Capítulo 31

1270 Words
Sophie arregalou os olhos... e então riu, nervosa. — Meu Deus... isso não vai dar certo. — admitiu. — Toda vez eu esqueço que preciso reverenciar vocês. Katarina riu junto. — "Vocês?" — repetiu, divertida. — Ora... pelo visto somos todos muito amigos mesmo. Piscou um olho. Matthias caiu na risada. Nicholas observava a cena, claramente surpreso. — Matthias esqueceu de me avisar que a princesa é bem-humorada — comentou. — Eu avisei — Matthias rebateu. — Você que nunca presta atenção. — Ah, cala a boca, i****a — Nicholas respondeu, automático. Congelou no mesmo instante. — Desculpe, princesa — emendou, apressado. Katarina riu, sincera. — Vejo que aprendeu maus hábitos na temporada no Brasil, Nicholas. Ela disse o nome dele com tanta informalidade que o deixou desconcertado. — Você não tem ideia de quantos — Matthias comentou. — De verdade, Katarina. Ela soltou uma risada deliciosa. — Vou querer saber. — disse. — Quando nos trancarem numa sala e nos obrigarem a conversar como se quiséssemos isso. Nicholas ergueu uma sobrancelha. — E nós não queremos? Katarina riu. — Definitivamente não. — respondeu. — Mas que opção temos? Ele sorriu, entendendo exatamente o que ela queria dizer. Foi então que uma voz cortante soou atrás deles: — Nicholas. O ar mudou. O rei havia chegado. A mudança foi imediata. O sorriso morreu no rosto dos quatro no exato segundo em que a presença dele se impôs no corredor. Nicholas foi o primeiro a reagir. Num gesto quase inconsciente, deu um passo à frente e colocou Sophie ligeiramente atrás de si, como se o próprio corpo pudesse protegê-la do que quer que viesse. Não era racional. Era instinto puro. O rei Edmund aproximava-se com passos firmes, acompanhado por Alistair, o secretário fiel que parecia existir como uma extensão silenciosa da vontade real. Matthias foi o primeiro a se recompor. Katarina e Sophie o seguiram imediatamente. Os três fizeram uma reverência formal, contida, perfeita. Nicholas não. Não precisava. Todos ali sabiam. O olhar de Edmund passou por cada um deles com precisão cirúrgica antes de parar no filho. — Posso saber por que eu e Eleanor estamos aguardando vocês três para o café da manhã... — disse, pausado — ...e ninguém apareceu? Nicholas sustentou o olhar do pai. — Ora, pai. Estamos indo. — respondeu. — Todos reunidos. — Claro — Edmund retrucou, seco. — E eu devo acreditar que isso é verdade? — É — Nicholas confirmou. — Já estávamos a caminho do salão. Katarina deu um passo à frente, suave. — É verdade, Vossa Majestade. Matthias assentiu. — A senhorita Sophie se perdeu da dama de companhia e não sabia retornar à ala de hóspedes — explicou. — Estávamos apenas levando-a até lá. Edmund ergueu levemente uma sobrancelha. — Os três? — perguntou. — Ela precisa de dois príncipes e uma princesa para atravessar alguns blocos do castelo? Nicholas abriu a boca, pronto para responder algo que definitivamente não ajudaria. Mas Katarina foi mais rápida. — Ela é nossa hóspede, meu rei — disse, com doçura firme. — Precisamos tratá-la bem. Nada mais cordial do que ajudá-la. Não é, meninos? — Exatamente — Matthias confirmou, sem hesitar. Nicholas virou o rosto para Katarina, visivelmente surpreso. Ela continuou, impecável: — Aproveitei para trocar algumas palavras com Nicholas — acrescentou. — Fazia anos que não nos víamos. Acabamos nos atrasando. Peço perdão por isso. Nunca foi nossa intenção deixar Vossa Majestade esperando. Edmund a observou por um longo segundo. — Muito bem — disse por fim. — Vocês vão conversar. Mas mais tarde. — Estamos muito ansiosos por esse momento, não é? — Katarina respondeu, sorrindo com uma naturalidade quase provocadora. Nicholas não respondeu. Ela cutucou o braço dele, discreta. — Não é? — Com certeza, meu pai — Nicholas disse, recomposto. — Estamos muito ansiosos por esse momento