Nicholas respirou fundo uma última vez, como se guardasse aquele momento num lugar seguro dentro de si. Depois se afastou só o suficiente para encará-la, forçando um meio sorriso que não enganava ninguém.
— E então... — disse, num tom deliberadamente casual demais — como foi a conversa com a Katarina?
Sophie piscou, surpresa pela mudança abrupta de assunto. Por um segundo, pensou em responder com leveza. Mas acabou soltando um riso curto, quase irônico.
— Bom... — inclinou a cabeça de lado — ela sabe sobre nós.
O corpo de Nicholas enrijeceu.
— Como assim sabe?
— Sabe. — Sophie confirmou, divertida. — Você não é exatamente o noivo mais dedicado do mundo, não é, Nick?
Ele franziu a testa.
— Eu tentei ser discreto.
Sophie soltou uma risada mais aberta dessa vez.
— Tentou? — provocou. — Você chegou ao castelo, causou um alvoroço histórico... e nem foi vê-la. Não disfarçou nada.
Nicholas passou a mão pelo rosto.
— Eu não quis. — disse, simples.
— Pois é. — Sophie deu de ombros. — Ela percebeu tudo sozinha.
Ele a encarou, atento.
— E...?
— E ela parece ser bem legal. — Sophie completou, honesta. — De verdade.
Nicholas arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Espera aí... — inclinou a cabeça — você está me empurrando para a princesa, Sophie? Cansou de mim?
Ela riu, balançando a cabeça.
— Não. Claro que não.
O sorriso dela suavizou antes de continuar:
— Mas se todo esse plano der errado... se você tiver mesmo que acabar se casando com ela... ao menos não vai ser um fardo.
Nicholas a olhou como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— Você está falando sério?
— Estou sendo realista. — respondeu.
Ele respirou fundo, a voz saindo mais firme do que se sentia.
— Isso não vai acontecer. Eu não vou me casar com ela.
Sophie sustentou o olhar dele por um instante longo demais.
— Claro. — disse, com suavidade. — E vai deixar uma guerra começar?
O silêncio caiu pesado entre eles.
— Vai se esconder no Brasil comigo — ela continuou, sem elevar a voz — e dormir tranquilo sabendo que pessoas de um reino que você nasceu pra proteger estão morrendo por causa das suas escolhas?
Os ombros de Nicholas cederam. Literalmente. Como se o peso que ele vinha sustentando o dia inteiro finalmente tivesse encontrado palavras.
— Não é justo. — murmurou.
— Nem sempre é. — Sophie respondeu. — Mas é a realidade.
Ela respirou fundo antes de continuar, mais vulnerável agora:
— Eu vim até aqui porque acreditei que existe uma chance disso dar certo. Mas, Nick... a gente sabe que é pequena, não sabe?
Ele não respondeu.
— Se tiver que se casar... — a voz dela falhou por um segundo, mas ela continuou — você vai se casar. E eu vou embora. Pra bem longe.
Os olhos dele se encheram de lágrimas de novo. Assim como os dela.
— Eu não vou suportar te ver casando com outra mulher.
Nicholas passou a mão pelo rosto, a voz quebrada.
— Me desculpa... por ter te enfiado nisso tudo.
Ela franziu a testa.
— Me enfiado?
— Sim. — ele assentiu, amargo. — Eu inventei essa história. No desespero, menti pro meu pai dizendo que te amava. Convenci você a entrar nessa farsa... e olha onde estamos agora.
Sophie o encarou por alguns segundos... e então riu. Um riso baixo, cheio de afeto.
— Nick... — disse, balançando a cabeça — você acha mesmo que dizer pro seu pai que me amava foi uma mentira?
Ele ficou em silêncio.
— Isso tudo tem dias. Poucos dias. — ela continuou. — Você acha mesmo que a gente se apaixonou assim, do nada?
Ela se aproximou um pouco mais.
— Tudo isso já existia. A gente só não enxergava.
Os olhos dele ficaram fixos nela, encantados.
— Em cada café que eu preparava pra você sem você pedir, só porque eu percebia o seu cansaço. — Sophie disse. — Em cada vez que você perguntava como tinha sido a minha noite. No nosso dia a dia... a gente já se amava. Mesmo sem perceber.
Nicholas engoliu em seco. Ela tinha razão.
— Então não me peça desculpas por me trazer até aqui. — ela completou. — Eu vim sabendo que podia dar certo... mas que a chance maior era dar errado.
Ela respirou fundo.
— Eu vim pra aproveitar o pouco tempo que resta pra nós dois. Mas eu acho que, no fundo... a gente sempre soube.
A voz dela saiu quase num sussurro.
— O pai da Katarina não vai aceitar o fim desse noivado. Ele quer a filha rainha.
Nicholas sentiu o rosto molhado outra vez. Secou as lágrimas com a mão, sem vergonha.
— Essa conversa toda... — murmurou — soa como uma despedida.
