CAPÍTULO UM

1767 Words
Eu acho péssima a maneira com que as pessoas se comunicam logo de manhã, com sorrisos e abraços para todos os lados e conversas sem a menor necessidade... Será que ninguém entende que felicidade pra valer é ficar dormindo de boa na cama? Ao menos deveriam poupar quem acredita na completa inutilidade de certas relações sociais. Eu, por exemplo, prefiro mil vezes curtir um silêncio com os meus próprios pensamentos. Gosto de ficar imaginando que estou na praia, bebendo uma caipirinha, e não indo pra aula de História às oito da manhã de uma tenebrosa segunda-feira, ainda por cima chuvosa. Na época, estava com dezoito anos e cursava o terceiro ano do ensino médio. Tinha reprovado o segundo grau por falta. (Ok, um pouco de bebidas e mulheres também influenciaram a minha sorte). Estávamos no segundo mês de aula, mas já estava tão cansado, que comecei a cogitar um possível abandono daquela m***a toda. Era mais fácil aceitar o emprego de frentista que o Seu Clóvis tinha me oferecido antes das aulas começarem. Se minha mãe tivesse permitido, claro. Pois é, minha mãe foi contra, apesar de eu já ter meus dezoito anos. No fundo, eu até compreendia: ela não queria que eu terminasse igualzinho a meu pai, um alcoólatra desajustado sem ter onde cair morto. E confesso que a realidade do meu pai assustava a mim também. Foi então que eu me rematriculei na escola e no começo até me esforçava pra que as coisas ocorressem da melhor maneira possível, sabe como é... Pra que eu não me desse tão m*l na vida como o meu pai. Mas nada parecia colaborar. Me lembro que, quando entrei na sala de aula, a maioria já estava sentada nos seus respectivos lugares. Por sorte, a professora ainda não havia chegado, então deu tempo de uma saidinha rápida ao banheiro. No caminho, avistei a Bella mexendo no armário, provavelmente pegando os livros do dia. Uma das suas amigas apareceu do nada e a abraçou com força. Nessa hora, eu notei que uma lágrima escorreu pelo rosto dela. Depois, seus lábios disseram algo inaudível. Num instante, ela me avistou no corredor e desviou o olhar em seguida. Senti um desconforto subir da boca do estômago até a garganta e corri para o banheiro. Lavei o rosto com bastante água fria e fixei meus olhos na minha própria imagem refletida no espelho manchado da escola. Aquela barba por fazer ainda me deixava com cara de mais velho do que eu realmente era. Não dava pra afirmar que eu era “o cara mais lindo do colégio”, mas... Digamos que alguma sorte eu tive com os meus mais de um metro e noventa de altura. Sempre consegui pegar todas as garotas que eu quis nas festas. Percebi que meu cabelo preto estava um pouco despenteado. Tentei acertá-lo molhando com a água da torneira, mas não adiantou lá muita coisa. No máximo, dei uma conferida se eu estava visivelmente decente e rumei de volta pra sala. No corredor, dessa vez não avistei mais nada de Bella. Já devia ter ido pra aula. Baguncei meus cabelos de novo e dei dois tapas em cada lado do rosto. Eu realmente era um i*****l. Talvez um copo de cerveja me faria sentir mais à vontade. Sim, mesmo às nove horas da manhã. Tinham trocado minha mochila de lugar. Olhei pro lado e Peter mexia no celular. Ele me avistou e bateu continência como uma espécie de cumprimento. Assenti com a cabeça e me sentei. A professora já falava qualquer coisa sobre neo-imperialismo e sobre como ele contribuíra pra tornar a África o que ela é hoje. Essa era uma daquelas professoras feministas m*l comidas que acham que a culpa de ter tanta gente pobre no país é do regime escravocrata que perdurou por séculos, segundo suas próprias palavras. E o pior é que ela nem era f**a. Se me desse mole eu comeria com toda certeza. Meu celular vibrou. Era Peter. Abri a mensagem, que dizia: "Maior climão, né? Por mim, as aulas deveriam ter sido suspensas por mais tempo depois da morte da garota lá" "A vida continua, brother. Eu preciso terminar essa p***a de ensino médio logo" "Real, mané, mas sei lá, tá esquisito aqui. Até você está com a cara estranha" "Ihhhh... Que foi, Peter? Tá com medo de assombração, é?! Kkkk... E minha cara está melhor do que nunca" "Claro que não, mas digo, a sensação de saber que a garota caiu do terraço daquele prédio. Isso não faz nem um mês. Eu também não tenho coração de gelo" Às vezes, eu não suportava o sentimentalismo do Peter. "Cara, você nem conhecia a garota... Larga de ser mané" "Ah, deixa pra lá. Vai fazer o que depois da aula?" "Vou pra casa. Minha irmã vai ficar comigo" "Kkkkk, virou babá, Matheo?" "Vsf... Kkkk... Mas curto ficar com aquela pirralha" "Ia chamar você pra gente jogar um futebol no videogame, Fifa" "Pô, seria uma boa mesmo, Peter... Amanhã, pode ser?" "Fechou, brother." A única coisa que me obrigava a olhar pra frente da sala de aula eram os p****s da professora. Pareciam ser empinados e macios. Fora que os b***s estavam marcando na blusa que ela vestia. Para dizer a verdade, eu não entendia nada do que ela falava e por alguns