(8 Meses Antes)
Amerigo Costa ajeitou os óculos na ponte do nariz, segurando a pasta de couro contra o peito. Estávamos no escritório principal do andar térreo. Meu pai, sentado atrás da mesa maciça, encerrou as suas próprias considerações e acenou para que eu ditasse as ordens.
— Você viaja para Enna em uma hora — determinei, apoiando as mãos no encosto de uma das cadeiras vazias. — Sente-se com Lorenzo Moretti e o advogado dele. Quero que você force a assinatura do contrato com separação total de bens. O dinheiro daquele gasoduto que atravessa as terras Trovato fica sob o nosso controle, no nome da garota. Não ceda um centímetro sequer.
— Entendido, Capo — Amerigo confirmou.
— E verifique como as coisas andam por lá — Don Vittorio interveio, o tom ranzinza transparecendo na voz. — Veja se Dante está fazendo um bom trabalho como responsável por aquela menor de idade ao lado da esposa, aquela brasileira selvagem.
Meu pai pronunciava a palavra com desgosto evidente, mas eu conhecia Vittorio o suficiente para notar o fundo de respeito que ele tentava esconder.
Emanuele o havia desafiado abertamente no passado, encarando as ordens dele de frente.
Para o Don, era uma audácia incômoda, mas ele admirava a coragem da mulher que conseguiu domar e conquistar a lealdade de Dante, o seu filho mais problemático, de uma forma tão profunda e inegável.
A minha avó Viviana, por outro lado, repetia pelos corredores que tinha certeza absoluta de que o neto e Emanuele estavam guiando a herdeira Trovato com perfeição.
Ela havia se tornado amiga da brasileira e sua professora de italiano nos primeiros meses em Trapani. A confiança da velha não vacilava.
— O casamento tem que ocorrer sem falhas em março, assim que Eleonora completar dezoito anos — Vittorio concluiu.
Amerigo assentiu, preparando-se para virar as costas.
— Leve isso também — falei, apontando para um envelope pardo sobre a mesa.
O meu Consigliere pegou o pacote, franzindo a testa ao sentir o formato retangular e duro lá dentro.
— É o celular da mulher do meu irmão — expliquei. — Ficou esquecido em uma gaveta aqui no palácio. Ela mandou uma carta exigindo o aparelho de volta.
Amerigo suspirou baixo ao constatar que o seu papel incluía ser um entregador de luxo, mas guardou o envelope na pasta e saiu do escritório.
Deixei o meu pai com os próprios relatórios portuários e saí para o corredor oeste. O fluxo de funcionários estava reduzido. A poucos metros de distância, vi o uniforme escuro de Carmem perto de um dos nichos decorativos.
Acelerei o passo na mesma hora. Antes que ela pudesse perceber a minha aproximação ou dizer qualquer coisa, segurei o braço dela com firmeza e a puxei para o espaço estreito entre duas tapeçarias enormes.
Prensei o corpo dela contra a parede de pedra, a minha boca tomou a sua de uma vez, um beijo rápido e ardente que atropelou a nossa respiração.
Carmem correspondeu no mesmo segundo, as mãos pequenas segurando a lapela do meu paletó, o corpo moldando-se ao meu.
Quando afastei o meu rosto, ela estava ofegante, as bochechas coradas.
— O que está acontecendo? — Ela sussurrou, os olhos varrendo os lados para garantir que o maggiordomo não estava por perto. — Vi o senhor Costa saindo apressado da sala do Don.
— Amerigo está indo para Enna — respondi, passando o polegar pelo lábio inferior úmido dela. — Vai fechar o contrato de casamento da herdeira Trovato e checar se o meu irmão não destruiu aquela cidade ainda.
Carmem inclinou a cabeça.
— Ele foi até lá só para lidar com os papéis do casamento?
— E para servir de correio — murmurei, achando a situação toda ridícula. — A mulher de Dante esqueceu o celular aqui e mandou buscar.
Carmem deu um sorriso curto, acomodando o rosto no meu peito por uma fração de segundo antes de se desvencilhar devagar.
— Preciso voltar para a rouparia, signore.
Deixei que ela fosse, observando a postura recatada e submissa que ela adotava de imediato assim que pisava de volta no corredor visível.