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2103 Words
Christopher  Depois de me prenderem por todo o resto do dia, me deixaram sair quando o sol já estava se pondo, já que Thomas, por algum motivo, resolveu que não iria prestar queixa contra mim. O que ele pretendia com aquilo? Qual era o seu joguinho? Eu ficaria atento.  Tudo o que eu queria era chegar em casa, tirar os meus sapatos e tomar um banho longo e frio. Estava com as mesmas roupas desde de manhã e me sentia bem desconfortável com o suor que acumulei durante o dia.  Quando abri a porta do meu apartamento, vi que meus planos de relaxar em paz não seriam concretizados. Senti um cheiro de ensopado bem temperado, provavelmente ainda cozinhando. Fui até a cozinha e vi Dulce de costas, mexendo a panela, descalça, o cabelo preso num coque desalinhado e usando uma de minhas camisas que caía sobre seu short curto.  — Alfonso me disse que você ia sair e eu resolvi preparar o jantar. Deve estar muito cansado para isso. — falou sorrindo. Eu queria mandá-la embora, mas aquele maldito sorriso somado à essa gentileza me amoleceram.  — Eu vou tomar banho. — falei mantendo o rosto sério. Não queria dar o braço a torcer com ela.  Só para me certificar de que ela não me tentaria, deixei a porta do banheiro trancada. Enquanto a água caía sobre mim, pensei em tudo o que vinha acontecendo e principalmente no sermão que Alfonso me deu quando eu liguei para ele e avisei que estava preso.  "Ela não ama você. Pare de se arriscar por ela!"  Eu deveria mesmo parar. Deveria parar com tudo aquilo. Essa noite, eu trataria a Dulce com o máximo de neutralidade possível. Ainda não teria coragem de dizer que não quero mais t*****r com ela, mas acho que a minha indiferença vai ser o suficiente para fazê-la não avançar em mim. E mesmo se ela usasse o sexo para me persuadir, eu seria forte. Me sentia mais forte do que jamais fui. Vesti uma calça de moletom e uma camiseta preta. Penteei meus cabelos para trás e retornei à cozinha, onde ela já estava servindo o ensopado em dois pratos à mesa. Sentei em uma das cadeiras e comecei a comer sem esperar que ela se sentasse também. Eu vi como ela me olhou séria quando eu fiz isso.  — Se sente bem? — perguntou, sentando na cadeira ao meu lado.  — Sim. — respondi sem olhá-la.  — Eu sei que ainda está bravo comigo, mas eu não quero que as coisas continuem assim. Não sei mais o que dizer ou fazer para que me perdoe. — pousou sua mão sobre minha perna e eu arfei involuntariamente. — Eu sinto muito. — Não sinta. Eu já disse, você faz o que quiser. — dei de ombros.  — Então, tudo bem entre nós?  — Sim.  — Mesmo?  — Sim.  — E por que você não olha pra mim? — parei de comer por um instante e levantei meu olhar para o rosto dela.  — Estou olhando.  Ficamos nos encarando e eu notei algo nela que nunca havia visto antes. Seus olhos estavam marejados, a pele abaixo deles avermelhada como se ela tivesse esfregado demais. Ela me observava com um peso que eu nunca senti vir dela antes e sua expressão era quase dolorosa, não de uma dor física, mas uma dor sentimental. Dulce estava aparentemente preocupada e triste.  — Você comeu hoje? — perguntei.  — Sim.  — De verdade?  — Eu comi o café da manhã que fez para mim e almocei também. Comi um lanche à tarde, só uma salada de frutas. Eu te falei que tentaria melhorar.  — Isso é bom. E o psicólogo?  — Eu fiz uma pesquisa hoje e encontrei alguém que parece ser muito bom na área. Acho que vou ficar bem.  — Ótimo.  — E você comeu alguma coisa na delegacia?  — A comida de lá é triste, mas o Poncho comprou algo para mim, graças a Deus.  — Que bom que não te seguraram por mais de um dia.  — Isso que é estranho. Por que o Thomas não daria queixa de mim? Eu arrebentei ele de verdade, o cara m*l conseguia ficar de pé quando a ambulância veio buscá-lo.  — O que isso importa? Pelo menos ele não fez a denúncia e você está aqui. — sorriu de lado.  — Ainda assim, eu vou ficar atento. Não acho que ele deixaria isso pra lá sem querer nada em troca.  Continuamos a jantar e conversar sobre coisas superficiais, nada muito desconfortável ou animador. Ela até tentou chegar mais perto de mim, fazer piadas sobre eu ter quase virado um presidiário e também tentou me beijar algumas vezes, mas eu evitei todo esse tipo de coisa. E cada vez que eu ficava indiferente, ela baixava os ombros e olhava para o seu prato desanimada.  Lavamos a louça juntos, dessa vez em completo silêncio e depois eu fui para a sala, sendo seguido por ela, que sentou ao meu lado no sofá e se aconchegou para pertinho de mim, enlaçando seu braço ao meu.  — O que vamos assistir? — seus grandes olhos castanhos me encararam com um brilho de esperança e por um breve momento, eu me vi caindo nos seus encantos.  — É melhor você ir para casa. — falei firme.  — Christopher, por favor... — aproximou seus lábios do meu ouvido e um arrepio percorreu meu corpo. — Não vamos mais guardar sentimentos amargos, ok? — seus dedos dançaram pelo meu peito e algo em minha calça insistiu em se animar. — Me diz o que quer que eu faça que eu faço.  — Eu... — tomei fôlego, fechando os meus olhos e contando até dez mentalmente. — Quero que você vá embora. — juntei toda a força que tinha para dizer aquilo. Dulce afastou-se de mim e seu semblante ficou sério.  — Por que? — sua voz saiu um tanto quanto brava.  — Porque eu quero ficar sozinho.  — Você disse que estava tudo bem entre nós. — seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu estou tentando ser melhor, vou me preocupar mais comigo e não vou mais usar o meu corpo pra ganhar as coisas. Por que não pode me perdoar e seguir em frente?  — Eu vou seguir em frente, Dulce. — aquela frase foi o suficiente para que ela entendesse.  — Não... — a primeira lágrima desceu por seu rosto e ela ficou boquiaberta. — Nós somos amigos. — E vamos continuar sendo. Mas agora eu quero ser só seu amigo, sem P.A. E eu acho que eu não preciso te explicar os motivos disso. — Mas... — apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu seu rosto com as mãos. — Estava tudo indo bem, nós ficamos bem na fazenda, foi um final de semana ótimo, eu achei que tínhamos nos conectado e que nada abalaria o que aquilo! — agora ela estava aos prantos. — Isso já está abalado há muito tempo. — tentei manter o controle. Alguém tinha que estar no controle agora. — Eu não queria te dizer isso agora, mas vejo que não há como esperar. Dulce, se você não vai ficar comigo e só comigo, eu não quero mais dormir com você. Isso me machuca. — segurei seu rosto entre minhas mãos para que ela me olhasse. — Consegue entender?  — S-sim... — aquela resposta se arrastou para sair, eu notei isso.  — Ainda somos amigos. Melhores amigos. Eu vou estar com você sempre que precisar de mim e principalmente agora que começará a tratar o seu problema. — usei meus polegares para enxugar o rosto dela. — Eu te amo.  Seus soluços aumentaram, ela apertou os olhos e um mar de lágrimas inundou seu rosto. Ela entornou minha cintura com seus braços e encostou a cabeça em meu peito, chorando como uma criança. Eu a abracei contra mim e beijei o topo de sua cabeça, tentando ser forte para não chorar também.  Não imaginei que ela teria aquela reação. Na verdade, eu tinha total certeza de que Dulce ficaria furiosa e tentaria me seduzir, t*****r comigo e me fazer mudar de ideia na base da luxúria. Mas ela não fez isso. Era tão importante assim para ela t*****r comigo? Por que ela se abalaria tanto assim se pode conseguir o homem que quiser por uma noite? Não dava para entender.  