Sophie arregalou os olhos... e então riu, nervosa.
— Meu Deus... isso não vai dar certo. — admitiu. — Toda vez eu esqueço que preciso reverenciar vocês.
Katarina riu junto.
— "Vocês?" — repetiu, divertida. — Ora... pelo visto somos todos muito amigos mesmo.
Piscou um olho.
Matthias caiu na risada.
Nicholas observava a cena, claramente surpreso.
— Matthias esqueceu de me avisar que a princesa é bem-humorada — comentou.
— Eu avisei — Matthias rebateu. — Você que nunca presta atenção.
— Ah, cala a boca, i****a — Nicholas respondeu, automático.
Congelou no mesmo instante.
— Desculpe, princesa — emendou, apressado.
Katarina riu, sincera.
— Vejo que aprendeu maus hábitos na temporada no Brasil, Nicholas.
Ela disse o nome dele com tanta informalidade que o deixou desconcertado.
— Você não tem ideia de quantos — Matthias comentou. — De verdade, Katarina.
Ela soltou uma risada deliciosa.
— Vou querer saber. — disse. — Quando nos trancarem numa sala e nos obrigarem a conversar como se quiséssemos isso.
Nicholas ergueu uma sobrancelha.
— E nós não queremos?
Katarina riu.
— Definitivamente não. — respondeu. — Mas que opção temos?
Ele sorriu, entendendo exatamente o que ela queria dizer.
Foi então que uma voz cortante soou atrás deles:
— Nicholas.
O ar mudou.
O rei havia chegado.
A mudança foi imediata.
O sorriso morreu no rosto dos quatro no exato segundo em que a presença dele se impôs no corredor.
Nicholas foi o primeiro a reagir.
Num gesto quase inconsciente, deu um passo à frente e colocou Sophie ligeiramente atrás de si, como se o próprio corpo pudesse protegê-la do que quer que viesse. Não era racional. Era instinto puro.
O rei Edmund aproximava-se com passos firmes, acompanhado por Alistair, o secretário fiel que parecia existir como uma extensão silenciosa da vontade real.
Matthias foi o primeiro a se recompor.
Katarina e Sophie o seguiram imediatamente.
Os três fizeram uma reverência formal, contida, perfeita.
Nicholas não.
Não precisava. Todos ali sabiam.
O olhar de Edmund passou por cada um deles com precisão cirúrgica antes de parar no filho.
— Posso saber por que eu e Eleanor estamos aguardando vocês três para o café da manhã... — disse, pausado — ...e ninguém apareceu?
Nicholas sustentou o olhar do pai.
— Ora, pai. Estamos indo. — respondeu. — Todos reunidos.
— Claro — Edmund retrucou, seco. — E eu devo acreditar que isso é verdade?
— É — Nicholas confirmou. — Já estávamos a caminho do salão.
Katarina deu um passo à frente, suave.
— É verdade, Vossa Majestade.
Matthias assentiu.
— A senhorita Sophie se perdeu da dama de companhia e não sabia retornar à ala de hóspedes — explicou. — Estávamos apenas levando-a até lá.
Edmund ergueu levemente uma sobrancelha.
— Os três? — perguntou. — Ela precisa de dois príncipes e uma princesa para atravessar alguns blocos do castelo?
Nicholas abriu a boca, pronto para responder algo que definitivamente não ajudaria.
Mas Katarina foi mais rápida.
— Ela é nossa hóspede, meu rei — disse, com doçura firme. — Precisamos tratá-la bem. Nada mais cordial do que ajudá-la. Não é, meninos?
— Exatamente — Matthias confirmou, sem hesitar.
Nicholas virou o rosto para Katarina, visivelmente surpreso.
Ela continuou, impecável:
— Aproveitei para trocar algumas palavras com Nicholas — acrescentou. — Fazia anos que não nos víamos. Acabamos nos atrasando. Peço perdão por isso. Nunca foi nossa intenção deixar Vossa Majestade esperando.
Edmund a observou por um longo segundo.
— Muito bem — disse por fim. — Vocês vão conversar. Mas mais tarde.
— Estamos muito ansiosos por esse momento, não é? — Katarina respondeu, sorrindo com uma naturalidade quase provocadora.
Nicholas não respondeu.
Ela cutucou o braço dele, discreta.
— Não é?
