Capítulo 23: Romeo

635 Words
(9 Meses Antes) O final da tarde trouxe uma calmaria falsa para a propriedade. Eu caminhava pelo corredor dos fundos, próximo à área de convivência da segurança externa. A porta dupla de madeira estava encostada, deixando vazar uma fumaça densa de cigarro e o som de vozes masculinas. Parei antes de entrar na linha de visão deles. Eram três guardas conversando ao redor de uma mesa de sinuca. Dois deles eu já tinha visto mais cedo, assediando Carmem perto da escadaria. — É questão de tempo — um deles riu, a voz arrastada. — Vocês viram o jeito dela? Passa pelos corredores com a cabeça baixa, se fazendo de santa. Pegar aquela criada novinha de jeito ia render uma noite das boas. — Com aquela cintura? — O segundo homem debochou. — Ela nem deve aguentar p*u direito. O terceiro guarda soltou uma gargalhada áspera, batendo com o taco de madeira no chão de pedra. — Por isso mesmo. O melhor é entrar tirando sangue. É o único jeito de ensinar o lugar dela. Fechei as mãos em punhos. A raiva subiu pela minha garganta, um instinto primitivo querendo invadir a sala e quebrar o pescoço de cada um ali mesmo. Mas eu me contive. Dei um passo para trás, virei as costas e retornei em absoluto sigilo pela mesma rota. Subi para os meus aposentos na Ala Leste. Chamei um dos guardas que vigiavam a entrada do meu andar e dei uma ordem clara: trazer os três homens específicos para uma conversa particular na minha suíte. Não demorou dez minutos. Os três entraram no quarto, as expressões confusas e receosas. O último homem fechou a porta de carvalho nas próprias costas. Eles não tiveram tempo de abrir a boca. Acertei o primeiro com um soco direto no maxilar. O osso estalou sob os nós dos meus dedos e o homem caiu para trás, batendo com tudo no tapete. O segundo tentou recuar, mas agarrei o colarinho da sua jaqueta, afundei o joelho no seu estômago e o joguei no chão. O terceiro apenas ergueu as mãos, assustado, incapaz de reagir contra o filho do Don. Tirei as armas dos coldres dos três com movimentos rápidos e precisos. Joguei o metal sobre o tampo de vidro da minha mesa. — Vocês estão fora do Palazzo — avisei, limpando o sangue da minha mão na calça de alfaiataria. — Peguem as suas coisas e sumam de Palermo em uma hora. Eles se levantaram com dificuldade. O primeiro homem cuspia sangue, segurando o rosto inchado. — Signore... não entendemos... — Ninguém olha para o que é meu — cortei, a minha voz rouca. — Se alguém perguntar, essa é a única resposta que darão. Os homens se entreolharam, o medo finalmente superando a confusão. — E agradeçam à própria sorte — continuei, encarando cada um deles. — Vocês só estão saindo vivos por aquela porta porque Don Vittorio está na cidade. O meu pai detesta desperdiçar recursos humanos sem um bom motivo. Sumam daqui. Eles assentiram rapidamente, virando as costas e caminhando em direção à maçaneta prateada. Fiquei parado, observando-os irem embora. A raiva não havia diminuído em nada. A imagem mental das falas asquerosas deles sobre Carmem continuava ecoando na minha cabeça, causando um incômodo físico profundo. O pensamento de qualquer outro homem a tocando ou a fazendo sangrar me revirava o estômago. — Esperem — falei. Eles pararam e olharam por cima dos ombros. Inclinei a cabeça para o lado. Levei a mão às minhas costas e puxei a minha pistola do coldre escondido sob a camisa. O silenciador já estava rosqueado na ponta do cano de metal. Na verdade, a minha raiva era um excelente motivo. Três disparos abafados perfuraram as cabeças dos guardas. Os corpos caíram pesados contra a madeira da porta.
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