(7 Meses Antes)
Nem uma semana havia se passado direito desde a explosão no centro de Palermo.
O cerco da polícia continuava apertado, mas nós já havíamos estabelecido uma rotina de contenção de danos dentro do Palazzo Rossi. Os advogados seguravam os mandados, e o porto operava sob vigilância extrema.
A madrugada já avançava quando me sentei na cadeira de frente para a mesa do meu pai. O assunto principal ainda era o desastre que tínhamos sob o nosso próprio teto.
— Tranque Rocco nas celas do subsolo — Don Vittorio ordenou, o tom seco, sem margem para debate. — Ele está confinado nos quartos da Ala Norte, mas o desespero faz os homens cometerem erros. Se ele tentar fugir e a polícia o pegar, a nossa organização inteira cai junto.
— E depois? — Perguntei, cruzando os braços. — Nós não podemos mantê-lo no porão para sempre.
— Quando as investigações esfriarem e esconder um corpo não for um risco tão iminente, nós o matamos — o Don sentenciou. O rosto dele não demonstrou nenhuma hesitação ao descartar a vida do ex-Sottocapo.
— A família Martinus é antiga na nossa organização — pontuei, avaliando as repercussões políticas. — Eles não vão engolir a execução de um dos seus membros principais com facilidade.
Vittorio encostou as costas na cadeira de couro. O olhar que ele me lançou era frio e cortante.
— Você já enterrou homens o suficiente sem se importar com as famílias deles, Romeo. Não comece a agir como um diplomata frouxo agora. Os Martinus que chorem a perda do maior fracasso que já colocaram no mundo.
Eu ia responder, mas o toque agudo cortou o ambiente.
Era o Telefone Vermelho. Olhei para o aparelho. Pouquíssimas pessoas ousavam usar a linha direta criptografada, e menos ainda o fariam àquela hora da madrugada. Mario, que estava encostado perto das portas duplas de mogno, endireitou a postura.
Vittorio pegou o fone no segundo toque.
— Pronto — ele atendeu, inabalável.
Houve uma pausa do nosso lado. Fiquei observando as feições do Don, tentando ler o que quer que estivesse sendo dito na outra ponta da ilha.
— Dante — meu pai reconheceu a voz. Não houve tempo gasto com cordialidades ou perguntas sobre o bem-estar deles. — Do que precisa?
A sala ficou muda novamente. A resposta do meu irmão deve ter sido direta e curta, porque as sobrancelhas grossas de Vittorio se juntaram em um vinco de surpresa momentânea.
— O meu motorista? — O Don repetiu.
Ele ficou em silêncio por mais um instante, ouvindo a justificativa que vinha do leste. Seja lá qual foi o argumento de Dante, ele atingiu o alvo com perfeição. Vittorio não contestou. A decisão foi tomada na mesma fração de segundo.
— Ele estará aí amanhã de manhã.
Meu pai desligou o telefone e colocou o aparelho de volta na base. Ele levantou o rosto e olhou diretamente para o homem que guardava a porta do escritório.
— Mario — Vittorio chamou.
O segurança deu um passo à frente.
— Sì, Don.
— Arrume as suas coisas. Você parte para Messina agora mesmo.
— Houve algum problema com o Signor Dante? — Mario perguntou, a voz grave.
— Dante está sentado à mesa com Vincenzo Farao para negociar o dote daquela assassina da casa Marino — Vittorio explicou, a raiva contida marcando o maxilar. — O calabrês acha que nós estamos fracos por causa da crise em Palermo. Vincenzo, o noivo, pediu que Dante convidasse alguém de confiança para agilizar as negociações e assinar os papéis do casamento.
— Mas isso não pode acontecer — falei.
— Claro que não — o Don pousou o punho fechado sobre a mesa. — Mas Vincenzo espera um advogado, alguém que possa ser intimidado. Dante quer você, Mario, e você não dará o meu Beneplácito de forma alguma para aqueles usurpadores. Você e Dante devem procurar um meio de acabar com esse noivado e arrastar Aurora Marino para Trapani o mais rápido possível. Quando contivermos essa crise, a Cúpula se reunirá em Palermo para julgar a assassina. Não deixe Dante fracassar.
A mensagem flutuou pelo ar. Meu irmão nunca esteve negociando a paz com a ‘Ndrangheta; ele estava se preparando para a carnificina. E precisava do cão de caça mais fiel do nosso pai para garantir que sairia de Messina vivo.
— Entendido — Mario confirmou. — Estarei na estrada em dez minutos.