(7 Meses Antes)
O trajeto do centro comercial até a nossa propriedade foi feito com o pé afundando o acelerador. O som das sirenes da polícia já começava a ecoar pelas avenidas de Palermo, respondendo ao atentado de Rocco.
Passei pelas portas duplas da entrada principal do Palazzo Rossi. No corredor oeste, vi Carmem parada perto das tapeçarias, segurando uma pilha de toalhas limpas.
Ela levantou o rosto quando escutou os meus passos, talvez esperando o cumprimento silencioso de costume ou algum toque furtivo. Passei direto por ela, sem desviar o olhar ou diminuir o ritmo.
Eu tinha um império desabando nas minhas costas, não havia espaço para a criada naquele momento.
Abri a porta do escritório do meu pai sem bater.
Don Vittorio estava de pé perto da mesa maciça. A minha avó, Viviana, estava sentada na poltrona de couro perto da janela. Eu abri a boca para despejar a merda que Rocco tinha feito com o carro do magistrado, mas o telefone vermelho em cima da mesa tocou alto.
Meu pai atendeu. A ligação era de um soldado de uma família menor de Messina. Ele apertou o botão do viva-voz para que nós também escutássemos.
O homem relatou os fatos do leste engolindo em seco. Alessio Marino estava morto. A filha mais velha, Aurora, assassinou o próprio pai. Ela usou uma espada para arrancar a cabeça de Alessio.
O antigo noivo, o rapaz de Trapani que a minha avó tinha arranjado meses atrás para selar a paz, também foi morto antes disso.
A arma da decapitação do Capo de Messina foi um presente do novo noivo de Aurora. E a revelação piorou. O homem escolhido por ela era um Capobastone legítimo da 'Ndrangheta. Aurora estava entregando a cidade de Messina como dote para os calabreses.
Minha avó cerrou os dentes. O acordo que ela construiu com as próprias mãos para manter a paz no leste havia sido rasgado e pisoteado.
Encostei a mão na beirada da mesa. A gravidade da situação me atingiu em cheio. Messina era o portão de entrada geográfico da Sicília.
Se a 'Ndrangheta entrasse na ilha com a fachada legal de um matrimônio, eles teriam o direito de atracar no porto e circular pelas rodovias sem disparar um tiro. Palermo seria sitiada pelo leste em poucas semanas.
Meu pai encerrou a chamada e o aparelho ficou mudo. As duas piores crises do ano estouraram em um intervalo de poucas horas.
— Rocco não é mais o Sottocapo — Vittorio avisou, a voz grave cortando o ambiente. — Ele está proibido de colocar os pés fora deste palácio até eu decidir o destino dele.
— Eu preciso ir para Messina impedir essa garota — falei.
— Você fica em Palermo — o Don ordenou no mesmo segundo, apontando o dedo na minha direção. — A polícia vai virar as docas e a construtora do avesso por causa do juiz morto. Você tem que lidar com a prefeitura, segurar os mandados e proteger as nossas contas para que a nossa estrutura financeira não desmorone. Limpe os rastros do i*****l do Rocco nas ruas.
— E quem vai impedir o casamento no leste? Eles já devem estar organizando a cerimônia para oficializar a tomada da cidade.
— Eu vou ligar para Enna — Vittorio respondeu, estendendo a mão para o telefone novamente. — Eleonora Trovato já completou dezoito anos e se casou, não precisa mais de nenhuma babá. Vou mandar Dante, o seu irmão vai para Messina cancelar essa união e me trazer Aurora Marino. Faça a sua parte aqui.