(9 Meses Antes)
O cansaço físico finalmente se instalou nos meus músculos. Deitei as costas no colchão, sentindo o suor esfriar na pele. Carmem permaneceu deitada ao meu lado por alguns minutos, o peito subindo e descendo devagar, até reunir forças suficientes para se mover.
Ela sentou na beirada da cama, limpando o excesso da própria barriga, e caminhou descalça até o banheiro da suíte.
Fiquei ouvindo o som da água da torneira correndo. A porta ficou entreaberta. Quando ela retornou para o quarto, enrolada em uma das minhas toalhas brancas, foi a minha vez de levantar.
Fui até o banheiro, lavei o meu corpo e tirei qualquer resquício de suor da minha pele. Não demorei muito. A água morna relaxou os últimos nós de tensão nos meus ombros. Sequei o cabelo com a toalha e amarrei outra na cintura antes de voltar para o quarto.
Assim que pisei no tapete persa, parei.
Carmem não estava na cama. Ela estava parada diante da minha mesa de trabalho, no canto oposto do cômodo. A luz da pequena luminária de leitura iluminava o rosto dela de baixo para cima. Ela olhava fixamente para a superfície de madeira.
Eu havia deixado algumas pastas abertas ali mais cedo. Eram relatórios confidenciais da Famiglia Rossi.
Planilhas financeiras impressas, números de extorsões, endereços de empresas de fachada e o mapeamento das rotas de escoamento do porto de Palermo. Informações que as autoridades passavam anos tentando descobrir.
Aproximei-me dela em passos lentos. Não senti nenhuma pontada de alerta. Não havia motivo para preocupação.
Carmem era uma criada que cresceu no interior, varrendo o chão de uma propriedade rural em Trapani. Para ela, aquelas folhas repletas de códigos logísticos, balanços contábeis e porcentagens de repasse não passavam de um amontoado de letras e números sem o menor sentido prático.
Parei logo atrás dela. Passei os braços ao redor da sua cintura fina, puxando as costas dela contra o meu peito.
— Encontrou algo interessante? — Perguntei, encostando os lábios no cabelo dela.
Carmem piscou, virando o rosto levemente na minha direção.
— São muitos papéis, Signor Romeo. E muitas tabelas tortas — ela respondeu, a voz perfeitamente mansa. — O senhor tem muito trabalho. Eu não entendo nada disso, eu me perderia toda.
— Você não precisa entender — murmurei.
Eu sequer me dei ao trabalho de fechar as pastas ou tentar dar alguma explicação sobre o conteúdo da mesa. Apenas a afastei da mobília. Segurei a mão dela e a conduzi de volta para a cama no centro do quarto.
Deitamos sob o edredom escuro. Puxei o corpo dela para perto, acomodando a cabeça de Carmem no travesseiro ao meu lado.
— Eu vou precisar sair cedo — ela avisou em um tom baixo, deitando de costas. — Antes que o sol nasça. O maggiordomo Quattrocchi verifica a área de serviço nas primeiras horas da manhã. Ele não pode notar que a minha cama está vazia.
Acomodei o meu braço sobre a barriga dela e fechei os olhos, sentindo o sono pesar as minhas pálpebras de forma definitiva.
— Vá antes do amanhecer — concordei. — Eu já me acostumei com a sua rotina.
A respiração dela nivelou-se com a minha no quarto escuro. Tudo estava na mais absoluta normalidade, e eu adormeci poucos minutos depois, em paz.