Edmund foi o primeiro a se levantar como sempre.
O movimento foi quase imperceptível, mas o efeito imediato. Os criados cessaram os gestos, a conversa morreu por um segundo. O rei pousou o guardanapo sobre a mesa com precisão.
— Vou apenas escovar os dentes — disse, num tom neutro. — E te encontro em alguns minutos no salão principal. Tudo bem, meu filho?
Nicholas assentiu.
— Tudo bem.
Edmund saiu sem olhar para trás.
O alívio foi imediato, quase físico.
Eleanor respirou fundo e voltou-se para o filho, o olhar apreensivo.
— Meu amor... — disse com cuidado. — Encerra essas brigas com seu pai.
Nicholas balançou a cabeça.
— Não é briga, mãe. — respondeu, mais calmo. — É uma conversa. Não mais briga.
— Já deu pra perceber que agora vocês brigam sempre — Matthias comentou, tentando aliviar.
Nicholas soltou um meio sorriso irônico.
— É porque ele está virando um tirano.
Katarina riu, surpresa.
— Isso foi uma piada?
Nicholas a encarou.
— Foi?
Ela inclinou levemente a cabeça, ainda sorrindo.
— Meu pai é um tirano, Nicholas. — disse, tranquila. — O seu é um rei justo. Atencioso com todos.
— Com todos... — ele respondeu, o tom mudando — ...exceto comigo.
Houve um pequeno silêncio.
— Ele prometeu muita coisa para me trazer até aqui, Katarina — continuou, agora claramente mais informal. — E eu vou cobrar cada uma dessas promessas.
Katarina cruzou os braços, curiosa.
— E alguma dessas promessas tem a ver comigo?
Nicholas riu, incrédulo.
— Até onde eu sei, Katarina... — disse, o tom escurecendo — você não deveria falar comigo dessa forma.
O ar mudou.
— Princesas não deveriam abaixar a cabeça e obedecer?
Não foi a frase.
Foi o tom.
O comando implícito.
O olhar firme demais.
A autoridade que ele tanto odiava... e que, ainda assim, carregava.
Katarina engoliu em seco.
Endireitou a postura.
— Me desculpe... Vossa Alteza.
Nicholas percebeu tarde demais.
Virou-se e saiu, o passo rápido, o peito apertado por dois motivos distintos: a conversa que teria com o pai... e o gosto amargo de ter sido exatamente quem jurou nunca ser.
Usara o tom do rei.
O tom do futuro marido.
O tom que não deixava espaço para resposta.
Ela tinha obedecido.
E todos sabiam que obedeceria.
Não porque quisesse.
Mas porque não havia opção.
E isso o fez se odiar.
Porque aquele não era o homem que ele queria ser.
**
O escritório estava silencioso quando Nicholas entrou.
Edmund já estava ali, sentado atrás da mesa pesada de madeira escura, lendo alguns documentos. Não parecia apressado. Nem irritado. Apenas atento.
Parou no mesmo instante em que Nicholas fechou a porta atrás de si.
Levantou o olhar.
— E então, filho. — disse, direto. — Do que se trata?
Nicholas respirou fundo antes de responder. Ainda carregava o peso da conversa no salão. Da própria voz. Do tom que usara com Katarina.
— Como "do que se trata"? — respondeu, tentando manter a calma. — Se trata da Sophie, pai.
Edmund suspirou, encostando-se na cadeira.
— E o que exatamente, meu filho?
Nicholas deu alguns passos pelo escritório, inquieto.
— O senhor me prometeu ser compreensivo. Comigo, com ela... com a gente. — disse. — O senhor gostou dela. Aceitou trazê-la. Mas aqui...
— Mas aqui o quê, Nicholas? — Edmund interrompeu, com firmeza contida. — O que você quer de mim?
Fez um gesto com a mão, amplo.
— Chegamos ontem. Ontem mesmo eu permiti que você fosse vê-la. Não mandei ninguém atrás de você, não coloquei guardas vigiando corredores. Confiei no seu bom senso. — inclinou levemente a cabeça. — O que mais você espera de mim, filho?
Nicholas parou.
— Eu quero que o senhor resolva essa situação.
Edmund arqueou levemente as sobrancelhas.
— Como?
Fez uma pausa curta.
