Éramos muitos. Mais do que os meus sentidos conseguiam percepcionar. Caminhando docilmente através das brumas da noite, ninguém se atrevia a desviar o olhar. Sabíamos, de um modo intrínseco, que não o podíamos fazer. Lenta e ordenadamente, limitávamos-nos a elaborar passadas certas e pequenas, numa fila que se perdia tenebrosamente nos confins negros que os desígnios da noite desenhavam. Tudo o que tínhamos para nos iluminar residia na luz doentia e fantasmagórica que emanava da lua. Ninguém falava. Somente se ouvia o som dos nossos passos, enterrando-se continuadamente na grossa areia da paisagem. Tão lentos e rítmicos que chegavam a causar uma angústia aguda de nos retirar o ar dos pulmões. Mesmo que quisesse, não conseguiria gritar.
À medida que marchávamos, pensei para mim mesmo por que razão estava neste quadro. Não fazia sentido. Contudo, sentia também o espírito repleto de uma compreensão atordoante. Senti a necessidade de fazer algo. Se continuasse a seguir esta manada dócil e silenciosa estaria condenado. Inerentemente reflectido na minha alma, estava a ideia concreta de que o nosso destino era algo de hediondo. Algo que nem a própria imaginação humana seria capaz de conceber. Assim, por que não tentar libertar-me? Deveria fazer como os outros e aceitar humildemente o que o final desta viagem prometia? Estariam todos cegos, ou pelo contrário, seria eu o único louco deste cortejo? Aventurei-me a fazer o que ninguém fazia. Levantei a face e vislumbrei o que se encontrava à minha volta.
Apercebi-me rapidamente que estava numa fila composta somente por homens. Olhando de relance para o meu lado direito, através de um gradeamento que desenhava um sinistro corredor metálico, vi outra fila. Uma outra procissão, esta constituída por mulheres. Continuava porém sem entender por que é que me encontrava neste local insólito. Estranhei também o facto de não ver uma única criança em ambas as filas.
Estudei depois os longos campos de areia banhados pelo luar quimérico. Não vi vivalma. Ninguém nos vigiava. Somente os nossos passos eram audíveis. Nem um simples sussurro vindo de um de nós, como se tivéssemos as cordas vocais presas por uma força macabra e doentia. Mais uma vez, tentei remar contra a corrente. Sibilando por cima do ombro do homem que seguia à minha frente, perguntei por que estávamos a andar. Este não respondeu. Não deu sequer sinais de ter ouvido a minha interrogação, permanecendo na sua marcha distante e monocórdica. Desisti. Olhei depois para trás, mantendo porém o mesmo ritmo articulado por esta fila utópica. Os homens que estavam nas minhas costas continuaram com uma expressão toldada e dura, como se teimosamente não reparassem em alguém que destoava no meio do cortejo. Fiz um gesto de reconhecimento, mas este não foi retribuído. Apesar de estar rodeado por aquilo que não sabia se seriam centenas ou milhares de pessoas, nunca me senti tão só. Queria gritar, mas continuava a sentir os meus pulmões cheios de algo que não ar. Por mais que os enchesse, não conseguia gritar.
Sabendo que se permanecesse neste quadro pavoroso enlouqueceria, decidi que era obrigado a tentar algo. Sabia agora que era imperativo não seguir esta procissão maldita. Se me recusava a ser como eles durante todo o percurso, por que razão havíamos nós de partilhar o mesmo destino? Com um passo hesitante, porém meticuloso, saí da fila em que me encontrava e aproximei-me ligeiramente da vedação metálica que me impedia de alcançar o horizonte desértico e tranquilo, cujo reflexo da lua parecia torná-lo num longo mar prateado.