Gostar de mim estava fora de cogitação, já que se fosse o caso, ela simplesmente aceitaria ser a minha namorada e nós ficaríamos bem. Como ela mesma disse, estava mudando. Talvez eu ainda tivesse que aprender a decifrar essas mudanças.  Quando ela parou de chorar, continuamos abraçados e eu acariciei seu cabelo até sentir seu corpo amolecer contra o meu. Dulce dormia como um anjo, encaixada perfeitamente ao meu corpo, num toque que eu não queria desfazer, mas deveria.  Eu pensei em levá-la para a minha cama, deixá-la dormir lá e deitar ao seu lado. Também pensei que seria melhor que eu dormisse no sofá enquanto ela estava em meu quarto. Mas a opção mais sensata agora era levá-la para o seu próprio apartamento.  Deixei a porta dela aberta para facilitar a passagem e retornei para o meu apartamento, onde a deixei dormindo no sofá. A peguei no colo e enfim caminhei com cuidado para não acorda-la, até deita-la suavemente sobre sua cama, cobri-la com o cobertor, dar-lhe um beijo de boa noite em sua testa e me certificar de trancar tudo antes de sair.  Eu deveria me sentir livre agora, como se um peso tivesse sido tirado de minhas costas, mas não era assim que eu me sentia. Foi como terminar de ler uma história que me prendeu por anos, como ter que me despedir de uma parte da minha vida que eu adorava, que me fazia feliz e com a qual eu aprendi a sentir prazeres únicos. Há males que vêm para o bem, as pessoas dizem.  Olhei para os arredores da minha cama, meu corpo procurando o dela, os primeiros efeitos de uma abstinência de Dulce me atingindo. Desistir dela era estranho, difícil, mas necessário. Sempre quis me casar e formar uma família e perdi tempo demais esperando por alguém que nunca teve interesse em compartilhar uma vida ao meu lado. Ela nunca quis compartilhar nada com ninguém. O próximo passo para mim era seguir em frente e me permitir amar outra pessoa.  {...} A temporada de primavera começou no dia seguinte e eu optei por me hospedar em um hotel que ficava ao lado do evento. Era melhor dar um tempo longe de Dulce, manter contato apenas por celular, para saber se ela estava comendo e se estava se sentindo bem.  Preparei a minha mochila e avisei tudo para ela durante um café da manhã em sua casa. Apesar de tê-la deixado lá dormindo na noite anterior, suas olheiras mostravam uma noite em claro.  — E você só volta no fim da temporada? — perguntou após tomar um gole de seu café. — São só alguns dias, logo estarei aqui. — Dulce apenas assentiu. — Você acordou durante a noite? — Sim. Por um momento, eu achei que estava dormindo com você e te procurei na cama. — sorriu sem jeito. — Foi difícil pegar no sono depois. — baixou o olhar.  — Dulce, você está bem?  — Estou. — respirou fundo. — A vida segue, não é? — forçou um sorriso maior. — Também vou estar trabalhando nessa primavera, na parte do estúdio, então não vou estar totalmente sozinha. Espero que Maite Perroni seja legal.  — Achei que esperava que ela não seja uma vaca. — eu ri.  — Também. — deu de ombros.  — Tenho que ir. Fiquei de dar uma carona para a Carla. — fiquei de pé.  — Carla? Ela vai? — franziu a testa.  — Ela é a minha assistente. — disse o óbvio.  — E ela vai ficar no hotel?  — Vai. Num quarto ao lado do meu. Vai ser minha nova vizinha. — sorri. — Quem sabe ela não bata na minha porta pedindo uma xícara de açúcar e depois me peça para ser o P.A. dela? — brinquei dando risada, mas parei quando vi Dulce muito séria.  — Tem que ter culhões pra isso. — concentrou-se em seu café. — Acima de tudo, tem que ter culhões para substituir Dulce Maria. — jogou os cabelos para trás.  — É claro. — eu sorri. — Te ligo depois. — beijei sua testa. — Tchau. — Tchau.  Então eu segui em frente no meu primeiro dia de uma vida sem a tentação Saviñon.
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