Nicholas puxou o braço de volta com firmeza, sem violência, mas com autoridade suficiente para deixar claro o limite.
— Lorde Heinrich. — disse, num tom calmo demais para ser gentil. — Peço que não me toque.
O homem empalideceu.
— Alteza, eu... eu não quis...
— Eu sei. — Nicholas respondeu. — Mas não faça novamente.
Antes que o lorde pudesse responder, Matthias surgiu ao lado deles.
— Primo. — disse, com naturalidade ensaiada. — O rei está te chamando.
Nicholas não perdeu um segundo.
— Claro. — respondeu, já se afastando.
Heinrich fez uma reverência apressada, murmurando desculpas que ninguém mais ouviu.
Quando Nicholas finalmente retomou o caminho até eles, Sophie soltou o ar que nem tinha percebido que estava segurando.
— Obrigada por isso. — ela disse, baixinho, para Matthias.
— Sempre é um prazer salvar príncipes de conversas mortais. — ele respondeu, piscando.
Nicholas finalmente conseguiu se aproximar do grupo.
Faltavam poucos passos quando, inevitavelmente, mais um obstáculo surgiu.
— Alteza. — disse um novo lorde, surgindo do nada, com um sorriso cheio de intenções conversatórias. — Que honra encontrá-lo esta noite. Sou o lorde Friedrich von Lenzburg, talvez se recorde...
— Lorde Friedrich. — Matthias interrompeu com um sorriso impecável, já se afastando meio passo. — Peço que me perdoe, mas o rei solicitou a presença imediata do príncipe. Ele promete uma conversa mais longa em outra ocasião.
Não esperou resposta.
Virou-se no mesmo instante e seguiu ao lado de Nicholas, como quem foge de um incêndio.
— Obrigado, outra vez. — murmurou para o primo, assim que se afastaram o suficiente.
— Sempre às ordens. — Matthias respondeu, divertido. — Estou começando a achar que esse é meu verdadeiro papel na corte.
Quando enfim chegaram até o grupo, Nicholas soltou um suspiro exagerado.
— Esse salão deve ter uns cem metros de comprimento. — disse. — Porque é simplesmente impossível atravessar isso aqui.
Edmund riu, sem qualquer compaixão.
— Você é uma celebridade, meu filho.
Nicholas os encarou, desconfiado.
— Vocês estavam todos se divertindo, não estavam?
Katarina cruzou as mãos à frente do corpo, fingindo inocência.
— Se disséssemos que não, seria mentira.
— Claro. — Nicholas bufou. — É porque vocês não estavam ouvindo sobre a drenagem de solo do lorde Heinrich.
As risadas vieram imediatas.
Foi então que ele finalmente olhou para Sophie.
De verdade.
O sorriso surgiu sem esforço, os olhos brilharam como se todo o salão tivesse diminuído de tamanho.
— Você está linda, meu amor. — disse, baixo o suficiente para que só eles ouvissem.
Sophie sentiu o rosto esquentar na hora.
Katarina revirou os olhos, divertida.
— Por favor. — comentou. — Todo esse açúcar faz m*l.
Nicholas lançou um olhar para ela, teatral.
— Depois, quando eu mandar você abaixar a cabeça e obedecer, vai ficar com raiva, princesa.
Katarina caiu na gargalhada junto com os outros.
— Nossa. — disse, rindo. — Vou te falar... está todo mundo muito íntimo nessa família. Uma liberdade pra zoação que impressiona.
Nicholas voltou o olhar para os pais.
— Eu não sabia que ela ia receber autorização para vir.
Edmund deu de ombros, casual.
— Achamos que uma surpresa ajudaria. — disse. — Ficamos com medo de você cair duro no chão antes do fim da noite.
Nicholas abriu a boca para responder... pensou melhor... e riu.
— Obrigado. — disse, sincero.
— Agradeça cumprindo suas tarefas do baile. — Eleanor completou, firme e doce ao mesmo tempo. — Todas, Nicholas. Depois você pensa em conversinha mole para cima da Sophie.
Ele bufou, resignado.
— Crueldade pura.
Então se virou para Katarina e estendeu a mão, postura perfeita, sorriso contido.
— Vamos começar pela tarefa mais árdua da noite, então. — disse. — Aguentar a Katarina por uma valsa inteira.
Ela fingiu ofensa.
— Olha... vou te dizer... — respondeu, colocando a mão na dele — está todo mundo muito abusado hoje.
Nicholas riu e levou a outra mão para trás, convidando-a a segui-lo.
Antes de se virar em direção à pista de dança, lançou um último olhar para Sophie.
Uma piscada rápida. Íntima.
Depois se afastou com Katarina, caminhando em direção à pista.
A música se espalhou pelo salão com suavidade, conduzindo os primeiros passos.
Nicholas e Katarina se moveram com precisão impecável, como se aquele espaço tivesse sido feito para eles. Ele conduzia com firmeza tranquila; ela acompanhava com leveza, o vestido azul desenhando arcos perfeitos a cada giro. Não havia romance ali, mas havia beleza, harmonia e um entendimento silencioso do papel que ambos desempenhavam.
Sophie observava tudo de onde estava.
E, contra a própria vontade, precisou admitir: eles dançavam lindamente.
— Pronto. — murmurou, cruzando os braços. — Depois disso, eu oficialmente não quero dançar.
Eleanor virou-se para ela, divertida.
— Querida... — disse, contida demais para não rir — você está em um baile.
— Eu sei. — Sophie respondeu, sem tirar os olhos da pista. — Mas eu não posso pagar esse mico.
Matthias arqueou uma sobrancelha.
— Que mico?
— Ele é o destaque da noite. — Sophie continuou, gesticulando discretamente em direção a Nicholas. — Todo mundo olhando. E eu lá, pisando no pé do príncipe.
