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2251 Words
Dulce Eu e Annie nos encontramos no estacionamento do shopping e já partimos para as nossas compras. Foi um dia agradável e divertido, onde nós escolhemos tudo juntas, sempre dando palpites uma para a outra e eu até irritei ela às vezes com a minha sinceridade. O que ela queria? Que eu deixasse ela andar feia na rua?  Estávamos numa loja de roupas de banho olhando alguns biquínis e quando Annie foi até o provador, eu fiquei olhando os modelos. De longe, avistei uma garota que aparentava ter seus quinze anos, olhando de forma ansiosa para um biquíni preto de veludo. Seus olhos mostravam desejo e tristeza.  — Tudo bem? — perguntei me aproximando dela.  — Sim. — sorriu instantaneamente.  — Esse biquíni é lindo. — apontei para o mesmo. — Vai ficar muito bom em você.  — Sério? — ela olhou para baixo, mais precisamente para a sua barriga, que ela tentava esconder com o moletom. — A minha mãe diz que eu sou gorda demais e deveria fazer uma dieta, ou usar roupas que não mostrem o corpo.  — O que? — fiquei levemente boquiaberta. Isso despertou um gatilho em mim e sensações do meu passado se fizeram presentes. — Sua mãe fala isso sobre o seu corpo?  — É... — desviou o olhar constrangida.  Eu a olhei de cima a baixo. Ela não era magrinha, na verdade, tinha um bom volume no corpo, mas isso não a impedia de ser linda. As bochechinhas redondas a deixavam muito fofa, como uma boneca. Era triste ver que ela não se via assim.  — Você é linda, pode usar a roupa que quiser.  — Você é modelo, não é? Te reconheço das revistas. — me olhou curiosa. — Que tipo de dieta você faz?  — Eu... — não sabia bem como responder aquilo. — Não posso te dar dicas de dieta, querida. Não sou médica e você é só uma adolescente, não precisa se preocupar com o corpo.  — Mas você gosta de ser magra, não gosta?  — Eu sou modelo, isso não é uma escolha. — fiquei séria.  — Deve ser legal ser modelo. — seu rosto se entristeceu ainda mais.  — Existem diversas áreas nesse ramo hoje em dia e vários padrões estão sendo desconstruídos. Dependendo de onde você queira trabalhar, não precisa ser super magra ou se encaixar num padrão impossível para o seu corpo. A beleza é relativa e a moda começou a entender isso. Eu tenho que ser um pouco mais magra porque o lugar onde eu trabalho ainda exige isso.  — E tudo bem pra você? — "não", pensei.  — Sim. — sorri. — Eu estou bem. — peguei o cabide com o biquíni que ela olhava e entreguei para ela. — Experimenta. Aposto que vai gostar. Você é linda e não se sinta menos do que perfeita. — acariciei seu rostinho e ela corou enquanto sorria.  — Obrigada. A garota se afastou até o provador bem mais animada do que quando a encontrei. Suspirei satisfeita e ao mesmo tempo, fiquei preocupada com o que ela poderia passar em casa.  Eu não gostava muito de lembrar de certas coisas da minha vida, mas conversando com essa garota foi impossível não recordar o modo como a minha mãe me tratava. Blanca era modelo, assim como sou agora. Teve que abandonar sua carreira depois de engravidar e ser deixada sozinha. Ela nunca me disse quem era meu pai e eu não ousei perguntar mais de uma vez, já que recebi uma bela surra por minha curiosidade.  Preocupada com tudo o que evolvesse estética, ela odiou ter sido "amaldiçoada" com uma criança rechonchuda. Sim, ela dizia que eu e meu corpo gorduroso éramos uma maldição. Dizia que havia puxado essa genética da minha família paterna, já que todos os Saviñon's tinham portes físicos naturalmente atléticos. E mesmo que meu rosto fosse idêntico ao dela, ela se recusava a aceitar que éramos parecidas. Era terrível para ela ser comparada com uma criança feia.  Sei que minha pressão estética teve origem nisso. Minha mãe me deferiu apelidos gordofóbicos durante toda a minha infância e adolescência. Me fez odiar o meu corpo, me fez achar que jamais seria bonita e por causa disso, eu nunca consegui me sentir satisfeita com quem eu sou. E apesar da balança me mostrar uma coisa, eu via outra totalmente diferente no espelho. Ainda me enxergava como aquela garotinha gorda e feia que tanto me pintaram.  