— Você quer o quê? Que eu mande a Katarina de volta para casa sem mais nem menos? — a voz permaneceu calma, mas firme. — Que eu envie uma mensagem ao Radovan dizendo que você não vai honrar um acordo selado há anos? Que a filha dele, que se dedicou a este reino desde a adolescência, volte agora como se nada tivesse acontecido?
O silêncio se alongou.
— Me diga, Nicholas. — Edmund insistiu. — O que exatamente você espera de mim?
Nicholas passou a mão pelo rosto.
— Eu não sei, pai. — admitiu. — Mas não dá pra continuar assim. A mulher que eu amo indo sozinha para uma ala fria desse castelo... e eu tendo que sentar à mesa com a Katarina como se nada estivesse acontecendo.
Edmund soltou uma risada curta. Sem humor.
— Você não pode pedir que eu insulte a princesa Katarina colocando Sophie para sentar à nossa mesa. — disse. — Isso é absurdo, Nicholas.
Endireitou-se na cadeira.
— Oficialmente, ela é sua noiva. Ela tem direitos. Não podemos humilhá-la. — fez uma pausa. — E, sendo muito claro: ter Sophie neste castelo já é uma afronta. Permitir que você fosse ao quarto dela à noite foi uma afronta maior ainda.
Nicholas respirou fundo.
Sabia que o pai estava certo.
— O senhor me prometeu, pai. — disse, mais baixo. — Disse que ao menos tentaria conversar com ele.
Edmund assentiu lentamente.
— E vou cumprir. — respondeu. — Mas tenha paciência, meu filho. Chegamos ontem.
Levantou-se e caminhou até a janela.
— Hoje ainda vou enviar um comunicado ao rei Radovan solicitando uma audiência. Pedindo que ele venha até Auren.
— Seria mais fácil irmos até lá — Nicholas comentou.
Edmund riu, descrente.
— Você é louco, não é? — virou-se para o filho. — Quer ir cutucar a onça dentro do reino dela?
Balançou a cabeça.
— Esse homem não é conhecido por ser razoável. Vamos até lá, dizemos coisas que ele não quer ouvir, ele enlouquece e nos prende. Já imaginou? — suspirou. — Ele tem que vir aqui. Precisamos estar seguros para tocar nesse assunto.
Voltou a encarar Nicholas.
— Vou enviar a mensagem hoje. Tenha paciência. — disse, com firmeza serena. — Eu vou te apoiar enquanto puder. Até onde eu conseguir.
A voz suavizou.
— Você é meu filho. E eu quero te ver bem. Compreende?
Nicholas suspirou.
— Eu também te amo, pai. — disse. — Mas ficar regulando minhas idas até a Sophie está acabando comigo. Ela come sozinha, não conhece nada nem ninguém... e veio até aqui por minha causa.
Edmund assentiu, sério.
— Todos nós vamos ter que fazer sacrifícios nessa história. — respondeu. — Você, ela, eu... Katarina. Todo mundo.
Fez um gesto breve.
— Converse com ela. E depois vocês podem se ver. Desde que não seja na frente da Katarina como hoje cedo.
— Não foi de propósito — Nicholas apressou-se em dizer. — Ela realmente se perdeu. Acabou encontrando eu e o Matthias. Estávamos levando ela de volta.
— Eu sei. — Edmund respondeu. — Eu entendo.
Nicholas respirou fundo.
— Eu vou ser o melhor príncipe. — disse, sincero. — O herdeiro mais perfeito... desde que eu consiga ter a Sophie comigo. Eu te juro, pai. O senhor nunca mais vai ter o que reclamar de mim.
Edmund riu.
— Veja bem o que você está prometendo, meu filho.
Nicholas riu também.
— Estou falando sério. — completou. — Até dessa farda horrorosa eu paro de reclamar.
— Já encomendei mais algumas ao Henrik — Edmund disse, divertido.
— Eu já imaginava. — Nicholas respondeu. — Não dá para viver só com uma.
Edmund riu de verdade dessa vez.
— Então estamos combinados? — perguntou. — Assim que o Radovan responder, eu te aviso. Pode ser?
— Pode.
Edmund assentiu, satisfeito.
— Foi bom conversar com você, filho.
Caminhou até a porta.
— Agora... — disse, abrindo-a — vamos para a antessala do trono. A conversa é outra.
Nicholas bufou.
— Vou levar bronca do rei de novo?
Edmund riu, já saindo.
— Você merece broncas infinitas.
E, com isso, o pai ficava para trás.
O rei aguardava.