Fez uma careta dramática.
— Que vergonha.
O rei foi o primeiro a rir, uma risada aberta e genuína.
— Você é uma graça. — comentou Edmund, balançando a cabeça.
A rainha acompanhou, sorrindo com carinho.
— E bastante sincera.
Matthias cruzou os braços, divertido.
— Eu pagaria para ver o Nicholas sendo pisado. — disse. — Só para equilibrar o universo.
— Não ajude. — Sophie respondeu, rindo, finalmente desviando o olhar da pista.
Mas voltou a olhar logo em seguida.
Nicholas girou Katarina com elegância, o rosto sério apenas o suficiente para cumprir o protocolo, mas, por um segundo breve, o olhar dele escapou. Procurou instintivamente.
Encontrou Sophie.
E mesmo à distância, ela percebeu: o sorriso que ele deu ali não era ensaiado.
Não era para o salão. Era para ela.
Sophie sentiu o estômago revirar, o coração bater mais rápido.
Talvez... talvez ela fosse pisar no pé do príncipe, afinal.
A música terminou sob aplausos educados.
Nicholas agradeceu com um aceno breve, soltou a mão de Katarina e a conduziu de volta até onde a rainha estava. Tudo correto. Tudo impecável.
— Obrigada. — Katarina disse, baixa, com um sorriso sincero.
— Obrigado a você. — ele respondeu. — Pela parceria.
Ela inclinou a cabeça, divertida.
— Agora vá sobreviver ao resto.
Ele soltou um meio sorriso cansado e se afastou.
O salão parecia ainda maior agora.
Nicholas respirou fundo e se lançou à próxima etapa do que vinha chamando, mentalmente, de maratona social.
Foi abordado quase imediatamente por uma dama da nobreza mais velha, que o parabenizou pelo retorno. Ele sorriu, agradeceu, ouviu comentários sobre como o povo estava feliz em revê-lo. Respondeu tudo no tom certo. Nem mais, nem menos.
Depois, aceitou dançar meia música com uma jovem de vestido verde-esmeralda, filha de um conde influente. Passos simples, conversa educada, nenhum envolvimento além do necessário. Ao final, agradeceu e seguiu em frente.
Enquanto isso, seus olhos escapavam o tempo todo.
Procuravam Sophie.
Ela ainda estava ali, próxima à família real, conversando com Eleanor e Matthias. Ria de algo que Matthias dizia. O riso dela era fácil de reconhecer, mesmo de longe.
Aquilo o mantinha de pé.
Um criado anunciou o brinde.
As taças foram erguidas, o rei falou poucas palavras sobre união, continuidade e esperança. Nicholas levantou a taça no momento certo, bebeu um gole pequeno, ouviu os aplausos.
Dever cumprido.
Nicholas voltou para perto da mesa real assim que se afastou do último compromisso. Não precisou atravessar o salão, Sophie estava ali o tempo todo, próxima demais para que ele fingisse que não era exatamente para onde queria ir desde o início da noite.
Edmund o observou se aproximar e arqueou levemente a sobrancelha, divertido.
— Muito bem. — disse, em tom solene demais para ser levado a sério. — Agora você está oficialmente liberado para jogar conversinha mole pra cima da Sophie.
Sophie soltou uma risada imediata, surpresa.
— Majestade...
— Não se faça de desentendida. — Eleanor completou, sorrindo. Nicholas bufou, fingindo indignação.
— Ao menos aqui — disse — a gente pode conversar um pouco sem ninguém estranhar. Depois de tanta gente chata falando comigo, eu mereço.
— Ei! — Matthias protestou. — Não me inclui nisso.
— Você é exceção. — Nicholas concedeu.
Sophie sorriu para ele, um pouco nervosa agora que o tinha tão perto.
— Eu preciso te avisar uma coisa. — disse. — Eu não sei dançar.
Ele inclinou a cabeça, interessado.
— Eu te ensino.
— Você vai mesmo me ensinar aqui? — ela rebateu.
— Vou. — respondeu, simples.
— Eu vou pisar no seu pé. — Sophie insistiu.
Nicholas olhou para os próprios pés, avaliando.
— Esse sapato é novinho. — comentou. — Então se esforce pra não estragar.
A família caiu na risada.
— Deixa de ser medrosa, Sophie. — Eleanor disse, com carinho. — Vai.
Katarina assentiu, cúmplice.
— Pra sua sorte, se tem uma coisa que ele faz bem... é dançar.
Nicholas olhou para ela, teatralmente ofendido.
— Minha nossa, Katarina. — disse. — Depois que te dei confiança, você nunca mais me elogiou.
— Isso foi um elogio, querido. — ela respondeu, tranquila.
Ele balançou a cabeça, rendido.
Então se voltou para Sophie, estendendo a mão com elegância impecável.
— Não é educado recusar uma dança, senhorita Sophie. — disse. — Principalmente quando é o príncipe herdeiro quem convida.
Ela cruzou os braços, fingindo indignação.
— Não. — disse. — Agora você está apelando.
Nicholas riu.
— Às vezes esse título precisa servir para alguma coisa.
Sophie suspirou, derrotada, mas sorrindo.
— Se eu cair, eu nunca mais apareço na frente dessas pessoas.
Ele se inclinou um pouco mais, a voz baixa, segura.
— Você não vai cair. — disse. — Eu te seguro, linda.
Edmund riu alto.
— Nossa... — comentou — mas esse meu filho é um poço de romantismo.
Nicholas riu junto e, sem dar mais tempo para que Sophie pensasse demais, segurou a mão dela com firmeza suave.
— Vem. — disse.
E a puxou gentilmente em direção à pista de dança, como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo para os dois estarem.