(9 Meses Antes)
Puxei a cadeira estofada para trás. Carmem hesitou por um segundo antes de se sentar. A seda preta escorregou pelo assento quando ela acomodou o corpo. Ocupei o lugar bem ao lado dela, ignorando a cabeceira da mesa para encurtar o espaço físico entre nós.
Retirei as tampas de prata. O aroma de risoto de açafrão com medalhões de vitela preencheu o espaço. No centro, uma pequena tábua com queijos curados e figos frescos completava a refeição da madrugada.
Peguei a garrafa de vinho já aberta e enchi o fundo das duas taças de cristal.
— O senhor costuma comer assim tão tarde? — Ela perguntou, a voz mansa, observando o líquido escuro manchar o vidro.
— Eu como a hora que eu sinto vontade, Carmem.
Ela assentiu devagar. A resistência inicial, aquele tom arredio que ela carregava nas primeiras semanas, tinha sumido. No lugar da garota assustada, havia uma mulher fascinada pelo excesso. Ela olhou para a taça e depois para mim.
— Esse vinho... é de Palermo?
— É da Toscana. Uma safra restrita que o meu pai exige ter na adega — respondi, levando o cristal ao nariz antes de provar. — Por quê?
— Eu não entendo dessas coisas. Na casa do meu pai, o vinho era ralo e feito no quintal do vizinho. Eu só queria saber do que o senhor gosta.
A confissão sincera evidenciou mais sua origem humilde. Apoiei a minha taça na mesa. A ingenuidade dela era um prato cheio. Ela não tentava fingir que pertencia àquele mundo de luxo, pelo contrário, ela assumia a própria ignorância e olhava para mim em busca de instrução.
— Aos poucos, você vai aprender sobre o meu gosto.
Carmem pegou o próprio garfo, mas eu segurei o pulso dela antes que o metal tocasse a porcelana do prato.
— Solte.
Ela abriu os dedos e o garfo caiu sobre a toalha de linho.
— Eu dito as regras aqui.
Levei a minha mão até a tábua no centro da mesa. Peguei um pedaço de figo maduro com a ponta dos dedos. Ergui a fruta até a altura do rosto de Carmem.
— Abra a boca.
Os olhos escuros dela piscaram, mas ela obedeceu sem questionar. Os lábios entreabriram-se. Coloquei o pedaço de fruta na boca dela, roçando o meu polegar no lábio inferior úmido.
Carmem mastigou devagar. Acompanhei o movimento da pele pálida da garganta dela enquanto engolia.
— Gostou? — Perguntei.
— É doce.
— Bom.
Fiz o mesmo com um pedaço de queijo curado. Desta vez, quando levei a comida aos lábios dela, a ponta da língua quente de Carmem tocou os meus dedos, recolhendo o sabor do meu toque. Um choque rápido de excitação correu pelas minhas veias.
Ela estava aprendendo a me agradar. Tentando descobrir as minúcias de como agir para manter a minha atenção.
Passei os próximos minutos a alimentando dessa maneira. Cada porção que ela recebia das minhas mãos reforçava o laço entre nós.
Eu me sentia um mentor lapidando uma pedra bruta. Ensinando o básico do prazer, do paladar e da submissão a uma camponesa que não conhecia nada além das restrições antes de cruzar o meu caminho.
Carmem bebeu um gole do vinho, as bochechas corando com o álcool descendo pelo corpo não acostumado. Ela me olhava por cima da borda da taça, totalmente entregue à refeição que eu controlava.
Tinha sido inevitável, eu já possuía a mente e as vontades daquela garota por inteiro.