Capítulo 8

1337 Words
Os olhos dela começaram a se mover devagar, como se estivesse ligando pontos invisíveis. O homem estranho no consultório. A palavra “Alteza”. O sotaque. O jeito contido. O brasão no traje do rei na televisão. Ela deu um passo à frente. Depois outro. Pegou a mão dele sem pedir permissão e puxou para mais perto, os dedos firmes. O anel. O brasão era exatamente o mesmo. Sophie levou as mãos à cabeça, como se estivesse prestes a desmaiar. — Meu Deus… — murmurou. — Por que você escondeu isso de mim? — Porque eu não gosto de ser quem eu sou — respondeu rápido, quase desesperado. — Eu prefiro mil vezes ser o Nick. Como só você me chama. Ela apertou o maxilar. — Claro que só eu chamo — disse, amarga. — O resto do mundo te chama de Alteza. Deu um passo para trás. — O que eu deveria fazer agora? — perguntou. — Me curvar? Te reverenciar? — Por favor, não — ele implorou. — Não fique chateada por eu não ter te contado. Ela respirava rápido. — O teu sotaque estranho… — enumerou. — O jeito correto demais de falar, de agir, de andar… Nicholas fechou os olhos por um instante. — Sophie, por favor — a voz dele falhou. — Eu estou desesperado. Eu sei que é muita coisa, mas… eu preciso de você. Eu preciso de ajuda. Ela o encarou. Por um segundo, pensou em todas as vezes em que quase perguntara algo mais. Em todas as vezes em que segurara a língua porque ele era o chefe. Porque nunca dava a******a. Porque parecia sempre um passo distante demais para ser alcançado. — O que um príncipe precisaria da ajuda de alguém como eu? Ele deu um passo à frente. — Eu te disse ontem — falou baixo. — Se um rei acha que é melhor que o povo, ele é um péssimo rei. Isso vale pra príncipes também. Ela cruzou os braços. — Você não é como eu. — Sou, sim. — Não é — rebateu. — Você tem sangue real. Ele suspirou, derrotado. — Eu te imploro, Sophie. Por favor, me ajude. O silêncio se estendeu. Ela percebeu o tremor leve na respiração dele. O modo como o anel girava sem parar. — Eu preciso… — começou, a voz falhando — que você aceite namorar comigo. As palavras ficaram suspensas no ar. Pesadas. Irreversíveis. Sophie piscou algumas vezes. Então riu. Não foi uma risada leve. Foi curta, incrédula, nervosa demais para esconder o impacto. — Você enlouqueceu? Nicholas passou a mão pelos cabelos, respirando fundo. — Eu sei que são revelações demais — disse rápido, atropelando as próprias palavras. — É muita coisa junta. Eu sei. Mas eu preciso disso. Eu preciso mesmo. Ela o encarou, séria de repente. — Namorar você é um favor, Nicholas? O nome saiu por instinto. Familiar. Perigoso. Ela se corrigiu quase no mesmo segundo: — Quer dizer… Alteza. Ele bufou, cansado. — Por favor, não me chama assim. Eu detesto isso. Ela soltou uma risada desacreditada. — Quando virar majestade, vai odiar ainda mais. Ele deixou escapar uma risadinha breve, quase triste. — Nem consigo imaginar isso. Eu saí de Auren faz sete anos. Eu escolhi a vida que eu levo aqui. Eu gosto da minha casa, de atender meus cachorros… — hesitou, olhando para ela. — De conversar com você quando a clínica fica vazia. O rosto dela esquentou antes que pudesse impedir. Quantas vezes ela também gostara daqueles momentos? Quantas vezes confundira aquilo com rotina, porque admitir qualquer outra coisa parecia errado demais? — Mas… — disse, tentando se recompor. — Seu pai veio te levar de volta. Nicholas se sentou no sofá, passando as mãos pelo rosto como se tentasse se esconder do próprio destino. — Veio. Porque eu estava ignorando a corte. E-mails, telefonemas… — suspirou. — Então ele cruzou o oceano