— Com certeza, meu pai — Nicholas disse, recomposto. — Estamos muito ansiosos por esse momento a sós.
O rei não acreditou por um segundo sequer.
Mas assentiu.
— Alistair — chamou. — Leve a senhorita Sophie até a ala de hóspedes.
Depois, voltou-se para os três.
— E vocês, comigo. Para o salão.
Virou-se e partiu, sem esperar resposta.
Sophie soltou uma risadinha baixa.
— Eu gosto dela — comentou, sincera.
E seguiu com Alistair pelo corredor.
Katarina sorriu.
— Vou conversar com você depois — disse à Sophie. — Preciso de uma amiga nesse mausoléu.
Sophie riu e seguiu em frente.
Nicholas arregalou os olhos e deixou escapar uma risada incrédula.
— Mausoléu?
Katarina apenas olhou por cima do ombro... e riu, seguindo adiante.
Matthias observou a cena, satisfeito.
— Eu te falei que ela era incrível, não falei?
Nicholas não respondeu.
Apenas respirou fundo e seguiu para o salão ao lado do primo, com a sensação incômoda de que nada naquela história era tão simples quanto ele sempre acreditou.
O salão de café da manhã estava impecável.
Luz natural entrando pelas janelas altas, a mesa longa posta com precisão excessiva, criados se movendo em silêncio quase coreografado. Nada ali era casual. Nada nunca era.
Edmund ocupava a cabeceira, postura ereta, expressão fechada. Nicholas á sua direita. Eleanor sentava-se à sua esquerda, serena como sempre, tentando suavizar o ambiente apenas com a presença. Matthias estava alguns lugares abaixo, atento, discreto. Katarina sentava-se à frente de Matthias, postura perfeita, mãos repousadas com elegância sobre a mesa.
Nicholas mantinha as costas retas, o olhar controlado. A farda ainda pesava mais do que deveria.
O atraso não foi mencionado em voz alta, mas estava ali, pairando entre os talheres e os silêncios.
— Dormiram bem? — Eleanor perguntou, num tom gentil, depois dos primeiros minutos.
— Sim, tia — Matthias respondeu primeiro. — A noite foi tranquila.
Katarina assentiu.
— Muito confortável.
Nicholas respondeu por último:
— Sim, mãe.
Edmund não comentou.
O café seguiu com observações práticas: clima, agenda do dia, a chegada de alguns ministros ao longo da semana. Tudo fluía... relativamente bem.
Até que Edmund pousou a xícara com mais firmeza do que o necessário.
— Fiquei sabendo — disse, casual demais para não ser calculado — que você passou parte da manhã circulando pelo castelo antes do café, Nicholas.
O olhar dele encontrou o do filho.
Nicholas sentiu o maxilar tensionar.
— Sim, senhor.
— Interessante — Edmund continuou. — Considerando que temos horários claros para evitar... desencontros desnecessários.
Katarina manteve o olhar baixo, mas havia um brilho atento ali. Matthias permaneceu neutro.
Nicholas respirou fundo.
— Com todo respeito — disse, a voz controlada, formal —, eu resolvi uma situação pontual antes do café.
— Uma situação que exigiu atrasar todos nós? — Edmund perguntou, sem elevar o tom.
Eleanor pousou delicadamente a mão sobre a mesa.
— Edmund...
— Está tudo bem, Eleanor — ele respondeu, sem tirar os olhos do filho.
O silêncio se alongou por um segundo a mais do que deveria.
Então Nicholas falou:
— Será que eu poderia ter um momento com o senhor... meu pai?
A mudança de palavra foi sutil.
Mas todos à mesa perceberam.
Edmund ergueu o olhar lentamente.
— Você terá — respondeu. — Logo após o café. Na audiência.
— Não — Nicholas disse, com firmeza educada. — Eu não estou pedindo um momento com o rei. Estou pedindo um momento com o meu pai.
O salão pareceu prender a respiração.
Eleanor olhou de um para o outro, tensa. Matthias manteve os olhos baixos. Katarina, agora, observava abertamente curiosa, respeitosa, sem interferir.
Edmund ficou em silêncio por alguns instantes.
O rei.
O pai.
Por fim, assentiu uma única vez.
— Muito bem — disse. — Antes da audiência com o rei... nós conversamos.
Nicholas inclinou levemente a cabeça.
— Obrigado.
O café continuou.