(7 Meses Antes)
A submissão de Carmem era a única coisa capaz de afastar a minha mente da pressão constante da polícia federal e das exigências infindáveis dos nossos advogados.
Abri a porta do quarto dela sem bater.
A luz amarela iluminou uma garota dobrando lençóis limpos na cama estreita, mas os cabelos eram mais claros e a postura não pertencia à mulher de Trapani. A jovem deu um sobressalto, derrubando o tecido no chão ao me ver parado na soleira.
— Signor Romeo? — Ela gaguejou, recuando um passo, os olhos arregalados.
— Onde está Carmem? — Perguntei, a voz seca.
A garota apertou as mãos na frente do avental branco.
— Ela não está mais no palácio, Signore. Carmem voltou para a Villa Rossi em Trapani nessa tarde.
Franzi a testa. O deslocamento de funcionários não passava por mim, ainda mais com as coisas tão corridas, mas aquilo soava incomum.
— Quem deu a ordem?
— O Don Vittorio — a criada respondeu rápido, temendo a minha reação. — Ele mandou toda a comitiva que o acompanhou meses atrás voltar: os guardas, as outras criadas e a Capocuoca Silvana Bellagamba, que vieram da Tenuta. A Nonna Viviana também foi junto com eles. Ela assumiu a responsabilidade de todos e o comando da viagem.
As engrenagens da manobra do meu pai se encaixaram na minha cabeça de forma nítida.
Trapani. Era exatamente para lá que a filha de Alessio Marino seria levada.
No dia em que recebemos a notícia do assassinato do Capo do leste, o Don determinou que Dante arrancasse Aurora daquela casa e a mantivesse trancada na nossa propriedade ocidental, aguardando o julgamento formal da Cúpula.
Mandar a comitiva de confiança e os guardas originais de volta era uma preparação logística antecipada. Colocar a minha avó no comando direto da casa não era um detalhe ao acaso.
Vittorio estava arrumando o terreno para receber uma prisioneira de alto valor político.
A Nonna Viviana seria a responsável por receber Dante e Emanuele, caso eles conseguissem sair vivos de Messina. Ela foi quem arranjou o noivado original de Aurora para tentar selar a paz; agora, seria a sua carcereira.
O planejamento do meu pai estava em movimento irreversível. Ele antecipava que o meu irmão conseguiria tirar Aurora de lá com vida no meio da confusão.
A fé de Vittorio na capacidade do filho mais novo era imensa, e o fato de Mario Callegari estar no leste para garantir a execução tornava o resultado um fato inquestionável na visão do Don.
Bastava apenas que a família sucessora não falhasse.
Cassio Sparacio precisava cumprir a sua parte com precisão, invadindo a fortaleza Marino com os seus atiradores para aniquilar Vincenzo Farao e todos os calabreses lá dentro assim que as portas se abrissem.
Apoiei a mão no batente da porta e observei o quarto modesto e vazio.
O esquema para recuperar o controle da Sicília ocorria sem brechas. As ordens de Vittorio moldavam o futuro da Cosa Nostra perfeitamente e logo o Estado viraria o rosto para as nossas empresas em Palermo.
No entanto, essa exata manobra estrutural tirou do meu alcance o meu maior desejo daquela noite. A mulher que obedecia a cada um dos meus comandos e absorvia a minha tensão em silêncio, havia sido despachada para o outro extremo da ilha, para longe das minhas mãos.
Sem dizer mais nenhuma palavra à criada assustada, virei de costas e retornei para a escadaria.