Morte Narrando Eu estava ali na sala, ainda fazendo as anotações do dia, riscando números, conferindo entrada e saída, colocando ordem onde quase nunca tem. A rotina me acalma. Papel não mente, número não chora, não cobra sentimento. Quando o celular vibrou, eu nem olhei na hora. Só depois de terminar a linha. Era mensagem do Dom. “Posso pedir lanche?” Soltei um ar pelo nariz, quase um riso cansado. Esse menino tem um poço profundo no estômago. Tinha acabado de jantar, um prato cheio, comida boa. A geladeira lá em casa está abastecida, armário então, nem se fala. Eu sei disso. E sei também que eu devia impor limites. Dizer não. Explicar que não é assim que funciona, que não é toda hora, que ele já comeu. Mas eu não consegui. Nunca consigo. Talvez porque toda vez que olho pra ele eu