momentos cheguei até a dormir. Saí da aula e mais uma vez nada de Bella. Respirei fundo e me senti aliviado. Por pouco tempo: lá estava ela, no ponto de ônibus, com seus cabelos ruivos longos e lisos deslizando sobre as costas, o tipo de garota favorecida pela natureza, com o peso muito bem distribuído naquele corpo esguio de mais de um metro e setenta. Pensa numa pele branca e em lábios vermelhos (se bem que estavam tingidos com algum tipo desses batons com brilho). Seu nariz não era dos mais delicados, isso é verdade, mas lhe caía muito bem no conjunto do rosto. Numa palavra, não era o tipo de beleza convencional. Ela era diferente de tudo que eu já tinha visto. E na real, desejava às vezes nunca ter visto. Se eu arranjasse uma arma, naquele exato momento eu atiraria nela. Juro, bem dali, do pé na escada. Talvez acertasse na cabeça e visse seu sangue, vermelho da cor dos lábios, escorrendo pela blusa branca de manga comprida que ela vestia naquela tarde chuvosa. Como seria o cheiro do xampu de morango misturado com sangue? Afastei aqueles pensamentos e esperei mais um pouco, até que ela pegasse sua carona, para evitar um encontro no ponto. Logo em seguida, meu ônibus passou. Fiquei pensando... Não deve ser normal cogitar m***r alguém. Mas quando você sente repulsa, às vezes as ideias parecem fluir sem muito controle. Nessas horas, chegava até a entender a motivação de alguns assassinos. Eu era de falar pouco, mas sempre pensei muito. Principalmente porque a ideia de que ninguém teria acesso ao que se passa na minha mente me parecia fantástica e, assim, eu era livre para imaginar o que bem quisesse. Já me imaginei transando com uma garota do segundo grau no almoxarifado perto da quadra de esportes. Imaginava como seria a professora de História nua. Pensava em como seria ter todo o dinheiro do mundo. Qual seria a sensação de morrer? Pra onde vamos quando morremos? Beijar Bella, afinal, traria de novo uma sensação boa para aqueles dias escuros e alcoólicos que me assombravam?? Abri a janela do ônibus pra entrar mais ar. O problema de me largar em pensamentos era quando a coisa fugia ao controle e, do nada, lá estava eu a imaginar eventos, no mínimo, desagradáveis. Um copo de cerveja, só um copo. O vento bateu no meu rosto e eu despertei para outras coisas, mais práticas, como por exemplo, o que teria de almoço quando chegasse em casa. Queria que fosse frango frito. Seria perfeito. Cheguei em casa e Laura correu pra me abraçar. Ela tinha oito anos. – Matheo... – disse, pulando no meu colo. Peguei minha irmã e a abracei com força dando um beijo em sua bochecha. Minha mãe já estava pronta pra sair. Calçava os sapatos sentada no sofá. – Não devo demorar, Mat. Desculpe, eu também não pude cozinhar hoje. Sua irmã estava cheia de tarefas acumuladas da escola e passei parte da manhã ajudando com isso. Tem lasanha congelada. Aproveita e faça um pouco de arroz pra sua irmã. Nada de frango frito. Ok. – E como foi a aula, filho? Por que ela perguntava se sabia muito bem que eu ia contra a minha vontade? – Foi tudo bem! Coloquei Laura no chão e pedi que buscasse seus brinquedos. – Vou indo, então. Cuide bem da sua irmã. E não deixe ela dormir, senão à noite ela não consegue pegar no sono rápido. – Ok! Minha mãe me deu um beijo no rosto e saiu. Laura voltou com uma caixa de brinquedos. Havia muitas bonecas Barbie sem cabeça, peças de lego, e outros brinquedos não tão famosos. Ela espalhou tudo pelo chão da sala e me chamou pra brincar. Para ser honesto, eu adorava estar com ela. Laura parecia ser a única pessoa com quem eu podia conversar de verdade. Já disse que era mais calado com os outros, mas com a minha irmãzinha eu podia passar o dia todo contando as mais idiotas histórias de princesa. Me sentei no chão da sala. Imediatamente, ela me entregou uma das Barbies sem cabeça e solicitou que eu contasse uma história específica. Uma que eu já havia contado algumas vezes. – Por que você não continua a história da Rainha má chamada Bella que queria roubar o coração do Príncipe pra ele não se apaixonar pela linda princesa? Às vezes, Laura dizia frases inteiras sem uma única pausa. Mas não foi isso que me incomodou. Não mesmo. Bella era uma Rainha, só que má. E ninguém gosta de Rainhas. Digo, de Rainhas más. – Então a Rainha Bella, que era má, preparava uma poção maldita para enfeitiçar o lenhador. O jovem lenhador enfeitiçado deveria abrir o peito do príncipe Matheus com um machado, arrancar o coração sangrando e trazê-lo imediatamente para a rainha má numa bandeja de prata. – Mat, isso é h******l! – disse Laura, arregalando os olhinhos. Realmente, eu peguei pesado para uma história de princesa. Mas o terror daqueles dias alimentava dentro de mim uma inspiração meio macabra. Minha vida estava se tornando um thriller totalmente fora do meu controle. Maldita Bella. Como eu a desejava... Essa garota seria o meu fim. Um copo de vodka, apenas um. Sem limão, sem nada.
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