para me buscar. Ela o observou em silêncio por um segundo. — Ok. — inclinou a cabeça. — E eu entro nisso como? Ele hesitou outra vez. O silêncio se esticou, pesado. — Eu tenho uma noiva — disse por fim. — Prometida desde que eu era criança. O chão pareceu ceder um pouco sob os pés dela. — Nossa… isso não é coisa do século passado? Ele riu sem humor. — Para eles, aparentemente é normal. Imagina… você olha duas crianças e decide que elas vão se casar. — Isso é ridículo — Sophie disse, rindo nervosa. — Vocês nem sabem se vão se gostar. — Pois é! — ele concordou, quase aliviado por ela entender. — Meu pai veio me arrastar de volta para esse casamento. Ela respirou fundo. — E aí? — E aí… — ele engoliu em seco. — Eu disse que amava você. O rosto dela ficou vermelho na mesma hora. — Você enlouqueceu mesmo, Nicholas! — Um pouco — admitiu, encolhendo-se diante da reação dela. — Isso é loucura! — ela exclamou. — Você mentiu pra um rei! — Antes de rei, ele é meu pai — rebateu. — Sabia? — Ótimo — ela cruzou os braços. — Porque pra mim ele é rei de um reino que eu nem sei onde fica e que pode mandar me enforcar por falso testemunho. Nicholas gargalhou. De verdade. — Eu não fiz piada! — Sophie reclamou. — Sophie, fala sério — ele disse, ainda rindo. — Você acha que meu pai é o quê? — Eu não tenho como saber! — ela rebateu. — Nunca conheci nenhum rei. Só o rei Salomão da Bíblia, e ele mandou cortar uma criança no meio. Mandar enforcar alguém não é nada perto disso. Ele riu mais ainda. — O rei Salomão mandou cortar sabendo que a mãe verdadeira não deixaria. Você leu só o começo da passagem, pelo visto. Ela fez uma careta. — Ué, tem Bíblia no teu reino? — Tem Bíblia no mundo todo. — Sei — deu de ombros. — Enfim… eu não posso fazer isso. Algo dentro dele se partiu. Não foi visível, mas doeu. — É loucura — ela continuou. — Como a gente vai fingir que namora? Fingir. A palavra pesou porque, no fundo, ela sabia: fingir não seria o problema. O problema seria parar depois. — Não é nada demais — ele insistiu, levantando-se devagar. — Com esse seu jeito, meu pai vai te adorar. É disso que eu preciso. Que ele me apoie para cancelar o acordo de casamento. Só isso. Ela o encarou como se ele tivesse perdido completamente o juízo. — Seu pai vai me adorar? Eu? — soltou uma risada curta. — Fala sério, alteza. — Você vai mesmo ficar me chamando assim? — Vou. — Viu só? — ele bufou. — Por isso que eu nunca falei. — E eu tô fazendo isso justamente porque você nunca falou — ela retrucou. Ele suspirou, derrotado por um instante. — Sophie, eu preciso muito da sua ajuda. Eu te recompenso com o que você quiser. Eu deixo você rica. Ela balançou a cabeça lentamente. — Dinheiro não é tudo, alteza. — respirou fundo. — Eu não posso fingir namorar você. Eu não saberia fazer isso. — Não é tão difícil — ele disse, a voz mais baixa. — Eu sou tão horroroso assim? A pergunta saiu crua. Vulnerável. Ela hesitou. Pensou em todas as vezes em que evitara pensar demais nele. Em como sempre gostara mais do que devia. — Não… — respondeu com sinceridade. — Mas é estranho. A gente teria que se beijar. Andar de mãos dadas. Não vê como isso tudo é constrangedor? Nicholas ficou de pé. Deu um passo na direção dela. — Você não gostaria de me beijar? O mundo parou. Sophie ficou imóvel. O coração disparado denunciava o que ela nunca tivera coragem de dizer em voz alta, nem a ele, nem a si mesma. E naquele silêncio, ela percebeu que talvez o problema nunca tivesse sido fingir, mas admitir que, no fundo, nunca fora fingimento nenhum.
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