Quando eu revelei que desejava ser modelo, minha mãe riu de mim, desacreditou da minha capacidade e mais uma vez deixou claro que meu corpo era feio, que eu parecia uma porca prestes a explodir e que eu seria incapaz de entrar numa dieta, já que comia sempre com compulsão.  Ainda como com compulsão sempre que fico ansiosa, um hábito que tenho desde sempre, algo que alivia meus nervos. A diferença é que agora eu coloco a comida para fora, para que eu não engorde. No início da minha carreira, eu até tentei ter uma dieta saudável e acompanhada por médicos, mas estas pareciam não funcionar ou demoravam demais para mostrar seus efeitos.  Me sentindo cada dia mais insatisfeita e deprimida com minhas medidas, eu comecei a ter hábitos bulímicos, apesar de me negar a aceitar que possuía tal doença. Eu poderia parar quando quisesse, assim esperava.  — Dulce? — despertei dos meus pensamentos ao ouvir Annie me chamar. — O que foi? Se sente bem? — tocou meu braço.  — Sim, só estava pensativa.  — Pensando em que?  — Não te interessa, Barbie. — fui ríspida. Ela suspirou e revirou os olhos.  — Já escolheu? Eu quero comer, estou morta de fome!  — Vai comer aqueles lanches de fast food? — fiz uma careta. — É desse jeito que quer estar numa passarela? Não vai durar um ano!  — Caramba, para de ser crítica só por um dia! — reclamou. — Onde aprendeu a ser assim?  — Só quero o seu bem. — e foi só eu dizer essa frase que outro gatilho se estalou em mim.  {...} Flashback - Dulce aos 11 anos. Era o primeiro dia de aula e eu queria estar impecável. Eu não tinha muitos amigos, as outras crianças me achavam meio grossa, mas eu só era sincera demais. Fui criada por pessoas que sempre me falavam a verdade, por mais c***l que fosse. Então eu aprendi a dizer o que eu queria, para quem quisesse.  Esse ano eu tentaria ser mais delicada, talvez usando um pouco de maquiagem para ficar mais bonita. Peguei algumas das coisas da minha mãe e me maquiei de forma leve, para não parecer uma palhaça. Sorri para o espelho satisfeita com o resultado e então eu vi a sombra de alguém na porta do meu quarto.  — Quem disse que você podia mexer nas minhas coisas? — minha mãe berrou furiosa.  — Desculpe... eu... eu queria ir bonita hoje... é o primeiro dia. — declarei já com a voz trêmula.  — Bonita? — gargalhou. — Com essas bochechas enormes? Você parece um ogro! — mirei o chão, sentindo meu coração em pedaços. — Quer chamar atenção? Eles vão rir de você, vão fazer bullying, te fazer de chacota! O melhor que você pode fazer é se esconder. — pegou um lenço umedecido e agachou-se perto de mim. — Não quero ser chamada na escola porque a porca da minha filha apanhou de alguém melhor que ela. — esfregou o lenço em meus lábios com brutalidade, me causando ardência. — Tira essa merda do rosto e não pegue mais minhas coisas! — jogou o lenço sujo de batom em meu colo.  — Mas... eu... — minhas lágrimas desceram por meu rosto, dolorosas e pesadas.  — Só quero o seu bem.  Flashback off.  {...} — Desculpa. — fechei meus olhos e respirei fundo. — Pode comer o que quiser, Annie. Eu sei que você não exageraria.  — É, está tudo bem. — me olhou com curiosidade. — Não vai mesmo falar que vou ficar com gorduras localizadas ou estrias?  — Não. Tudo bem. Você sempre cuidou bem do seu corpo, sabe o que está fazendo quando come um x-burguer.  — Isso aí! — sorriu parecendo desacreditada. — Você está mudando ou é impressão minha?  — Estou sendo sincera como sempre fui.  — Mas agora parece que está medindo as suas palavras, pedindo desculpas... eu nunca te ouvi pedir desculpas.  — A gente já pode ir? Não achei nada do meu interesse aqui. — desconversei.  — Claro, vamos lá no caixa pagar o que eu escolhi.  Quando estávamos na fila, eu avistei a garota com quem falei anteriormente. Ela estava com uma mulher mais velha, provavelmente a mãe dela. Observei de longe o modo como as duas conversavam e isso me incomodou muito. A mulher parecia rígida, apontando o dedo no rosto da menina enquanto segurava o biquíni que eu a incentivei a pegar.  — Licença. — falei para Annie e comecei a caminhar na direção delas.  — Isso vai ficar horrível em você! — a mãe gritou. — No que está pensando? Vai parecer um balão amarrado em fitas!  — Ei! — chamei a atenção das duas. — Não pode falar assim com a sua filha!  — Como é? — a mulher arqueou a sobrancelha.  — Dulce! — Anahi veio até mim. — O que está fazendo?  — Dizendo para essa mulher que ela não pode tratar a filha dela assim! — constatei o óbvio.  — E quem você pensa que é? — a mulher com o olhar irritado parou bem na minha frente.  — Alguém que não falaria desse jeito com uma garotinha! — aproximei-me também.  — Cuide da sua vida! — me deu um leve empurrão com o peito.  — Olha aqui, sua vaca, você se acha melhor? Com essa cara enrugada que mais parece ter sido rebocada por cimento ao invés de uma base? Aquela garota é linda e não merece uma v***a como você a deixando m*l!  As pessoas em volta pararam para olhar a confusão, a menina olhava para nós em pânico, assim como Anahi, que me pedia com o olhar para parar com aquilo. Já a mãe da garota, ficou vermelha, cada vez mais furiosa com minhas palavras.  — Vai se ferrar! Não pode me dizer o que fazer, eu nem te conheço! — me empurrou de novo.  — Eu posso fazer o que eu quiser! — a empurrei de volta.  Ela me olhou incrédula e já veio partir para cima de mim, porém foi impedida por algumas pessoas. Eu tentei me aproximar de novo, mas Anahi agarrou meu braço e tirou forças não sei de onde para conseguir me arrastar até o lado de fora da loja.  — Está querendo apanhar? — gritou comigo, ainda me segurando. — O que deu em você?  — Viu o modo como ela tratava a própria filha? Você queria que eu ficasse quieta?  — Dulce, ninguém pode fazer nada. Elas vão voltar juntas para casa e não vai ser uma estranha num shopping que vai mudar o relacionamento que elas têm! O máximo que você iria conseguir era um olho roxo!  — Acha que eu não bateria nela? Eu bem queria arrancar aquele aplique m*l feito da cabeça daquela bruxa!  — Olha o que você está fazendo! Quer defender a imagem da garota atacando a imagem da mãe dela! Isso não ajuda ninguém! Não se combate fogo com fogo! — Era para eu pedir "por favor"? — gargalhei sarcasticamente.  — Tenho certeza que só a irritou ainda mais e que talvez ela desconte na menina. — fiquei quieta e preocupei-me. — Eu sei que queria fazer a coisa certa, mas essas coisas devem ser pensadas com cuidado e não deve agir por impulso. — relaxou o tom de voz.  — E o que eu deveria fazer? Ficar de braços cruzados?  — Também não é assim! Mas você tem imagem, tem voz. Usa a sua voz para incentivar as pessoas a serem mais gentis quando se trata da imagem dos outros. Mas é claro que antes disso, você precisa aprender a ser melhor também.  — Do que está falando? — franzi a testa.  — O que você acha da Carla?  — Aquela duende horrenda que é apaixonada pelo meu P.A.? — abri a boca para começar a deferir críticas e então, depois de um olhar sério de Annie, eu parei e me dei conta do que estava fazendo. — Entendi.  — Não são só as pessoas acima do peso que sofrem pressão estética. — eu assenti devagar. — Trata a Carla melhor.  — Mas...  — Eu sei que você tem ciúmes do Christopher. — me interrompeu.  — Não. Ele pode ficar com quem ele quiser.  — Até com a Carla?  — Ele nunca ficaria com ela!  — Por que?  — Porque ela é fe... — parei de falar. Anahi cruzou os braços e me olhou com repreensão. — Merda.  — Antes de reeducar o mundo, você precisa se reeducar. — fiquei quieta, muito séria e me sentindo desconfortável. — Vamos para a praça de alimentação. — estendeu-me sua mão.  A minha mente bagunçada estava entrando em pane agora. Nunca parei para pensar em uma pressão estética que ia além dos gordos. Eu sabia que a maioria das pessoas não gostava da própria aparência, mas nunca pensei no fato de existir muito mais problemas do que os que eu tinha enfrentado ao longo da minha vida. Foi a primeira vez que eu aceitei que estava vivendo dentro de uma bolha.
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