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Um grito de desespero dum pobre a ser roubado por outros pobres. E o seu grito de velho pousou nas areais da praia africana e desde ali elevou-se por cima das águas e pairando nas ondas , virou-se em fumareu e rodopio que fincou entre o salseiro e fundiu-se com as águas do mar que viraram as suas cores verdes de esmeralda Atlântica para pretas como a cerne do ébano, duras e profundas .E a barca saltitava sobre um mar que se riçava mais e mais e apanhava entre os seus caracóis brancos as notas da canção fazendo-a sua numa coral ameaçadora e mortal.
E os águas devolveram aquelas músicas como uma maldição saída das tebras dos seus fundos.
Uma maldição que atingiu á pobre tropa do infortúnio, de marinheiros a força, ignorantes do mar. Marinheirinhos de terra adentro.
Milena está chantada com os seus pés morenos na areia dourada e olha para o mar. Já está escuro, que a noite cai depressa no trópico, e a massa de água está a virar num prato de cor de chumbo que se estende para lá da praia: Para o Além.
“Olhar longo e passo certo”
Milena levanta-se lentamente. Escuta a voz do mar.
E as águas cantam uma triste canção:
Amiga que vais para longe
Admira-me teu passo certo: Pegadas após do vento. Minha amiga de olhar longo,
no horizonte do incerto pensamento: Rumo incerto.
Deixa as tuas pernas treinadas Levarem-te onde o mar beija ao Céu. Palavras, contra silêncios.
Milena escuta a sua própria voz e deixa andar para o mar suas pernas treinadas, geração após geração, em duros trabalhos, em marchas sem fim através de desertos de pedra e
areia.Treinadas em abraçar outras pernas, em abrir-se para deixar entrar o s**o no seu corpo fecundo,em parir filhos sem futuro.
Caminha como um autômato, para o n***o corpo do medo que a chama e a quer abraçar como um fado c***l.
Sente a atração fatal do mar e quer também ser abraçada pelos braços líquidos. Os mesmos que levaram a Molique para as profundidades misteriosas daquele fosso infinito em que desaparecera. Arrancado de seus braços pelos mais fortes e poderosos dos Orixás de bocas pretas e dentes brancos, que saiam dentre as águas embravecidas.
Molique , o que ria e cantava. O que era mais forte que outro qualquer. O que a segurava em seus braços quando ela tinha medo da escuridão. Quem a tinha resgatado dos cruéis soldados que invadiram a sua aldeia e a violaram brutalmente.
Molique que lhe dava a mão durante sua longa caminhada até a beira do mar e lhe ensinara a rir e cantar. Com quem aprendera a amar. Quem lhe deixara como prenda, o bebê que já levava dentro antes de se iniciar a triste travessia marinha.
Um bebê que nasceu na segurança da pequena e acolhedora ilha. Uma menina que ia á escola com as outras de seu tempo, e sabia ler, e cantava em quanto brincava, na tranquila rua, ao jogo da Amarelinha:
Nimbwana que, nestes momentos, desespera e anda a procura da sua mãe que não está em casa para a hora de jantar.
E ela, entre tanto, caminha sempre para o liquido escuro, cor de chumbo, deixando ir seus pés sem guia. A água já os molhou e, ainda, ela continua a andar para as profundezas.
Um Grito quebra o ar calmo da ilha!
-Mãe! Mãe!
Milena escuta este último som, enquanto a água preta do mar noturno a cobre por completo.
Os Orixás querem cobrar seu tributo. A maldição lançada naquela praia de África por um velho de pele seca como couro de vaca tem de ser realizada.
Todavia, o mar é uma massa que vai e vem. A onda se retira da praia e da para ver o corpo da mulher desesperada.
E o ar leva o grito angustioso duma filha, a voar para além de todos os malefícios.
E o amplifica e o transporta até os ouvidos do instinto.
Milena fez um aceno de esforço. Luta contra as águas que querem alastrá-la para longe.
Pega numa madeira que lá está a flutuar, e salva a segurança da praia até que os seus pés pousam em sólido.
Na areia, ainda nos rompentes, mãe e filha fundem-se num abraço úmido e salgado em médio da n***a noite cálida, na ilha da Esperança do Porto Santo.
A Lua sai e ilumina o mundo que brilha na ardentia das espumas fosforescentes das águas que sempre batem na praia. E a lua lança um sorriso pícaro para o mundo.
Nimbwana poderá estudar e, se quiser, algum dia vai poder ensinar a ler e escrever a miúdos e grandes que desejarem aprender.
Por em quanto brinca nas ruas tranquilas a seu jogo preferido pintando no chão um caminho que irá chegar ao céu e canta para acompanhar a sua brincadeira:
Imbo, Cachimbo / Ambo descanso Pim-piri- Gloria
Fora
Uma glória que lhe fora furtada o seu pai, que não conheceu, e a tantos infelizes apanhados pelos braços negros do oceano. Sua gente do outro lado do mar.
Ainda o mar canta a sua canção de poder e de vingança:
CANÇÃO DO MAR TRISTE:
Milheiros de corpos e d'almas vagueiam pelos infernos de ondas bravas,
e escumas como lamentos:
Minha amiga,
E tu atendendo
As almas de tantos amigos navegando em cada leitos, como esquifes,
de incertezas feitos: Minha amiga,
E tu atendendo.
Profundos lamentos se erguem do n***o líquido espesso
Como ganchos perfurantes
paridos num mar lamacento, frio leito,
Minha amiga,
E tu atendendo:
Braços tendidos , maus abertas para as vazias apertas
da imensidade do oceano . Minha amiga,
E tu atendendo.
Braços como remos d'ébano
chicoteando
no líquido corpo do medo. Minha amiga
Não há remeiro. As universais penas
das fomes e dos silêncios
cavalgam como cavalinhos brancos
nascidos do fosso negro
dos avernos.
Marinheirinhos
De terra dentro.
Humana gente deitada
no poço piago do tempo.
Mulheres, homes e crianças ,
Minha amiga,
Contigo,atendendo.
Corpos como arcas d'esperança línguas como facas de mentiras navegando entre frustradas vinganças a naufragar na traição mesquinha. Minha amiga, meus amigos , mergulhando
no líquido Atlântico Oceano.
Dedicado a toda a gente que teve de cruzar o mar na procura dum mundo melhor.
É um jogo que tem muitos nomes.Como Mariola é conhecida na Galiza. Na França Marelle, em Brasil Amarelinha ou pula maré. Rayuela em Hispano-América. A pedra, na Galiza, chama-se "Peletre”.