O beijo aconteceu antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de pensar.
Nicholas foi quem se inclinou primeiro, como se fosse puxado por algo maior do que a própria vontade. Os lábios tocaram os dela com urgência contida, um choque quente, faminto, que não tinha nada da delicadeza do primeiro beijo.
Sophie suspirou contra a boca dele.
Era diferente. Mais intenso. Mais fundo. Como se tudo o que tinham segurado até ali tivesse finalmente encontrado saída.
Nicholas levou a mão à nuca dela, os dedos se perdendo no coque baixo, desfazendo-o sem cuidado. O cabelo caiu sobre os ombros de Sophie no mesmo instante em que ele a puxou mais para perto, colando o corpo dela ao seu.
Ela sentiu.
O calor.
A pressão.
A presença dele inteira, firme, real demais para ser ignorada.
O suspiro dela virou um gemido baixo quando os lábios dele se moveram com mais decisão, pedindo passagem. Sophie abriu a boca sem pensar, e o beijo se aprofundou, lento e intenso ao mesmo tempo, línguas se encontrando num ritmo descompassado, como se nenhum dos dois soubesse exatamente o que estava fazendo, apenas que precisava continuar.
Nicholas gemeu baixo, quase imperceptível, quando sentiu a resposta dela. O som vibrou entre eles, arrancando outro suspiro de Sophie. As mãos dele desceram pelas costas dela, apertando com cuidado e fome misturados, como se quisesse decorá-la com o toque.
Ela se agarrou à camisa dele, os dedos tremendo, o corpo reagindo antes da mente conseguir acompanhar. O mundo parecia ter desaparecido ao redor. Não havia mansão. Não havia rei. Não havia acordo algum.
Só aquele beijo.
Só aquela sensação perigosa de que estavam ultrapassando uma linha invisível e não tinham a menor intenção de voltar.
Quando o ar finalmente faltou, foi Sophie quem se afastou primeiro, a testa apoiada no peito dele, respirando rápido demais. Nicholas manteve os braços ao redor dela, como se soltá-la fosse impossível.
Ele encostou a testa na dela.
— Isso... — murmurou, a voz rouca, desarmada — não estava no plano.
Ela sorriu, ainda sem fôlego.
— Eu sei.
Mas nenhum dos dois parecia arrependido.
Pelo contrário.
Nicholas acompanhou Sophie até o carro, abriu a porta para ela e esperou que se acomodasse antes de fechar. Encostou a mão no teto por um instante, inclinando-se para falar mais baixo.
— Eu te ligo — prometeu.
— Vou cobrar — ela respondeu, sorrindo.
Ele sorriu de volta, daquele jeito meio bobo, meio perdido, que não combinava em nada com um príncipe herdeiro. Observou o carro se afastar pela alameda e só então respirou fundo.
Quando virou de costas e entrou novamente na casa, percebeu que ainda sorria.
O que está acontecendo comigo?
Eu inventei isso hoje.
Hoje.
Caminhou pelo corredor longo, os passos ecoando no piso impecável.
Será que eu estou mesmo apaixonado?
Isso é loucura.
A imagem dela voltou inteira: o toque, o beijo, a pele quente sob seus dedos, os lábios firmes respondendo aos dele. Sacudiu levemente a cabeça, tentando se recompor antes de entrar na sala.
Seus pais estavam lá.
E, ao lado deles, um homem alto, magro, de cabelos grisalhos bem penteados, vestindo um terno sóbrio e carregando uma fita métrica pendurada no pescoço.
Nicholas parou por um instante.
O alfaiate real.
— Alteza — disse o homem, inclinando a cabeça com respeito.
Nicholas retribuiu a reverência automaticamente, como sempre fizera a vida inteira. Mas, dessa vez, quando ouviu o Alteza firme e formal, não sentiu nada além de um leve distanciamento.
A mente ainda estava em outro lugar.
Ele sorriu.
— Espero que o senhor faça a farda mais bonita que já fez na vida, Henrik.
Henrik arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Esse é sempre o objetivo, Vossa Alteza.
Eleanor riu.
— Que animação é essa, filho?
— Nada — Nicholas respondeu rápido demais.
Do sofá, Edmund observava a cena com um meio sorriso satisfeito.
— Isso aí é amor, minha rainha — comentou. — É capaz de deixar um marmanjo rindo à toa como ele.
Eleanor riu mais alto.
Nicholas não desmentiu.
Porque já estava pensando nela outra vez.
No beijo.
No toque.
Na sensação perigosa de que aquilo não era fingimento.
Respirou fundo, se controlando antes que o corpo resolvesse reagir no pior momento possível.