Olhando de soslaio, reparei que a procissão continuava a mover-se, completamente indiferente às minhas acções. Durante fugazes segundos, cheguei mesmo a interrogar-me se alguém me conseguia ver ou ouvir. Num r***o de loucura, quis gritar bem alto para confirmar se a minha presença era notada. Mais uma vez, apercebi-me rapidamente que continuava sem o poder fazer. Continuava com os pulmões repletos de algo que não ar.
Fazendo os possíveis por ignorar essa sensação aberrante que me consumia o corpo e o próprio espírito, voltei a concentrar as minhas atenções na vedação que se erguia perante mim. Toquei-lhe levemente. Parecia ser suficientemente sólida para a conseguir t****r. Abanei-a um pouco mais vigorosamente. Sim. Seria capaz de transpor este muro de grades com cerca de três metros. Olhei por cima do ombro uma última vez. Todo esse conjunto horripilante de autómatos mantinha-se concentrado no seu destino. Assim, totalmente decidido, coloquei o pé numa das reentrâncias da vedação e elevei-me. Rápido como um felino, repeti o mesmo processo várias vezes. Quando cheguei ao topo, atirei-me com um pulo vitorioso para o lado de lá.
Satisfeito, olhei para o horizonte - agora prometedor - com que a minha vista se deparava. Tentava decidir-me se seguia para um conjunto de sublimes dunas, ou se descia até a uma vasta planície. Todavia, fui subitamente assaltado por uma sensação peculiar e desagradável. O silêncio que imperava neste local desolado tornara-se muito mais esmagador. Virei-me repentinamente e percebi imediatamente porquê. Eles deixaram de andar. As duas procissões, compostas por homens e mulheres que eu duvidava agora serem humanos, permaneciam quietos. Todos eles. Todas aquelas faces estavam agora voltadas para mim. Ninguém dizia uma palavra. Limitavam-se a fitar-me com os seus inexpressivos olhos negros, rodeados de escuridão e penumbras.
Bastante intimidado com essa visão aterradora, permaneci igualmente quieto. Não sabia o que fazer. Pensei mesmo em voltar para a procissão, fazer com que tudo voltasse à normalidade. Começava a não suportar todos esses olhos malignos cravados em mim. Contudo, deste lado a vedação parecia muito mais imponente. Era agora intransponível. Eu tinha dado um salto sem retorno. Acabara de chegar a essa conclusão, quando se deu algo que me transtornou a alma mais do que simples palavras podem descrever.
Um grito.
O mais arrepiante grito que alguma vez ouvira. A sua fonte provinha de uma das muitas mulheres que estavam do lado de lá da vedação. Depois, foram várias as figuras que se apressaram a imitar o gesto dela. Os gritos multiplicaram-se assustadoramente. Continham em si uma porção tão pura e enorme de terror, que quando dei por mim tinha os joelhos enterrados na areia. Tentava cobrir os ouvidos com as minhas mãos que tremiam convulsivamente. Não eram apenas os gritos. Era também o modo pavoroso de como todos eles, sem uma única excepção, se encontravam virados na minha direcção. Ninguém esboçava o mais leve gesto. Simplesmente gritavam com os seus tons arranhados, assim como mantinham os seus obscuros olhos fixos em mim. Não paravam para respirar. Simplesmente gritavam sem cessar, sem nada que os demovesse desse acto.
Quando as vozes eram tantas que se sobrepunham umas às outras, deixei de as conseguir distinguir. Já não existia princípio ou fim. Tornaram-se num grito uniforme e monstruoso, que se erguia das brumas da noite como um demónio se ergue das profundezas dos infernos. Notei os meus movimentos gradualmente entorpecidos. Senti que se me demorasse neste panorama hediondo que se havia desenhado perante mim, perderia para todo o sempre as minhas capacidades para fugir; para me libertar de uma vez por todas. Assim, com um esforço hercúleo, voltei-me. Voltei as costas àqueles que me julgavam, que tentavam amedrontar-me, que me instigavam ajuntar-se-lhes novamente.
