Capítulo 41: Romeo

735 Words
(7 Meses Antes) O Palazzo Rossi fervilhava com o vai e vem incessante de advogados. As nossas salas administrativas haviam virado uma extensão direta dos tribunais de Palermo. Homens engravatados cruzavam os corredores carregando pastas com mandados preventivos, balanços contábeis da Rossi Costruzioni e dezenas de relatórios fiscais do porto. A quantidade de papelada e as discussões jurídicas sobre quebras de sigilo consumiam a minha paciência a cada minuto. A polícia estava pronta para rasgar a nossa fachada legal. Eu caminhava pela galeria principal, voltando de mais uma reunião exaustiva com a equipe de defesa, quando um corpo bloqueou a minha passagem. Rocco Martinus. O ex-Sottocapo parecia ter envelhecido uns dez anos em um único dia. As olheiras fundas marcavam o seu rosto e a postura ereta e orgulhosa havia sumido. Ele estava confinado nas paredes da propriedade por ordem expressa do meu pai. — Romeo... — Rocco começou, a voz áspera. — Me deixe falar com o Don. Eu conheço o juiz que assumiu o caso, eu posso ajudar a resolver as coisas na construtora. Eu assumo a culpa inteira pelo carro. Fujo para a Córsega, sumo da Sicília, o que for preciso para tirar a mira da polícia das costas de vocês. Parei na frente dele. Encarei os olhos exaustos do homem que deveria estar apenas cobrindo a ausência do meu irmão e mantendo as docas em ordem. — Se o Don olhar para a sua cara hoje, ele atira bem no meio da sua testa — avisei, em um tom ríspido, cortando qualquer tentativa de negociação. — Você explodiu um magistrado no meio do centro financeiro, Rocco. O governo em Roma já enviou os próprios investigadores para cá. Essa crise nas ruas vai durar meses. Tudo o que você tentar fazer agora só vai afundar as nossas empresas ainda mais. Volte para o seu quarto e desapareça da minha vista. Não esperei por uma resposta. Voltei a andar a passos largos pelas lajotas do piso, querendo distância daquele desastre. Poucos metros adiante, vi Carmem parada na porta da rouparia. Ela segurava um cesto de vime contra o corpo. Passei direto por ela, ignorando a sua presença e o seu rosto familiar, nem ela me tirava aquele estresse no momento. Pelo canto do olho, porém, vi o momento exato em que ela desviou a atenção de mim para observar o estado de Rocco logo atrás. A criada exibia uma mistura indisfarçável de pena e nojo. Entrei na biblioteca da para fugir do fluxo de advogados e fechei a porta de carvalho. A pressão no meu peito era real e constante. A polícia federal farejava os meus passos em Palermo. Dante dirigia para o leste, entrando no território de uma mulher que matou o próprio pai, acompanhado apenas de Emanuele. A 'Ndrangheta aguardava do outro lado do Estreito de Messina, com a mão na maçaneta da nossa ilha. O mundo fora daquelas paredes saía dos eixos, e a sensação de perder o controle das situações me atingia com força. — Você está respirando como um cavalo cansado. Virei o rosto para a direita. A minha avó, Viviana, estava sentada na poltrona de leitura, com um xale escuro sobre os ombros e um livro fechado no colo. Eu nunca tive muita afinidade com ela. Nós éramos diferentes demais, e a sua postura inflexível costumava me irritar. Eu sabia um pouco do seu passado, antes de pisar nesta ilha. Mesmo sendo mãe do meu pai, ela não era um grande exemplo de honra ou fidelidade. — Não estou com cabeça para ouvir os seus conselhos hoje, Nonna — respondi, passando a mão pelo cabelo. Viviana ajeitou a postura, apoiando as mãos enrugadas na sua bengala de ébano. — Não vou dar conselhos. Vou dizer o que você precisa escutar — ela falou. O tom dela era inabalável. — Pare de agir como se o teto estivesse desabando sobre a sua cabeça. A polícia sempre faz barulho, nós já sobrevivemos a investigações muito piores. Dante vai saber limpar a bagunça no leste, assim como ele e a brasileira souberam colocar Enna nos eixos. Você tem que focar no que está sob a sua responsabilidade agora. Encostei as costas na estante de livros, cruzando os braços. — Nada vai desmoronar — Viviana garantiu, os olhos escuros sustentando o meu olhar. — Você não está sozinho nisso, Romeo. Mantenha a cabeça no lugar. A Famiglia vai permanecer de pé.
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