(8 Meses Antes)
As portas da minha suíte se fecharam, deixando o corredor e as exigências do palácio para trás. No centro do quarto, a bandeja de prata não estava sobre a mesa de jantar. Mandei colocar tudo diretamente sobre o tapete persa.
Uma garrafa de Nero d'Avola, safra especial da Tenuta Rossi em Trapani, com o nome de Don Vittorio Rossi gravado em dourado no rótulo.
Para acompanhar, camarões vermelhos crus de Mazara del Vallo, temperados apenas com azeite e raspas de limão, servidos ao lado de pequenos crostini com patê de azeitonas pretas.
Carmem entrou e parou a poucos passos de distância. Ela olhou para a refeição disposta no chão e depois subiu o olhar para o meu rosto, confusa com a mudança de cenário.
— Sente-se — indiquei o tapete.
Ela obedeceu de imediato, caminhando descalça e dobrando os joelhos sobre o tecido espesso.
— Em muitas culturas orientais e tribos nômades, comer no chão é a regra — expliquei, aproximando-me devagar. — Sem o distanciamento de cadeiras altas ou mesas formais. Eles acreditam que aproxima as pessoas da base, tira as defesas e força você a focar apenas na refeição e em quem a divide com você.
Carmem assentiu, processando a informação, as mãos pousadas educadamente no próprio colo.
Parei logo atrás dela. Enfiei a mão no bolso da calça e puxei uma fita de seda preta, lisa e resistente. Passei o tecido sobre os olhos de Carmem antes que ela pudesse prever o movimento e amarrei as pontas com firmeza na nuca dela.
Ela enrijeceu os ombros no primeiro segundo, perdendo totalmente a visão do quarto.
— E de qual cultura veio a venda, Signore? — Ela perguntou, a voz mansa, erguendo o rosto em busca da minha posição exata.
— Da minha — sussurrei bem perto do ouvido dela. — E você vai amar conhecê-la.
Dei a volta e me sentei no tapete, bem de frente para ela. A regra da noite era a privação sensorial. Sem enxergar, os outros sentidos dela precisariam trabalhar em dobro, focados inteiramente nas minhas ações.
Peguei um dos camarões de Mazara pela cauda. Rocei a carne fria e macia contra o lábio inferior de Carmem. Ela abriu a boca no mesmo instante. Coloquei o fruto do mar na boca dela e esperei que ela puxasse a carne crua com os dentes.
Ela mastigou devagar. Sem a visão, os movimentos da garota se tornaram muito mais cuidadosos e dependentes da minha condução. O sabor forte do azeite com o limão a fez suspirar baixo.
Em seguida, peguei a taça de cristal pela haste. O vinho da minha família, espesso e encorpado. Encostei o vidro nos lábios dela.
— Beba.
Inclinei a taça. Carmem precisou confiar inteiramente no controle do meu pulso para que o Nero d'Avola descesse pela garganta sem que ela engasgasse.
Ela bebeu tudo no ritmo que eu determinei. O líquido manchou a boca dela com um tom avermelhado antes que ela passasse a língua para recolher as gotas da pele.
A raiva acumulada pelas provocações do Capo de Catania simplesmente sumiu. Ali, sentado no chão da minha suíte, eu podia brincar e fazer o que eu bem quisesse com aquela garota linda e inofensiva.
Observei a obediência cega da minha criada. A vulnerabilidade de Carmem era palpável. Ela estava no escuro, sem saber quando ou onde o próximo toque aconteceria, mas aceitava cada comando meu sem um único questionamento.
Saboreei o domínio total. O controle não estava apenas nos relatórios de Amerigo ou nas rotas de Enna, ele estava bem ali, vendado e de joelhos no meu tapete.