O que vi depois no horizonte deixou-me tão perturbado, que senti as minhas pernas a ceder novamente. Nitidamente desenhadas contra a opiácea luminosidade que a lua proporcionava, estavam as mais aterradoras figuras que eu jamais havia visto. Durante escassos momentos, deduzi que tivessem vindo das dunas. Contudo, vislumbrei mais dois desses vultos a surgirem
tenebrosamente da própria terra, como se de água se tratasse. Esta não se movia. Indiferente ao que se movimentava por baixo de si, a areia não esboçava qualquer gesto quando estas figuras em forma de sombras surgiam do seu interior. Eram agora mais de quinze, os vultos inumanos e silenciosos que se encaminhavam na minha direcção.
Soube imediatamente que estava perdido. A ausência de gritos das procissões atrás de mim dizia-mo. Estas voltaram à normalidade, caminhando, serpenteando tranquilamente pela noite fora. Agora que os vultos haviam chegado, não existiam razões para mais preocupações. Porém, eu não deixaria que simplesmente me agarrassem com as suas garras sombrias. Dei uma volta sobre mim mesmo e larguei a correr, tentando contrariar a sorte que me esperava. As figuras guardavam as dunas e a vasta planície, portanto corri na mesma direcção do cortejo adormecido, embora do lado de fora da vedação. Quanto mais corria, mais notava os meus movimentos trôpegos e desajeitados. A areia dificultava a minha fuga, como se a própria natureza estivesse contra mim. Olhei por cima do ombro. Os vultos horrendos planavam tranquilamente na minha direcção. Tentando freneticamente escapar, vi-me cada vez mais enterrado em areia, mas não desisti. Cerrei os olhos devido à força que fazia e tentei gritar. Contudo, não o consegui fazer. Tinha algo dentro dos pulmões que não ar.
Com uma energia que não sonhava sequer possuir, continuei nesta maratona demente e exaustiva. Levantei a face. Reparei num exíguo declive que dava acesso a um pequeno desfiladeiro. Instintivamente, sabia que era até lá que tinha de chegar. Se me mantivesse neste campo aberto, seria rapidamente alcançado pelos sinistros predadores que estavam no meu encalço. Arquejando e no limite das minhas forças, continuei a calcar a grossa areia que me prendia os pés. Não tinha já coragem de olhar para trás. Sentia-os cada vez mais perto. Uma aura demoníaca parecia agora querer tomar conta do local. Precisava de fugir. Um passo, outro passo, outro passo - outro passo. Sentia as suas garras feitas de sombras a roçarem nos meus ombros. Quis gritar mas não conseguia. Com a vista já turva devido ao pânico e ao cansaço, olhei mais uma vez para as rochas que estavam agora próximas. Distingui imediatamente um buraco apertado e íngreme que se desenhava entre elas. Com um último suspiro corri para lá.
No momento em que os sentia já agarrarem o meu tronco, consegui atirar-me para essa passagem. Caí cerca de cinco metros, sem a mais pálida noção do espaço à minha volta. Estava agora dentro de água. Nadei para a tona e olhei para cima ao mesmo tempo que tossia com o líquido que engolira. Tinha achado uma câmara que se escondia entre as rochas. Os vultos não me seguiram até aqui. Nunca soube se por os ter despistado, ou porque desistiram deliberadamente de o fazer.
Nadei toscamente até uma das rochas deste lago subterrâneo e sentei-me nesta. Voltei a olhar para cima. Impossível sair por lá. Era demasiado alto, e mesmo que fosse possível, eles poderiam estar lá à espera. Estudei novamente a situação e voltei a mergulhar na água. Descobri então que não estava numa câmara, mas sim numa antecâmara. Existia um túnel estreito e submerso nestas águas límpidas. Embora com algum receio, sabia que tinha de nadar através dele. Era a minha única saída, caso contrário ficaria preso neste local para sempre. Olhei para cima uma última vez e rezei mentalmente. Depois, com o coração a palpitar de apreensão, inspirei bem fundo e mergulhei em direcção ao túnel. Por sorte, este não era muito longo. Teria somente quinze metros. Quando detectei um espaço novamente amplo, nadei imediatamente para a sua tona. Senti que aqui a água estava amena e confortável. Notei também que quando coloquei finalmente a cabeça de fora, o meu maxilar inferior descaiu.
