Capítulo 12: Romeo

604 Words
(10 Meses Antes) Os lustres de cristal de Murano iluminavam o Salão dos Espelhos do Palazzo Rossi com uma claridade ofuscante. O piso de majólica exibia detalhes pintados à mão, brilhando sob os sapatos impecáveis dos convidados que ocupavam o nosso andar térreo. A virada do ano não rendeu um evento grandioso para toda a ilha, apenas uma celebração restrita a alguns Capi locais e políticos de Palermo que faziam questão de manter boas relações com a nossa organização. O ambiente estava tomado pelo burburinho de conversas fúteis. Rocco Martinus circulava entre os pequenos grupos de engravatados e mulheres adornadas com joias caras. O Sottocapo cumprimentava cada convidado com polidez, visivelmente satisfeito por transitar naquele círculo de influência. Para ele, estar no centro das atenções ao lado de nomes importantes era uma afirmação do seu novo cargo. Para mim e para o meu pai, era apenas um incômodo burocrático. Don Vittorio estava sentado em uma das poltronas de veludo vermelho perto da lareira. A expressão dele beirava o tédio absoluto. Ele respondia aos brindes com acenos curtos de cabeça, sem fazer a menor questão de esconder o desinteresse. Minha avó, Viviana, teve o bom senso de alegar cansaço logo cedo e permaneceu nos próprios aposentos, poupando a si mesma daquela bajulação inútil. Eu estava encostado perto de uma das janelas altas, de onde se podia ver o pátio central e a escuridão da noite de inverno. Um vereador qualquer da prefeitura tentava me convencer sobre os benefícios de uma nova licitação na zona portuária. A voz do homem parecia o zumbido de um inseto no meu ouvido. A submissão calculada daquelas pessoas me irritava. A forma como curvavam a coluna ao falar comigo, o tom manso e as risadas forçadas sempre que eu dizia qualquer coisa. O vereador fez uma pausa para rir de um comentário que ele mesmo elaborou. — Tenho assuntos pendentes lá em cima — cortei a fala dele no meio, mantendo a minha voz firme. O homem travou na hora, a risada morrendo no meio do caminho. — Claro, Signor Rossi. Um feliz Ano Novo para o senhor. Apenas dei as costas e caminhei em direção às portas duplas ladeadas por colunas de mármore antigo. Não olhei para Rocco e não me despedi de Vittorio. A minha presença ali já tinha durado tempo suficiente para cumprir o protocolo. Atravessei o hall principal e encontrei os degraus da grande escadaria. A cada lance de mármore que eu subia, o som das vozes, dos copos de cristal tilintando e da música instrumental de cordas ficava mais abafado. Afastar-me daquela exibição de falsidade era um alívio. Caminhei pelo corredor da Ala Leste. As portas espessas de carvalho bloqueavam qualquer som externo. A minha mente se desligou dos prefeitos e tenentes. Havia algo muito melhor me aguardando. Parei na frente da porta da minha suíte. Eu havia dado uma instrução extremamente específica horas atrás. Girei a maçaneta prateada e empurrei a madeira. Apenas os abajures laterais estavam acesos. Carmem estava em pé, posicionada perto da beirada do tapete felpudo. Ela não usava o uniforme preto e branco de algodão grosso das funcionárias de Trapani. Ela vestia exatamente o que eu mandei que usasse. A seda vermelha escura do vestido longo moldava a cintura fina dela com uma exatidão impecável. O decote caía pelos ombros claros, deixando a pele nua em evidência sob a meia-luz do quarto. As mãos pequenas estavam cruzadas na frente do corpo, a postura de quem esperava ordens, mas o visual era o de uma mulher que valia muito mais do que todas as esposas de políticos no andar de baixo.
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