hoje não tenho mais, quero tirar esse peso de vez da minha cabeça, quero ter a certeza se fui eu a causa da morte do meu bebe, até porque sei que Alec não ganhou um bebe, não vivo pelo menos, então quero ouvir de sua boca se isso é verdade ou não passa do meu subconsciente tentando me punir. Olho para Zander ainda meu colo. — Gostaria de ter uma conversa definitiva com Alec. Perguntar algumas coisas, talvez assim eu tenha alguma paz pelo resto da minha vida, se eu tiver algumas respostas para minhas perguntas. — Digo me sentindo medo do que ele pode achar disso. Meu pequeno homem beija o cantinho da minha boca, beija meus lábios num beijo gostoso e cheio de sentimentos. — Eu estarei com você lá, segurarei sua mão até onde me permitir ir. — Suas palavras me enchem de esperança, finalmente posso contar com alguém.
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