(7 Meses Antes)
A escuridão do meu quarto não serviu para trazer o sono. Deitado de costas no colchão, eu encarei o teto por horas. A tensão muscular e o cansaço mental exigiam um alívio que eu não tinha como buscar.
Carmem estava a quilômetros de distância.
A imagem dela trancada na Villa Rossi, no extremo oeste da Sicília, martelava a minha cabeça. Eu estava acostumado a tê-la sob o meu teto, a poucos passos de distância, pronta para absorver as minhas ordens.
Agora, eu não podia tocá-la, não podia ditar as suas reações e não tinha a menor ideia de quanto tempo essa separação iria durar. O meu pai ditava o ritmo da ilha, e isso incluía mover os meus funcionários sem a minha permissão.
Batidas curtas na porta interromperam a minha insônia.
Levantei-me, vestindo a calça de moletom, e abri a porta. Um segurança do turno da madrugada estava parado no corredor, mantendo uma distância respeitosa.
— Capo Romeo — o homem murmurou. — O Don exige a sua presença no escritório. Imediatamente.
Passei a mão pelo cabelo escuro, esperando mais um desastre provocado pela polícia federal nas docas. Desci as escadas e cruzei o palácio até a ala administrativa.
Entrei sem bater.
Meu pai estava sentado atrás da mesa. A expressão dele era de uma serenidade quase assustadora para um líder que estava sob o cerco do Estado.
— Sente-se, Romeo.
Puxei uma cadeira e aguardei.
— Mario Callegari está morto — Vittorio informou, direto e sem rodeios. — Caiu no chão do corredor dos Marino e espumou até a morte. Foi envenenado.
A notícia me atingiu com força. Mario não era apenas um segurança grande; ele era uma instituição de Palermo. Ele foi a sombra do meu pai por décadas, o homem encarregado de enterrar os piores problemas da nossa organização.
Procurei qualquer traço de luto no rosto de Vittorio. Não havia nada. Nenhuma ruga de tristeza, nenhuma raiva pela perda do seu braço direito. O Don relatava a morte do homem mais leal que já o serviu com a mesma indiferença com que descartava uma ferramenta quebrada.
— Vincenzo Farao obrigou Dante a ligar para cá — meu pai continuou, apoiando os antebraços na mesa. — O calabrês queria ouvir a minha rendição oficial por causa da morte do nosso soldado.
— E o que o senhor fez?
— Eu dei o que ele queria. Humilhei o seu irmão pelo viva-voz para que a casa inteira escutasse. Eu disse a Dante para aceitar a derrota, entregar os portões de Messina pela manhã e terminar com aquele circo para não iniciarmos uma cruzada inútil.
Entendi a manobra no mesmo instante. A humilhação pública serviria para Vincenzo e a sua comitiva baixarem a guarda por completo, acreditando terem dobrado Palermo.
— Antes de desligar o telefone, eu disse a Dante para não se esquecer da Família em Messina — Vittorio pontuou. — A mensagem foi entregue. Dante sabe que eu me referia a Cassio Sparacio. Agora é com ele. O seu irmão tem o sinal verde para contatá-los no centro da cidade e abrir a casa para a invasão amanhã.
O Don encerrou o assunto voltando a sua atenção para um dos papéis sobre a mesa. A morte de Mario foi dada por encerrada e o destino do leste foi selado. A responsabilidade da salvação do Estreito agora repousava inteiramente nos ombros do meu irmão caçula.
Levantei-me da cadeira e caminhei de volta para a porta.
Deixei o escritório com o gosto amargo da realidade da nossa linhagem na boca. A Famiglia Rossi era uma máquina feita para moer carne.
Se o meu pai não se abalava com o fim da sua sombra mais fiel, eu tinha a certeza de que a nossa sobrevivência contra a polícia pela manhã dependeria apenas de um novo derramamento de sangue.