Só Brincadeira Pt II

1073 Words
(...) Um grito de desespero dum pobre a ser roubado por outros pobres. E o seu grito de velho pousou nas areais da praia africana e desde ali elevou-se por cima das águas e pairando nas ondas , virou-se em fumareu e rodopio que fincou entre o salseiro e fundiu-se com as águas do mar que viraram as suas cores verdes de esmeralda Atlântica para pretas como a cerne do ébano, duras e profundas .E a barca saltitava sobre um mar que se riçava mais e mais e apanhava entre os seus caracóis brancos as notas da canção fazendo-a sua numa coral ameaçadora e mortal. E os águas devolveram aquelas músicas como uma maldição saída das tebras dos seus fundos. Uma maldição que atingiu á pobre tropa do infortúnio, de marinheiros a força, ignorantes do mar. Marinheirinhos de terra adentro. Milena está chantada com os seus pés morenos na areia dourada e olha para o mar. Já está escuro, que a noite cai depressa no trópico, e a massa de água está a virar num prato de cor de chumbo que se estende para lá da praia: Para o Além. “Olhar longo e passo certo” Milena levanta-se lentamente. Escuta a voz do mar. E as águas cantam uma triste canção: Amiga que vais para longe Admira-me teu passo certo: Pegadas após do vento. Minha amiga de olhar longo, no horizonte do incerto pensamento: Rumo incerto. Deixa as tuas pernas treinadas Levarem-te onde o mar beija ao Céu. Palavras, contra silêncios. Milena escuta a sua própria voz e deixa andar para o mar suas pernas treinadas, geração após geração, em duros trabalhos, em marchas sem fim através de desertos de pedra e areia.Treinadas em abraçar outras pernas, em abrir-se para deixar entrar o s**o no seu corpo fecundo,em parir filhos sem futuro. Caminha como um autômato, para o n***o corpo do medo que a chama e a quer abraçar como um fado c***l. Sente a atração fatal do mar e quer também ser abraçada pelos braços líquidos. Os mesmos que levaram a Molique para as profundidades misteriosas daquele fosso infinito em que desaparecera. Arrancado de seus braços pelos mais fortes e poderosos dos Orixás de bocas pretas e dentes brancos, que saiam dentre as águas embravecidas. Molique , o que ria e cantava. O que era mais forte que outro qualquer. O que a segurava em seus braços quando ela tinha medo da escuridão. Quem a tinha resgatado dos cruéis soldados que invadiram a sua aldeia e a violaram brutalmente. Molique que lhe dava a mão durante sua longa caminhada até a beira do mar e lhe ensinara a rir e cantar. Com quem aprendera a amar. Quem lhe deixara como prenda, o bebê que já levava dentro antes de se iniciar a triste travessia marinha. Um bebê que nasceu na segurança da pequena e acolhedora ilha. Uma menina que ia á escola com as outras de seu tempo, e sabia ler, e cantava em quanto brincava, na tranquila rua, ao jogo da Amarelinha: Nimbwana que, nestes momentos, desespera e anda a procura da sua mãe que não está em casa para a hora de jantar. E ela, entre tanto, caminha sempre para o liquido escuro, cor de chumbo, deixando ir seus pés sem guia. A água já os molhou e, ainda, ela continua a andar para as profundezas. Um Grito quebra o ar calmo da ilha! -Mãe! Mãe! Milena escuta este último som, enquanto a água preta do mar noturno a cobre por completo. Os Orixás querem cobrar seu tributo. A maldição lançada naquela praia de África por um velho de pele seca como couro de vaca tem de ser realizada. Todavia, o mar é uma massa que vai e vem. A onda se retira da praia e da para ver o corpo da mulher desesperada. E o ar leva o grito angustioso duma filha, a voar para além de todos os malefícios. E o amplifica e o transporta até os ouvidos do instinto. Milena fez um aceno de esforço. Luta contra as águas que querem alastrá-la para longe. Pega numa madeira que lá está a flutuar, e salva a segurança da praia até que os seus pés pousam em sólido. Na areia, ainda nos rompentes, mãe e filha fundem-se num abraço úmido e salgado em médio da n***a noite cálida, na ilha da Esperança do Porto Santo. A Lua sai e ilumina o mundo que brilha na ardentia das espumas fosforescentes das águas que sempre batem na praia. E a lua lança um sorriso pícaro para o mundo. Nimbwana poderá estudar e, se quiser, algum dia vai poder ensinar a ler e escrever a miúdos e grandes que desejarem aprender. Por em quanto brinca nas ruas tranquilas a seu jogo preferido pintando no chão um caminho que irá chegar ao céu e canta para acompanhar a sua brincadeira: Imbo, Cachimbo / Ambo descanso Pim-piri- Gloria Fora Uma glória que lhe fora furtada o seu pai, que não conheceu, e a tantos infelizes apanhados pelos braços negros do oceano. Sua gente do outro lado do mar. Ainda o mar canta a sua canção de poder e de vingança: CANÇÃO DO MAR TRISTE: Milheiros de corpos e d'almas vagueiam pelos infernos de ondas bravas, e escumas como lamentos: Minha amiga, E tu atendendo As almas de tantos amigos navegando em cada leitos, como esquifes, de incertezas feitos: Minha amiga, E tu atendendo. Profundos lamentos se erguem do n***o líquido espesso Como ganchos perfurantes paridos num mar lamacento, frio leito, Minha amiga, E tu atendendo: Braços tendidos , maus abertas para as vazias apertas da imensidade do oceano . Minha amiga, E tu atendendo. Braços como remos d'ébano chicoteando no líquido corpo do medo. Minha amiga Não há remeiro. As universais penas das fomes e dos silêncios cavalgam como cavalinhos brancos nascidos do fosso negro dos avernos. Marinheirinhos De terra dentro. Humana gente deitada no poço piago do tempo. Mulheres, homes e crianças , Minha amiga, Contigo,atendendo. Corpos como arcas d'esperança línguas como facas de mentiras navegando entre frustradas vinganças a naufragar na traição mesquinha. Minha amiga, meus amigos , mergulhando no líquido Atlântico Oceano. Dedicado a toda a gente que teve de cruzar o mar na procura dum mundo melhor. É um jogo que tem muitos nomes.Como Mariola é conhecida na Galiza. Na França Marelle, em Brasil Amarelinha ou pula maré. Rayuela em Hispano-América. A pedra, na Galiza, chama-se "Peletre”.
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