a sós. O rei não acreditou por um segundo sequer. Mas assentiu. — Alistair — chamou. — Leve a senhorita Sophie até a ala de hóspedes. Depois, voltou-se para os três. — E vocês, comigo. Para o salão. Virou-se e partiu, sem esperar resposta. Sophie soltou uma risadinha baixa. — Eu gosto dela — comentou, sincera. E seguiu com Alistair pelo corredor. Katarina sorriu. — Vou conversar com você depois — disse à Sophie. — Preciso de uma amiga nesse mausoléu. Sophie riu e seguiu em frente. Nicholas arregalou os olhos e deixou escapar uma risada incrédula. — Mausoléu? Katarina apenas olhou por cima do ombro... e riu, seguindo adiante. Matthias observou a cena, satisfeito. — Eu te falei que ela era incrível, não falei? Nicholas não respondeu. Apenas respirou fundo e seguiu para o salão ao lado do primo, com a sensação incômoda de que nada naquela história era tão simples quanto ele sempre acreditou. O salão de café da manhã estava impecável. Luz natural entrando pelas janelas altas, a mesa longa posta com precisão excessiva, criados se movendo em silêncio quase coreografado. Nada ali era casual. Nada nunca era. Edmund ocupava a cabeceira, postura ereta, expressão fechada. Nicholas á sua direita. Eleanor sentava-se à sua esquerda, serena como sempre, tentando suavizar o ambiente apenas com a presença. Matthias estava alguns lugares abaixo, atento, discreto. Katarina sentava-se à frente de Matthias, postura perfeita, mãos repousadas com elegância sobre a mesa. Nicholas mantinha as costas retas, o olhar controlado. A farda ainda pesava mais do que deveria. O atraso não foi mencionado em voz alta, mas estava ali, pairando entre os talheres e os silêncios. — Dormiram bem? — Eleanor perguntou, num tom gentil, depois dos primeiros minutos. — Sim, tia — Matthias respondeu primeiro. — A noite foi tranquila. Katarina assentiu. — Muito confortável. Nicholas respondeu por último: — Sim, mãe. Edmund não comentou. O café seguiu com observações práticas: clima, agenda do dia, a chegada de alguns ministros ao longo da semana. Tudo fluía... relativamente bem. Até que Edmund pousou a xícara com mais firmeza do que o necessário. — Fiquei sabendo — disse, casual demais para não ser calculado — que você passou parte da manhã circulando pelo castelo antes do café, Nicholas. O olhar dele encontrou o do filho. Nicholas sentiu o maxilar tensionar. — Sim, senhor. — Interessante — Edmund continuou. — Considerando que temos horários claros para evitar... desencontros desnecessários. Katarina manteve o olhar baixo, mas havia um brilho atento ali. Matthias permaneceu neutro. Nicholas respirou fundo. — Com todo respeito — disse, a voz controlada, formal —, eu resolvi uma situação pontual antes do café. — Uma situação que exigiu atrasar todos nós? — Edmund perguntou, sem elevar o tom. Eleanor pousou delicadamente a mão sobre a mesa. — Edmund... — Está tudo bem, Eleanor — ele respondeu, sem tirar os olhos do filho. O silêncio se alongou por um segundo a mais do que deveria. Então Nicholas falou: — Será que eu poderia ter um momento com o senhor... meu pai? A mudança de palavra foi sutil. Mas todos à mesa perceberam. Edmund ergueu o olhar lentamente. — Você terá — respondeu. — Logo após o café. Na audiência. — Não — Nicholas disse, com firmeza educada. — Eu não estou pedindo um momento com o rei. Estou pedindo um momento com o meu pai. O salão pareceu prender a respiração. Eleanor olhou de um para o outro, tensa. Matthias manteve os olhos baixos. Katarina, agora, observava abertamente curiosa, respeitosa, sem interferir. Edmund ficou em silêncio por alguns instantes. O rei. O pai. Por fim, assentiu uma única vez. — Muito bem — disse. — Antes da audiência com o rei... nós conversamos. Nicholas inclinou levemente a cabeça. — Obrigado. O café continuou.
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