A mais bela e terna divisão que alguma vez havia visto desenhava-se perante os meus olhos atónitos. Alguém vivia aqui. Num espaço granítico de dez por dez metros, encontrava-se uma grande mesa de madeira com uma toalha e comida sobre esta. Do lado esquerdo da câmara, descansava também uma cama que segurava uns lençóis e almofadas macios. Por fim, do lado direito da divisão, erguia-se uma estante com várias prateleiras. Estas continham vários objectos. Ainda desconcertado com esta descoberta, aproximei-me de uma das paredes da sala. A única que deixava passar a luz do luar, através de dois discretos orifícios rectangulares e de forma vertical. Ao espreitar, não podia acreditar no que a minha visão tentava transmitir. Nada fazia sentido. Eu tinha a perfeita noção de ter saltado para um buraco que ficava a cerca de cinco metros debaixo do solo. Contudo, ao espreitar por entre as janelas de granito, era como se estivesse no topo de uma enorme torre. Conseguia ver claramente as duas procissões. Vi também qual era o seu destino. Depois, com um aperto no estômago, detectei também os vultos que me procuravam, planando tenebrosamente sobre a areia prateada do deserto.
Afastei-me prontamente das reentrâncias que me permitiam olhar para o exterior. Voltei a estudar, agora com mais atenção, esta peculiar divisão que, sem dúvida, estaria afinal abandonada. Aproximei-me da mesa e sentei-me. Hesitante, peguei num pouco de pão e provei a carne. Inexplicavelmente, eu conhecia bem este sabor, este aroma familiar que me despertou imediatamente uma sensação estranhíssima. Comi tudo o que estava na mesa e nunca me sentira tão feliz. Levantei-me e vi que a mesa já estava pronta para outra refeição, recheada dos mais variados pratos e bebidas.
Confuso, fui pesquisar atentamente as prateleiras que estavam do lado direito da mesa. Foi aqui que me lembrei. Foi aqui que fui subitamente invadido de pseudomemórias que em tudo desafiavam a lógica humana. Incapaz de o suportar, caí de joelhos num misto de alegria e tristeza. Chorava sem saber porquê. Talvez fosse o alívio da compreensão, ou simplesmente o poder nostálgico das recordações que aqui descansavam. Espalhados pelas prateleiras, encontravam-se os símbolos da minha vida, desde a infância até à idade adulta. Os presentes mais significativos dos meus Pais, oferecidos quando eu era ainda uma criança. O meu anel de casamento. Os cartões do Dia do Pai oferecidos pelo meu filho.
Subitamente soube onde estava, finalmente compreendia. Tudo o que aqui estava fazia parte da minha vida. A comida era os pratos da minha Mãe e da minha Mulher. Os pertences das prateleiras eram meus. Até a cama era a minha. Limpei as lágrimas da minha face, retornei até junto da janela e inspirei bem fundo. Voltei a olhar para o cortejo que seguia docilmente para o horizonte. Finalmente percebia. Voltei a ver os vultos. Sabia agora que mais tarde ou mais cedo iriam encontrar-me. Provavelmente até sabiam já onde me encontrava. Decidiram porventura oferecer-me esta benesse. Eu partilharia o mesmo destino dos outros. A única diferença é que eu sabia qual era destino, assim como iria para lá de livre vontade. O destino não era o relevante. O que era relevante sim, era o modo de como decidíamos chegar até ele. Voltei a inspirar o ar da noite. Já não tinha os pulmões cheios de angústia. Podia gritar, mas agora já não tinha essa necessidade.