— Mãe — disse, olhando para Eleanor — você vai ficar aí olhando?
Ela cruzou os braços, divertida.
— Ué, por quê?
Nicholas começou a desabotoar a camisa.
— Porque eu vou tirar as calças pra ele tirar as medidas direito.
Eleanor arregalou os olhos.
— Nicholas! — exclamou. — Pra quê isso, meu filho? Você quer tanto assim ficar bonito para Sophie que precisa ficar nu na frente do senhor Bauer?
Henrik pigarreou, constrangido.
Nicholas caiu na risada.
— Era brincadeira, mãe.
Ele tirou apenas a camisa, ficando sem camisa, de calça e meias.
— Fica tranquila.
Henrik aproximou-se, profissional como sempre, começou a medir ombros, peito, cintura, braços.
— Na verdade — disse o alfaiate — eu já preparei uma base.
Nicholas piscou.
— Já?
— Com base nas medidas de Vossa Alteza aos dezoito anos — explicou — acrescentei um pouco aqui e ali. Acredito que teremos poucos ajustes.
Ele trouxe as peças-base e ajudou Nicholas a vesti-las. O corte era impecável, mas ainda havia marcações, alfinetes, ajustes por fazer. Henrik media, marcava, analisava em silêncio absoluto.
— Perfeito — disse, por fim. — Faço os ajustes ainda hoje.
Fez uma leve reverência e se retirou.
Edmund cruzou as mãos, satisfeito.
— Assim que a farda ficar pronta, voltamos para Auren.
Nicholas assentiu.
Eleanor inclinou a cabeça.
— Sophie vai conosco?
Nicholas parou.
De verdade, parou.
Ele não a tinha convidado. Tinha falado em talvez. Um dia. Como algo distante.
Mas a ideia de deixá-la para trás fez seu estômago revirar.
— Eu... não a chamei ainda — admitiu.
Edmund o observou com atenção.
— Então está na hora de chamar. — disse. — Partiremos em breve. Se ela for, há muito o que preparar.
Nicholas engoliu em seco.
— Eu falo com ela — respondeu. — Confirmo.
Fez uma pausa, depois completou, sem pensar demais:
— Ela vai. Eu não quero ficar sem ela.
Edmund riu.
— Você não quer... mas e se ela não quiser morar lá?
Nicholas balançou a cabeça.
— Ela precisa querer, pai. — disse, firme. — Deixar a Sophie aqui não é uma opção pra mim.
O rei sorriu, claramente satisfeito.
— Você está mesmo apaixonado, não é?
Nicholas respirou fundo.
— Acho que estou mais do que achei que estava.
Hesitou um segundo, depois emendou:
— Se puderem me deixar ir agora... eu falo com ela ainda hoje. Levo pra comprar umas coisas que ela vai precisar pra viagem.
Eleanor franziu a testa.
— Coisas?
— Roupas — ele explicou, rindo. — Creio que o guarda-roupa da Sophie não seria muito bem-vindo em Auren.
Os dois reis riram.
— Imagino — disse Edmund. — Brasileiros se vestem de forma mais... — fez uma careta — eu nem tenho palavras.
Nicholas vestiu a camisa rapidamente.
— Posso ir?
— Vá — Edmund permitiu. — Tem dinheiro suficiente para renovar um guarda-roupa inteiro?
— Tenho — respondeu. — Mas se quiser contribuir, pode me dar.
Edmund olhou para Eleanor.
— Olha como seu filho é cara de p*u.
Ela riu.
— Você perguntou, amor. Agora aguenta.
O rei pegou o celular.
— Aliás, vocês têm um sistema maravilhoso aqui que precisamos adotar em Auren.
Nicholas arqueou a sobrancelha.
— PIX?
— Isso! — Edmund respondeu, animado. — O dinheiro cai na mesma hora. É fantástico.
— O senhor abriu uma conta só para passar alguns dias aqui?
— Precisava de dinheiro local — deu de ombros. — E não podia sair por aí com uma maleta cheia de dinheiro vivo.
Nicholas riu.
— Justo. Posso falar a chave?
Edmund digitou rápido. Segundos depois, o celular de Nicholas vibrou.
— Pronto — disse o rei, satisfeito.
Nicholas guardou o aparelho.
— Chego para o jantar... — fez uma pausa — aliás, não. Vou jantar com a Sophie. Chego depois.
— Vá — Edmund respondeu, rindo.
Nicholas saiu praticamente correndo.
Eleanor observou a porta fechar.
— Ele está perdido — comentou, sorrindo.
— Perdido não — Edmund respondeu. — Encantado.