Sophie se aproximou e tocou o rosto dele com cuidado.
— Não é. — disse. — Ainda não.
Ela encostou a testa na dele.
— Mas a gente precisa ser sincero um com o outro. E você precisa cumprir a sua parte do combinado... me dar o dinheiro pra voltar, caso eu queira.
Ele respirou fundo.
— Você teria coragem de ir embora sem falar comigo?
Ela sorriu, triste e doce ao mesmo tempo.
— Você não precisa se preocupar com isso agora.
— Por quê?
— Porque agora... — Sophie respondeu, baixinho — eu não vou embora.
Nicholas ficou alguns segundos em silêncio depois da conversa. O corpo ainda perto do dela, mas a mente já sendo puxada para fora daquele quarto.
Ele respirou fundo, como quem se prepara para atravessar uma porta pesada.
— Eu preciso ir. — disse, por fim.
Sophie franziu a testa imediatamente.
— Nick... você não tá bem.
Ele soltou um meio sorriso cansado, sem humor algum.
— Eu sei.
Passou a mão pelo rosto, cansado demais para fingir o contrário.
— Mas os compromissos não param porque o príncipe está com problemas emocionais. — disse, seco. — A verdade é que aqui ninguém liga pra isso de fato. A presença importa. Parecer forte importa.
Ele a encarou, sincero.
— Eu tenho que ir.
Sophie assentiu devagar, mesmo contra a vontade. Aproximou-se, segurou o rosto dele entre as mãos.
— Vai. — disse. — Mas não se perca lá fora.
Nicholas fechou os olhos por um instante, inclinando-se para um último beijo. Não foi intenso. Não foi urgente. Foi carregado de tudo o que eles não podiam fazer.
Quando se afastou, soltou um suspiro pesado.
— Vou mandar entregarem para você o dinheiro. — disse. — E um chip com uma linha local.
Ela piscou, surpresa... e então sorriu, genuinamente animada.
— Sério?
— Assim, mesmo que a gente não possa se ver... — ele continuou — a gente se fala.
O sorriso dela se alargou.
— Eu adorei essa parte do plano, alteza.
— Vou mandar alguém providenciar amanhã. — ele respondeu, já se afastando. — Prometo.
Ela assentiu, observando enquanto ele se recompunha do jeito que dava, ajeitando a postura, vestindo outra vez o papel que o mundo exigia.
Quando a porta se fechou atrás dele, Sophie ainda sentia o eco do beijo nos lábios.
Nicholas chegou ao salão de jantar atrasado.
Tarde o suficiente para que todos já estivessem sentados.
Tarde o suficiente para que o som dos talheres parasse por um segundo quando ele entrou.
O rei, a rainha, Matthias e Katarina já comiam.
Ele atravessou o salão com passos firmes demais para quem não estava inteiro. Curvou a cabeça em cumprimento, sentou-se no lugar designado, tentou se encaixar naquele cenário como se não tivesse acabado de deixar parte de si em outro quarto do castelo.
Mas era visível.
O olhar cansado.
O maxilar tenso.
A maneira como ele segurava os talheres sem realmente usá-los.
A rainha Eleanor foi a primeira a falar.
— Nicholas... — disse, com doçura contida — está tudo bem?
Ele respirou fundo antes de responder.
— Talvez seja melhor nem perguntar.
O silêncio caiu.
Matthias o observava com atenção demais. Katarina manteve o olhar baixo, respeitosa.
— Você parece exausto. — insistiu Eleanor, com cuidado.
Nicholas largou os talheres com um som seco demais para o ambiente.
— Eu estou aqui, não estou? — disse, sem elevar a voz, mas com uma firmeza que cortou o ar. — Então me deixem em paz.
O rei ergueu os olhos lentamente.
— Nicholas...
— Eu estou tentando. — ele continuou, agora olhando ao redor da mesa. — De verdade. Tentando seguir isso. Tudo isso.
A voz falhou por um segundo. Ele respirou fundo e retomou.
— Mas não exijam mais de mim. Não exijam que eu fique bem de verdade.
O salão estava completamente em silêncio agora.
— Porque talvez isso nunca aconteça. — disse, honesto demais. — No máximo... em algum momento, depois de eu fingir por tempo suficiente, eu comece a acreditar.
Ele baixou o olhar por um instante, recompôs-se.
— Mas agora... — levantou os olhos outra vez — não me pressionem.
A voz saiu mais baixa. Mais perigosa.
— Porque eu vou explodir. E eu não quero ferir ninguém nessa explosão.
Ninguém respondeu.
O rei apenas assentiu levemente. A rainha desviou o olhar, emocionada. Katarina permaneceu imóvel, o rosto sério, respeitando algo que ela claramente entendia, mesmo sem nomear.
Nicholas voltou a pegar os talheres.
Não porque estivesse com fome.
Mas porque ainda estava ali.
E, por enquanto, isso era tudo o que ele conseguia oferecer.